Prazeres da mesa

Safra histórica

O ano de 2012 pode entrar para a história como um dos melhores para os vinhos brasileiros. A safra foi fantástica

Por: | 13.nov.2012

Por Jorge Carrara

Os vitivinicultores gaúchos estão com um sorriso de orelha a orelha. Pelo menos todos os que encontrei durante minha última visita ao Rio Grande do Sul. Motivos para isso não faltam. O Estado está comemorando uma safra única em matéria de qualidade. Um inverno rigoroso e o clima seco e ensolarado durante a época da evolução final das uvas (quando habitualmente costuma chover) permitiram colher cachos com um estado de sanidade e maturação perfeito, dando forma a uma colheita inédita. A de 2012 deve  ser consagrada como uma das melhores da história. Ainda teremos de esperar um pouco para conferir os primeiros exemplares deste ano promissor, mas o tour pela Serra Gaúcha permitiu provar novas safras de velhos conhecidos e também algumas boas novidades que deverão chegar às prateleiras em breve (várias  delas  deverão ser lançadas na Expovinis, em São Paulo).

aurora
O antigo Centro Tecnológico da Cooperativa de Bento Gonçalves foi transformado no berço de uma nova linha premium da casa. A propriedade, em Pinto Bandeira, que abrigava parreirais experimentais, passou para a produção: foi replantada com 16 hectares de Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálico. O lugar deverá abrigar também uma vinícola (que já tem lugar marcado no topo de uma linda colina rodeada de vinhas). Nela, deverão nascer espumantes com a denominação de origem do lugar, Pinto Bandeira, e também um Chardonnay tranquilo. Foi servida lá a primeira edição do Chardonnay, safra 2011. Vinificado em cubas de inox, parte do vinho passou três meses em carvalho americano. Denso em boca, com boa acidez, tem bom conteúdo de fruta (abacaxi-verde, limão e leves frutas tropicais) temperado por tênues toques de madeira. A julgar por ele, vale a pena aguardar as borbulhas (88/100).

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Seu diretor técnico, o enólogo Adriano Miolo, descortinou novidades dos diversos cantos vitivinícolas onde opera o grupo. Dois dos destaques, ambos 2011 (ainda não engarrafados), são oriundos da Campanha, no extremo sul do Rio Grande do Sul, na fronteira uruguaia. Um vem da Fortaleza de Seival, em Candiota: o Alvarinho, que marca a estreia no Brasil de uma cepa rara no Cone Sul. O vinho (um ano em barricas) mostra aroma e sabor ricos que combinam geleias e frutas maduras (como maracujá) com pinceladas verdes fundidas num paladar vivaz (88/100). O segundo nasceu na Almadén, em Santana do Livramento – o Tannat Vinhas Velhas, frutado, com suaves tons de couro e especiaria, levemente tânico ainda, mas equilibrado e com bom final (88/100).

salton
Foram servidos dois tintos 2011, que integrarão uma nova linha da casa (sem nome definido) que deverá aparecer com preços similares aos dos Volpi: um Marselan e um Teroldego. O Marselan agradou pela fruta (ameixas) bem mesclada com tons tostados e de pimenta. No Teroldego, também com bom corpo, aparecem notas de torrefação, mas temperando um paladar marcado por cereja (os dois 86/100).

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Os melhores goles da visita correram por conta dos espumantes, como o Reserva Brut 2009, corte de Chardonnay (70%) e Pinot Noir, amadurecido por 25 meses com as leveduras antes de ser finalizado. Brioche, pão fresco e geleias se mesclam no aroma e no paladar, cremoso e com boa acidez (88/100).
Bom também é o Reserva Extra Brut 2006 (80% Chardonnay, 20% Pinot Noir, 60 meses com as leveduras), com bom corpo, de sabor complexo (suave café, chocolate branco, pão tostado, frutas cristalizadas), com bom peso e textura em boca, persistente (89/100).

outras destaques
Bons goles surgiram também em diversas provas programadas na visita, destaquei algumas. Entre os espumantes agradou um Moscatel da Cooperativa São João, de Farroupillha: o Castellamare, perfumado, marcado por notas florais e de limão-siciliano, com bom equilíbrio entre açúcar e acidez (86/100) (www.castellamare-sandiego.com.br). No departamento dos rosados, menção para um que penso estar entre os melhores nacionais da categoria: o Fausto 2011 da Pizzato – um Merlot, rico nas frutas vermelhas e nos toques cítricos, nervoso em boca, muito prazeroso (87/100). No canto dos tintos, a Luíz Argenta de Flores da Cunha chamou atenção com um Syrah 2011, um vinho para beber já, redondo, com taninos finos, unindo fruta intensa com notas de especiaria num paladar equilibrado e com bom final (87/100). www.luizargenta.com.br

A Valmarino, de Pinto Bandeira, marcou pontos com um Cabernet Franc (a cepa é uma de suas especialidades) safra 2008. Parte do vinho passou 17 meses em barricas. Rico no nariz e na boca (geleias, compotas, especiaria), mostrou bom corpo e textura, dada por taninos finos (88/100). www.valmarino.com.br

A Dunamis também merece espaço. A vinícola, com pouco tempo no mercado, pertence a José Antonio Peterle, agropecuarista, e tem vinhedos em duas regiões: em Cotiporá, no norte da Serra Gaúcha, berço de seus espumantes, e em Don Pedrito, na Campanha, fonte dos tintos. Provei várias edições de alguns rubros. O melhor foi o mais recente, o Cor 2011, corte de Merlot (50%), Cabernet Franc (40%) e Cabernet Sauvignon. Um vinho agradável, de corpo médio, com bom conteúdo de frutas vermelhas, leve baunilha e suave caramelo dominando um paladar macio (87/100). www.dunamisvinhos.com.br

Outra grata surpresa foi a jovem adega Copetti e Czarnobay. Sua base é em Encruzilhada do Sul, na Serra do Sudeste, a 170 quilômetros ao sul de Porto Alegre, polo vitivinícola em alta. A casa tem 4,2 hectares de vinha e a primeira (e única) adega do lugar. Ela pertence ao advogado André Copetti (que a fundou em 2003) e ao enólogo António Czarnobay, seu sócio desde 2009, que durante longos anos capitaneou cubas e barricas na Aurora, talhando alguns dos melhores exemplares da empresa. A minúscula vinícola (13.000 litros por ano) elabora também espumantes, mas está aqui hoje por um de seus tintos, o Altos das Figueiras 2009, um Merlot amadurecido por 12 meses em carvalho francês, um vinho muito gostoso, marcado por frutas vermelhas, elegante e equilibrado, com taninos finos e bom final (88/100). antonio.czarnobay@gmail.com

* Jorge Carrara viajou para o Rio Grande do Sul a convite do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin).

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*Escreve também para o site Basilico

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