Prazeres da mesa

SIMPLESMENTE... VINHO 2017

Por: Prazeres Da Mesa | 7.aug.2017

O Porto, em Portugal, abrigou mais uma edição do salão, que reúne os rótulos alternativos e os elaborados de maneira mais tradicional

Estive em mais uma edição, a quinta, do evento “Simplesmente… Vinho”, na cidade do Porto, em Portugal. Trata-se de um salão off de vinhos, quase todos naturebas, alternativos, biológicos, biodinâmicos e naturais, que acontece sempre na última semana de fevereiro. Neste ano, o evento cresceu e, sempre à beira do Rio Douro, mudou-se para o Cais Novo, exatamente em cima do Museu do Vinho do Porto. Um prédio lindo, que comportou muito bem a exposição de arte, os 85 expositores e até uma banda de rock.

Organizada pelo irrequieto e criativo João Roseira, o evento tem mais sucesso a cada ano que passa. Roseira é proprietário da Quinta do Infantado (Premium Wines) e dos vinhos Gouvyas, da Bago de Touriga, que faz em parceria com Luis Soares Duarte. Esse vinho, que foi um de meus destaques, já esteve por aqui pelas mãos da Adega Alentejana, mas hoje não conta com importação.

O evento é realmente especial por vários motivos. Consegue reunir muitos jovens, as paredes do salão são decoradas com obras de arte que estão à venda, os expositores de vinho, quase todos naturebas, expõem seus rótulos que ficam sobre barricas e as cuspideiras são vasos de barro enormes. O ingresso inclui uma taça, o programa e dois tíquetes para os comes, sempre muito bons, e tudo isso à beira do Douro. Ao final da noite, ainda tem rock da melhor qualidade. O trabalho do incansável João Roseira é apoiado por seus dois parceiros, o artista plástico Carlos Paiva (Karlown) e por Carlos Costa e a agência de Design e Eventos NAV, de seu filho Gustavo Roseira.

Sempre há jornalistas convidados. Neste ano estavam Sarah Ahmed, Simon Wolf e René Van Heudsen, além deste colunista. O objetivo, claro, é a divulgação desse Portugal de vinhos menos comerciais. De dois anos para cá, começaram a participar também alguns produtores da Espanha, e a ideia era ter brasileiros naturebas também, em uma união de povos, mas ainda não foi dessa vez.

Todos os anos, o Simplesmente homenageia um vinho. Em 2016, foi o Czar, de Fortunato Garcia, da Ilha do Pico, nos Açores. Agora foi Colares. Seu objetivo é chamar a atenção do público e da imprensa para a enorme cultura vinícula de Portugal e para alguns descasos inexplicáveis, como o de Colares, que quase desapareceu com a especulação imobiliária.

Destaques da feira

Entre os produtores que encontramos no Brasil, destaco a Filipa Pato (Casa Flora),  com seus Post Quercus (deverá ser lançado em breve); Vadio (Epice), de Luis Patrão, com um inusitado espumante de assemblage de três castas que ficam em solera antes da segunda fermentação; Quinta das Bágeiras (Premium Wines), com seus tradicionais Bairrada; Casa de Mouraz (Vinhos do Mundo), do abnegado cruzado do Dão, Antonio Lopes Ribeiro; Quinta da Pellada (Mistral), com seus puríssimos vinhos que nunca usaram químicos; e Luis Pato (Mistral), sempre apresentando surpresas, neste ano, uma linha de vinhos de 1991 que estavam de babar; e Afros, de Vasco Croft (Wine Lovers), um biodinâmico na raiz lá da região dos Vinhos Verdes; e Dirk Niepoort (Mistral), que é sempre destaque onde quer que esteja.

Entre os que infelizmente não vêm ao Brasil, há produtores que precisam ser provados por você, leitor, que gosta de vinho puro. Anote a lista para em uma próxima ida a Portugal não deixar de conhecer.

Antonio Madeira – Francês, filho de portugueses, volta às origens, e no Dão, na casa da avó, se instala na garagem e faz maravilhas. Antonio arrenda vinhas velhas, recupera-as em um paciente e longo trabalho de reconversão ao biodinamismo e, hoje, já tem 15 Crus na Serra da Estrela. Vai dar o que falar. vinhotibicadas@blogspot.pt

Quinta de Arcossó – Amilcar Salomão Salgado produz de forma orgânica e com leveduras indígenas o mais surpreendente Bastardo que já provei. Vem de Tras-os-Montes, da região de Ribeira de Oura. quintadearcosso.pt

Terras de Tavares – Um dos vinhos mais irreverentes, o Rufía, de João Tavares de Pina, arrebata os corações seja no tinto, seja no branco. Seu Terra de Tavares é classudo e longevo. Vinhos de leveduras indígenas. quintadaboavista.eu

Folias de Baco – O Tiago Sampaio faz vinhos deliciosos e inusitados no Douro. Seu local de trabalho é inacreditável, pois não cabe um terço do que tem lá dentro. Seu Uivo Renegado é uma provocação e ironia com a IVDP, pois ele produz exatamente o vinho que todo duriense fazia no passado. Fermentava junto todas as castas misturadas de sua Vinha Velha e no dia 11 de novembro, dia de San Martinho (vá à adega e prove o vinho), eles engarrafavam o vinho leve e fresco e o consumiam no dia a dia. Pois ele é do Douro, o vinho é tradicional, mas o IVDP não permite o uso do nome Douro no rótulo, pois não tem “tipicidade de vinho do Douro”… Em uma boa, heim, IVDP, que tal arejar a cabeça um pouquinho e pensar mais na preservação da cultura do Douro? foliasdebaco.com

Val de Capucha – Os vinhos do Pedro Marques são, todos os anos, dos mais comentados. Trata-se do Capucha. Seus vinhedos são distantes 8 quilômetros do mar e todo solo é de kirmeridien, supercalcário. São diversos rótulos frescos e minerais e sem intervenção alguma. Show. valedacapucha.com

Quinta da Vacariça – Outro nome que você deve anotar, pois vai dar o que falar. O irrequieto e apressado François Chassans se encantou com a Baga e comprou uma parcela especial dela na Bairrada, em Tamengos. Ele mesmo cuida de vinha por vinha, faz tudo sozinho. Um perfeccionista que, dentro de poucos anos, deixará o mercado de olhos arregalados. Seu vinho precisa de alguns anos de garrafa. O 2008, seu primeiro vinho, é para beber ajoelhado. Cara sério e biodinâmico. anote: quintadavacarica@gmail.com

Quinta de Vale dos Pios – O Joaquim Almeida faz maravilhas no Douro com suas vinhas velhas tratadas de modo natural. Vinho puro, sincero, delicioso. pios.pt

Bago de Touriga – Luis Soares Duarte e João Roseira fazem algumas maravilhas com vinhas velhas do Douro. Como gosto de Vinhas Velhas! E esses caras sabem extrair delas o que há de melhor. Seu Gouvyas de “curtimenta”,  que depois de meu artigo sobre o Ambar do Marco Daniele, passou a dar nome ao vinho deles também, que hoje se chama Gouvyas Ambar, é de beber ajoelhado. Você precisa experimentar a densidade, a complexidade e o frescor dessa maravilha. bagodetouriga@gmail.com

Edmun do VAl – Seus vinhos são deliciosos, mas meu destaque vai para o Gin, que os irmãos Olalia e Pablo Rubial fizeram tendo o Alvarinho como matéria-prima. O Gin é destilado sete vezes. Uma delícia. edmundoval.pt

Quinta da Palmirinha – Primeiro biodinâmico certificado Demeter em Portugal. Do sério e tranquilo professor Fernando Paiva, vem melhorando ano a ano. Agora, Fernando faz ensaios engarrafando o mesmo vinho, com e sem o SO2, dando uma de Pierre Frick. Vinhos deliciosos. sumbi@sapo.pt

Humus – O Rodrigo Filipe é jovem e tem a calma de um ancião. Produz vinhos elétricos na região de Lisboa, mais precisamente em Óbidos, na Quinta do Paço, de sua família. Vinhos biodinâmicos e naturais, zero de SO2 acrescentado ao vinho. Espetacular! encostadaquinta.com

Dominó – O Vitor Claro, ex-chef de mão-cheia, largou seu restaurante para se dedicar a fazer vinho natural. Arrendou uma vinha velhíssima em Portalegre, no Alentejo, vizinho da Espanha, e lá tem arrancado suspiros com seus vinhos. Negócio superpequeno e um sonho sendo realizado. Bonito de ver. Uma das unanimidades do Simplesmente. claro.vitor@gmail.com

Colares vive

Situada entre a serra de Sintra e o mar, a região de Colares é demarcada desde 1908, embora sua origem seja de 1255, quando D. Afonso III do Reguengo de Colares autorizou para que plantassem uvas lá. A curiosidade é que, como se trata de chão de areia, as vinhas não seguem a condução normal de espaldeiras ou arbustos, mas correm soltas pelo chão, devido aos fortes ventos da região. A casta tinta é a Ramisco e a branca é a Malvasia de Colares, ambas autóctones. Seus vinhos são longevos e muito particulares. As tintas de Ramisco costumavam ser vinificadas com a totalidade dos engaços, dando ao vinho muita adstringência, hoje usam apenas 40% de engaços, com o objetivo de tornar o vinho comercializável mais cedo. Há ainda o Colares de Chão Rijo, que são as videiras que foram plantadas longe da areia, em solo de argila, mas são inferiores. A fama dos Colares remonta à Phylloxera, pois a praga não ataca videiras em areia, e, na ocasião do enfrentamento desse drama, Colares chamou a atenção. Infelizmente a especulação imobiliária da década de 1970 quase dizimou esses vinhedos, que, supervalorizados para o turismo, reduziram a área plantada de 1.150 hectares para apenas 20 hectares!!! Hoje são produzidos cerca de 70 000 garrafas de Colares apenas.

Outra curiosidade de Colares é que, por decreto presidencial, todos os produtores eram obrigados a vinificar seus vinhos na Adega Regional de Colares, assim há os produtores e uma adega, a Regional de Colares. Em 1994 esse decreto foi anulado, mas todos continuaram a produzir vinhos na Adega Regional de Colares do mesmo modo, já que financeiramente é muito mais viável.

Simplesmente... Vinho - DIDU RUSSO

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*É fundador da Confraria dos Sommeliers

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