Prazeres da mesa

Serve a comida no prato, vai?

Por: Prazeres Da Mesa | 6.may.2016

Como tem gente tentando reinventar a roda, não é?

Sempre me inquietei com os pratinhos infantis, aqueles que com divisórias, para colocar o arroz em uma parte, feijão em outra, carne do outro lado, tudo separado, como se comida contaminasse comida.

Também levei à debate, nas reuniões escolares, a comida misturada em uma espécie de montanha onde a base é sempre uma porção gigante de arroz branco, seguida de feijão e tudo mais que, nessa amalgama culinária, não tem gosto próprio.

“Vamos arrumar o prato dessas crianças para que elas reconheçam os sabores, se encantem com as cores e os aromas de cada alimento, aprendam a combinar o que dá liga?”, eu implorava às coordenadoras e pedagogas que me olhavam enviesado.

Me sentia um E.T. ao defender que educação à mesa começa em casa, vai à escola e, sim, é daquelas disciplinas que ensinam para a vida. Mais imprescindíveis do que algumas inutilidades que gastam tempo dos alunos.

Com meu estilo contundente e meio durão… preguei no deserto, mas não teria feito diferente porque acredito que nós, brasileiros, carecemos muito de educação à mesa.

Tenho me deparado, por exemplo, com invencionices que desafiam as leis da física e da boa educação. Vou falar sobre os sanduíches na tábua.

Por que cargas d´água inventaram essa moda de servir sanduíche em cima de um papelzinho fino, tudo em cima de uma tábua de madeira que – eu e você sabemos – é material difícil de higienizar?

Não estou falando sobre aquele hambúrguer básico que você agarra bem agarrado com as duas mãos e traça.

Estou me referindo ao sanduíche gourmet. Com lascas de funghi porcini, com bacon tostadinho, maionese de abacate, as cebolas caramelizadas, os molhos de pimenta, os tomatinhos confitados… aquele tipo de lanche que “escorrega”, sabe? E como escorrega, precisa ser bem trabalhado com garfo e faca. Mas, ao invés disso, restaurantes têm ignorado os talheres e optado pelo papel manteiga fino em cima das tábuas de madeira.

Entendo que barateia. Mas me sinto sempre em um impasse: coloco o guardanapo no pescoço e me atiro sobre o sanduíche, aconteça o que acontecer? Vou tirando bocados com os dedos, tentando não perder nada? Não… eu acabo pedindo talheres.

Mas ao abrir os trabalhos, inevitavelmente o papel esfarela, a tábua de madeira encharca com o que eu desejaria ser o melhor do molho… Termino a refeição sempre insatisfeita, sensação de ter comido sobre um prato usado e mal limpo.

Minha proposta é simples: o resgate dos bons e velhos pratos de porcelana. Cerâmica. Vidro, que seja. Mas pratos, que ainda são o suporte mais adequado onde colocar a comida. Pra quê inventar?

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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