Prazeres da mesa

Sem nunca perder o glamour

Por: Prazeres Da Mesa | 21.sep.2015

A Vinexpo, tradicional feira de vinhos de Bordeaux, na França, continua grandiosa, em tamanho e, claro, em charme e porte de rótulos

Não preciso arranjar desculpa para voltar a Bordeaux, região vinícola que reúne boa parte dos vinhos de maior reputação e prestígio do planeta, mas o fato de a cidade sediar a Vinexpo, a mais importante feira internacional do setor, faz com que meu programa de viagens preveja ao menos uma semana por lá em torno do dia 15 de junho dos anos ímpares.

A despeito do caráter internacional – 2.350 expositores de 48 países –, em termos de área a França tem presença marcante no salão, ocupando 65% dos 40.000 metros quadrados de estandes, seguida de Itália (11%), Espanha (5%), Chile (3%), Portugal e Argentina (ao redor de 2% cada um) – os demais 12% são divididos pelos outros países produtores. Continuam ausentes as representações oficiais da Austrália e da Nova Zelândia, que parecem ter desistido de vez depois de 2003, quando, devido à alta temperatura que castigou Bordeaux (e o resto da Europa por todo o verão) logo no primeiro dia do evento, deu pane no sistema de ar condicionado do hall 3, justamente onde estavam concentrados os expositores australianos e neozelandeses. Naquela situação, que até fez saltar a rolha das garrafas, eles fecharam o estande no início da tarde e foram embora em protesto contra o que chamaram de ato proposital dos organizadores da feira, em razão do avanço desses dois países no mercado internacional.

Os problemas de climatização foram resolvidos, assim como a infraestrutura interna e a do entorno melhoraram bastante – o salão conta com o apoio expressivo de Alain Juppé, personagem importante no cenário político da França de forma quase ininterrupta desde 1995 (foi primeiro-ministro e é prefeito de Bordeaux) –, mas não impediu que a Vinexpo sofresse séria concorrência da Prowein, feira que tem lugar anualmente em Dusseldorf, na Alemanha, sempre em meados de março. Primando pela organização e pelo foco no trade, a Prowein tem crescido bastante nos últimos anos e atraído produtores de toda parte.

Pela tradição e relevância dos rótulos bordaleses no cenário vinícola do planeta, a Vinexpo funciona como um termômetro do mercado, e não acredito que ela vá “esfriar”. A tendência é que o salão alemão se caracterize cada vez mais como uma feira de negócios, e o francês como um evento para analisar, discutir e perceber tendências do setor, com todo o seu lado glamouroso, alimentado, em especial, pelos jantares e festas nos châteaux. Nenhum outro lugar oferece igual requinte e suntuosidade.

No sábado, véspera da abertura oficial da Vinexpo, alguns felizardos têm a difícil tarefa de escolher entre os convites para o Dinner Officiel de l’Union des Grands Crus Classés de Graves, realizado neste ano no Château Smith Haut Lafitte, e o Dinner de la Fête de Printemps, em Saint Emilion. Mais restrito é o tradicional jantar black-tie que o Conseil des Grands Crus Classés, associação que reúne os châteaux de Médoc e Sauternes contemplados na célebre classificação de 1855, oferece aos representantes da imprensa internacional no primeiro dia do salão, sempre num dos châteaux classificados como Premier Grand Cru Classé – em 2005 foi no Château d’Yquem, em 2007 no Mouton Rothschild, em 2009 no Lafite, em 2011 no Haut-Brion, quando foi comemorado o 75o aniversário da compra da propriedade pela família Clarence Dillon, e em 2013 novamente no Mouton Rothschild, inaugurando as novas instalações do Château.

Dessa vez, a solenidade ocorreu no Château Margaux, celebrando os 200 anos da construção da sede, conhecida como o “Versailles” do Médoc. Os cerca de 480 convidados (imprensa, sommeliers campeões da categoria, donos de châteaux e amigos muito próximos dos anfitriões) começaram percorrendo a recém-terminada adega de vinificação construída especialmente para a fabricação do Pavillon Blanc, vinho branco elaborado de uma parcela de 12 hectares situada não distante da propriedade principal. Ainda na dependência de serem resolvidas questões burocráticas de legislação, é o primeiro passo para ser (re)lançado o Château Margaux branco, que já existira no século XIX. O projeto, assinado pelo celebrado arquiteto inglês Lord Norman Foster, é composto de uma ala de aço e vidro, privilegiando a luz e a transparência, com a estrutura suportada por pilares abertos na forma de galhos de árvore, em perfeita harmonia com a parte original,
de 1815.

Encerrando a feira, para quem ainda tiver fôlego e o smoking em condições, tem a Fête de la Fleur, um jantar para cerca de 1.500 convidados, organizado pela Commanderie du Bontemps, confraria que honra as tradições vitivinícolas das regiões da margem esquerda de Bordeaux – Médoc, Graves, Sauternes e Barsac. A deste ano, à qual não fui, ocorreu no Château Montrose.

No que diz respeito à Vinexpo propriamente dita, bom preparo físico e definição de prioridades são a base para aproveitar da melhor forma possível tudo o que a feira tem para oferecer. Sem falar na passada pelos estandes dos produtores conhecidos para ficar a par do que têm de novo (particularmente acompanhar as novas safras), duas atividades “fora do eixo” estavam em meu programa. A primeira, marcada com antecedência, foi uma degustação de vinhos chineses, comandada por Demei Li, um dos mais importantes e influentes personagens do mundo do vinho na Ásia. Enólogo premiado, consultor de projetos vitivinícolas de ponta em seu país e professor assistente na Beijing Agriculture University, Demei, de 45 anos, era a pessoa certa para comentar os 17 vinhos escolhidos pela Revue du Vin de France (RVF), entre os 120 melhores vinhos chineses da atualidade.

Só valeu pela curiosidade de conhecer um pouco do que se passa na vitivinicultura da China, pois os vinhos deixaram a desejar. Ainda que o jornalista da RVF (a revista tem uma edição chinesa) especializado no tema, Olivier Poels, tenha dito que a China está evoluindo muito rápido e que há quatro anos teria sido impossível propor uma prova como esta, a sensação geral era de certa frustração – a sala estava repleta, com gente de pé. Depois de degustar os oito vinhos brancos (seis eram Chardonnay) e nove tintos (oito à base de Cabernet Sauvi-gnon) e ouvir a explanação de Demei Li sobre as características de solo e clima das regiões apresentadas, fica a noção de que os chineses escolheram castas segundo critérios mercadológicos, não técnicos – daí a opção por Chardonnay e Cabernet Sauvignon. Assim, como o clima começa a esfriar prematuramente, a colheita tem de ser antecipada, o que implica uvas sem maturação fenólica adequada, particularmente a Cabernet Sauvignon, uma casta tânica e com ciclo vegetativo mais longo, resultando em taninos vegetais, adstringentes, e vinhos sem estrutura.

A outra tarefa curiosa a que me propus foi provar os vinhos da Geórgia, no Cáucaso, considerado o berço da bebida dos nossos tempos, que, depois de longo período de abandono por causa do regime comunista, voltou a ser o centro de atenção em razão do interesse de produtores do mundo todo em adotar a vinificação em ânforas, ou “qvevri”, como chamam a especialidade local. Os 11 produtores reunidos no estande – destaque, entre outros, para Château Mukhrani, Askaneli, Tbilvino – honraram as tradições da região com vinhos bem-feitos e, principalmente, apostando na riqueza das uvas nativas, em especial a branca Rkatitseli e a tinta Saperavi.

Um programa na Vinexpo, sempre pré-agendado, é a degustação dos “primeurs” de Bordeaux, um clássico da feira e que contempla boa parte dos melhores “cru bourgeois” e praticamente todos Grand Cru Classés (com exceção dos Premiers e alguns rótulos mais badalados), compreendendo aí as regiões do Médoc, Pessac-Léognan tintos e brancos, St. Emilion, Pomerol e Sauternes. Tão importante quanto tentar comparar e eleger os melhores é avaliar a qualidade da safra, no caso a 2014, e saber se vale a pena comprá-los “en primeur”. E a conclusão é bastante positiva: os vinhos surpreenderam favoravelmente, com leve supremacia para os tintos da margem esquerda. É, sem dúvida, a melhor safra depois de 2010 – seguida de 2012, 2011 e, finalmente, 2013, esta, tudo indica, a colheita mais complicada (para não dizer a pior) dos últimos 25 anos – como pude constatar na minidegustação vertical de Château Margaux, na companhia de Paul Pontallier, diretor-geral da propriedade. Vale ressalvar que o Margaux 2013 está bem longe de ser ruim, o que deve ser creditado a seu terroir excepcional e à rigorosa seleção das uvas que entraram no
primeiro vinho.

Jorge Lucki

*É um dos maiores conhecedores de vinhos do país e colunista do jornal Valor Econômico

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