Prazeres da mesa

SÓ PERGUNTE MEU NOME SE FOR ME TRATAR BEM

Por: Prazeres Da Mesa | 28.nov.2015

Puxe pela memória e me responda: já perguntaram seu nome hoje? Aquele “simpático” na loja de eletrônicos, a outra, no provador do grande magazine ou qualquer funcionário de estabelecimento que pregue a infame política da intimidade como forma de fazer negócio? A figura que, antes mesmo de você colocar os dois pés ali, já sai indagando: qual é seu nome? Muito bem, entrou na cena, não é? Pois eu – até contrariando uma tendência espontânea ao sorriso fácil – tenho praticado política inversa à da boa vizinhança porque a simpatia ensaiada me incomoda.

Preâmbulos feitos, conto um caso que se deu comigo e meus acompanhantes em noites bem especiais. Comemorava meus 54 e, como fazem os que estão de bem com a vida – fui jantar. Na primeira noite, no tradicionalíssimo Marcel, em São Paulo. Lá mesmo, onde o suflê de gruyère não faz pouco do cliente. Vem, comme il faut, diriam os franceses. Estufadão, quente, ligeiramente crocante no topo, aerado de dar gosto no seu corpinho gorducho… Não à toa virou patrimônio gastronômico de São Paulo. E aqui estou eu, garfo em punho, esperando para devorar o patrimônio que ajudou minha cidade a ser essa beleza de menu, onde tem de tudo, onde tudo se acha. Já salivando, me aquieto quando o garçom se aproxima. Para minha surpresa, ele diz: “Inês, cuidado, está quente”. Pois me intriguei… como é que ele descobriu meu nome? Penso, penso… e concluo: fizemos a reserva… na reserva dois nomes… bingo. Lá está o MEU garçom do coração. Não perguntou e, ainda assim, sabe quem sou.

O suflê, incrível, ficou inesquecível. No dia seguinte, aportamos na descolada Brasserie ICI, no Shopping Market Place, em São Paulo. É cedo, o restaurante está vazio, escolhemos uma mesa com visão boa para o salão e ficamos ali, nos divertindo com incontáveis termos em francês rabiscados nas paredes. Hoje o serviço muda de cara. Garçom jovem, peitoral torneado, um sem-número de tatuagens nos braços e no pescoço. Entrega-nos o cardápio e pergunta nossos nomes. Penso que ele não registrou nada porque, rapidinho, o rapaz desaparece das nossas vistas.

01/12

Vamos de gnocchi com velouté de milho e steak com molho bérnaise. Os pratos desembarcam na mesa impecáveis e chega junto uma taça de vinho tinto – uma só porque nessa noite janto com meu filho adolescente. Faço cara de interrogação: “ãhhh… eu não pedi vinho”, quase me desculpando. Ao que me responde o jovem que nos serve: “Sim, Inês, você não pediu. Mas o mâitre ouviu o rapaz dizendo que é seu aniversário… Cortesia da casa”.

E foi assim que revi meus valores. Ser chamada pelo nome – mesmo quando quem chama são ilustres desconhecidos – pode ser bom. Pode ser muito bom.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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