Prazeres da mesa

SALVE O BERBIGÃO

Por: Prazeres Da Mesa | 10.jan.2017

Por Flávia G. Pinho

Campanha tenta evitar a extinção do molusco, que já foi símbolo da culinária de Florianópolis

Provavelmente você já ouviu falar muito desse molusco pequenino e saboroso, mas não está ligando o nome à “pessoa”. Embora os habitantes da capital catarinense adotem a nomenclatura de origem portuguesa, herdada dos imigrantes açorianos, ele é mais conhecido no resto do país como vôngole – aquele mesmo, de casca rajada e arredondada, tão apreciado sobre as massas italianas. Comum em vários países, nosso berbigão (Anomalocardia brasiliana) sempre foi especialmente farto nas áreas de mangue da costa catarinense, onde já serviu de sustento para uma parcela considerável da população local – embora somente 35 famílias estejam cadastradas na Reserva Extrativista Marinha do Pirajubaé, criada oficialmente em 1992, estima-se que o número chegue a 200.

“Estamos removendo o acúmulo de conchas no mangue, resultado da enorme mortandade que houve nos últimos anos. Os próprios pescadores acreditam que isso pode estar impedindo o reaparecimento dos berbigões”

No passado, não faltava berbigão. Fácil de pegar à mão, porque vive pertinho da praia, enterrado na areia das áreas mais rasas, o molusco era vendido barato para virar recheio de pastel ou risoto nos bares e restaurantes do litoral. Com um gancho nas mãos, cada pescador conseguia desenterrar até 30 quilos de berbigões em uma puxada só – por dia, dava para recolher 300 a 400 quilos. Mas a maré mudou. “Hoje, cada um colhe no máximo 40 quilos, com muito esforço”, afirma Fabiano Gregório, líder do Convívio Mata Atlântica do Slow Food e membro do Conselho da Reserva.

O declínio da produção começou na segunda metade da década de 1990, quando as obras para a construção de uma rodovia até o aeroporto removeram quase toda a areia de um dos principais bancos de berbigões da Reserva. Até 2000, segundo Gregório, a perda da produção atingia 70%. Bem mais tarde, no começo de 2015, um fenômeno climático (excesso de chuvas aliado à alta temperatura) agravou a situação. Os berbigões morreram em massa – quando se abriam as conchas, já estavam podres dentro.

Os poucos que sobraram já não ficam em Florianópolis. São despachados para São Paulo, que compra o molusco dentro da concha e paga mais. Em Santa Catarina, ao contrário, a tradição sempre foi consumir o berbigão fora da casca. “Apesar do baixo aproveitamento, uma vez que são necessários 10 quilos de moluscos para se obter 1 quilo de berbigões desconchados. Era comida de pobre, comercializada por quase nada”, diz Gregório.

Lançada em fevereiro deste ano, a campanha Berbigão Sempre, capitaneada pela ONG ambientalista americana Rare, tem uma penca de objetivos. Um deles é resgatar o valor do molusco mudando o hábito de consumo. O Slow Food participou do evento mostrando o potencial do berbigão na concha.

As equipes da Rare também têm se concentrado na questão ambiental – está em curso o primeiro experimento, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a Comissão Nacional para o Fortalecimento das Reservas Extrativistas Marinhas e a Associação Caminhos do Berbigão. “Estamos removendo o acúmulo de conchas no mangue, resultado da enorme mortandade que houve nos últimos anos. Os próprios pescadores acreditam que isso pode estar impedindo o reaparecimento dos berbigões”, afirma Luís Lima, diretor da Rare no Brasil. Ainda é cedo para arriscar qual será o futuro do molusco catarinense. Mas a equipe da Rare está confiante, embora saiba que é praticamente impossível retornar ao volume de produção dos anos 1990. “Queremos que volte ao menos à situação anterior ao efeito climático de 2015”, afirma Larissa Stoner, gerente de programas da Rare Brasil. “Esse é nosso objetivo e ainda há esperança.”

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O movimento Slow Food faz manifestos pelo resgate de ingredientes e de processos de produção

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