Prazeres da mesa

Só porque é Natal

Por: Prazeres Da Mesa | 16.dec.2016

Eu tenho lembranças curiosas envolvendo Natal e comida. Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, passei um Natal com caxumba. Minha avó materna, a vó Anita, só preparava struffoli nessa época do ano e era uma briga de irmãos e primos para se jogar em cima das bolinhas fritas boiando no mel. Mas, com caxumba, aquela dor horrível atrás das orelhas, mastigar qualquer coisa mais firme do que miolo de pão se tornou missão impossível. Tive de esperar um ano inteirinho pra comer os struffoli outra vez, sem direito a crise de abstinência ou possibilidade de pedir à vó que preparasse as bolinhas fora de ocasião. Comida de Natal… se comia no Natal, ponto final.

Do lado de lá da família, vinham os parentes portugueses que nos visitavam todo final de ano. Como criavam galinha, porco, coelho… o presente era? Galinha, porco, coelho… Os bichinhos vinham limpinhos, em travessas enormes, prontos pra meter no forno, assar e comer. Mas qual forno?, perguntava a minha mãe – olhar prático, não exatamente uma cozinheira apaixonada – que engolia seco quando lhe botavam “a lembrança” nos braços. Depois repetia: “não cabe… não cabe…”, e seguíamos – ela e os filhos – rumo à padaria, pedir a gentileza ao dono, que assasse o bicho para a gente.

Àquela época não se cobrava pelo serviço; era como favor mesmo que o português nos concedia o forno. porque éramos clientes e porque (acho eu) sentia uma espécie de nostalgia ao constatar que naquela São Paulo imensa, ainda havia gente que presenteava com galinha, porco e coelho.

Em outros Natais estive, eu mesma, envolvida com meus biscoitos. Com o pequenino Leonardo – meu príncipe, meu minichef, meu filho – preparava os quitutes em forma de estrela, de Papai Noel, de flocos de neve… Com as mãos gordinhas e ágeis, Leo cortava a massa, enquanto eu esterilizava os vidros. Ele dispunha os biscoitinhos nas formas e eu queimava os dedos para tirar do forno. Juntos, fazíamos caber nos potes que, depois, eram dados às professoras da escola como presentes de Natal. Elas adoravam.

Os Natais foram mudando. Dia desses fui ao Mercadão e me deparei com os pães de mel alemães. Achei cara a embalagem com dez bolachões condimentados e cobertos com uma casquinha fina de chocolate. Mas fui convencida pelo sr. Rudolf: “compra… isso aqui a gente só recebe no Natal”. Advinha se não?

Na mesma tarde, tive a sorte de conhecer a simpática Stefan Behar Sucré, uma pâtisserie que trabalha no estilo “doces alta costura”, com chocolates dourados em forma de estrelas que derretem na boca. Gastei uma boa hora vasculhando a loja como se eu voltasse aos meus 8 anos e ainda não tivesse encontrado o presente do Papai Noel. Achei, de fato, quando cheguei em casa. Duas amigas, a Marília Lefosse e Aline Bacchieri, da Mélie Artisan Douce, produziram um fofo boneco de neve coberto com pasta americana e me mandaram com um cartão de Natal escrito à mão (pois é, ainda tem gente capaz dessas delicadezas). Me escondi na cozinha pra não ter de dividir e dei uma vigorosa dentada na cabeça do bonequinho. Feliz e sem culpa.
Natal é assim: tem coisa que a gente só come nessa época do ano (e não estou falando de arroz com passas). Até por isso é tão bom.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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