Prazeres da mesa

Sucessão no mundo dos vinhos

Por: Prazeres Da Mesa | 18.may.2016

Em boa parte da Europa, é problema descobrir uma maneira de passar adiante o negócio milionário de vinho

Foi inevitável não pensar sobre a questão da sucessão na vinicultura ao flanar por uma grande propriedade nos arredores de Roanne, acompanhada de Michel e Marie-Pierre Troisgros. Andamos a passos largos por uma casa de campo completamente vazia, na qual Marie-Pierre já podia ver os 14 quartos de luxo que ocuparão esse espaço, e visitamos o terreno baldio que Michel sabia ser o local destinado para a construção de um restaurante ultramoderno, de vidro.

A família Troisgros avança em direção ao seus sessenta anos, mas não mostra sinal de perda de energia. Incentivados pelo patriarca Pierre, de quem Michel herdou a cozinha do restaurante três estrela, mundialmente famoso no meio de Roanne – os Troisgros esperam se instalar, em março de 2017, no nesse novo local (atualmente um canteiro de obras) no vilarejo de Ouches.

Olhando com ternura pra a maquete das cozinhas futuras, Michel jurou que eles estão se dando todo esse trabalho somente por causa de César, seu filho simpático de 29 anos, firmemente estabelecido nos negócios da família, seguido, ao que tudo indica, de seu irmão mais novo, Léo.

Na noite seguinte, escutei a mesma história no restaurante duas estrelas de Michel Chabran no vale do Rhône. Madame Chabran, orgulhosamente, nos apresentou seu filho Louis, que celebrava seu 24º aniversário naquela noite, pilotando os fogões ao lado do pai exigente.

Nesse mesmo dia, eu tinha visitado Jean-Paul Jamet nas caves da família, situadas no planalto acima das encostas vertiginosas de Côte-Rôtie. E quem é esse rapaz sorridente acenando a mão, vestindo uma t-shirt da Vinícola Cape of Good Hope da África do Sul? Por que o jovem Loïc, da “safra” de 1993, decidiu entrar no negócio da família depois de uma temporada no Hemisfério Sul? É por isso que os Jamets estão ocupados tentando adquirir novos lotes, incluindo alguns em Condrieu, imediatamente ao Sul, para variar as atividades e garantir um futuro sério a Loïc ao possibilitar que o domaine sustente outro membro da família.

Em teoria, a questão da sucessão nos negócios de alimentos e bebidas está bem mais fácil:  os temas nunca estiveram tão na moda. Nunca o status social atribuído às profissões de chefe de cozinha, restaurateur e produtor de vinhos foi tão alto. No início de 1970, quando me formei, eu não ousava dizer que queria um emprego em algo tão frívolo quanto a gastronomia ou enologia. Por isso, era muito mais provável que os filhos mais inteligentes de um produtor de vinhos fossem procurar emprego em outra área em vez de herdar o domaine da família. Quanto às filhas …. faz muito tempo que mulheres como Lalou Bize-Leroy conseguiram trilhar o caminho incomum das mulheres profissionais do vinho.

Mas as marés da moda sempre mudam. Guillaume d’Angerville é um bom exemplo disso. Seu pai Jacques, Marquês d’Angerville e escudeiro de Volnay, insistiu tanto que Guillaume seguisse uma carreira em finanças, que ele acabou se tornando, literalmente, um passageiro transatlântico frequente para a empresa JP Morgan. Mas, desde a morte de seu pai em 2003, Guillaume passou a  gastar uma proporção crescente de seu tempo no domaine da família em Volnay, empreendendo até mesmo um novo negócio, o Domaine de Pélican, no Jura, a região da moda.

Um dos herdeiros de vinhos franceses mais afortunados deve ser certamente Philippe, filho de Marcel Guigal,que, além de ser um produtor talentoso, é um grande homem de negócios. Ao longo de sua vida, construiu sua empresa familiar na região norte do Rhône e acabou por se tornar a grande força independente por todo o Vale do Rhône. (No outono, por exemplo, eles recebem, por dia, uma média de 80 amostras de vinhos do Sul do Rhône, enviadas por vignerons esperançosos.)

Eu me lembro quando nós estávamos filmando Marcel para a nossa série da BBC2 no início da década de 90, e Philippe estava longe de ser o homem de negócios maduro e seguro de si que é hoje. Sua mãe deve ter rezado muito toda vez que ele chegava tarde em casa – e a dinastia deve ter ficado absolutamente animada quando sua esposa ficou grávida de gêmeos há cinco anos. Agora, a sucessão está garantida!

Mas, como me disse um casal de vinicultores independentes mais ao sul, é fundamental que, dentro de uma família, os sucessores possam decidir amigavelmente quem faz o quê. O ideal é que um dos netos de Guigal prefira ficar na produção e o outro no comércio. Esperemos que a produção de vinho seja um negócio suficientemente atraente em 20 anos.

Atingir a harmonia entre os membros de uma família pode ser um trabalho e tanto, como mostra, por exemplo, a divisão relativamente recente da propriedade de Louis Carillon, em Puligny-Montrachet, em diferentes domaines, um para cada um dos filhos François e Jacques.

Parece que não é só o tanque do carro de Príncipe Charles que é movido a vinho. Com algumas exceções conhecidas, o vinho é um excelente conservante para as pessoas. Nomes famosos como Georges Duboeuf, com 82 anos de idade, estão ainda trabalhando duro na condução dos negócios de Beaujolais. As degustações diárias, porém, não feitas com seu filho Frank, mas com seu neto, de quem ele é claramente muito orgulhoso. Adrien tem apenas 25 anos, filho do casal formado pela filha de Duboeuf e Jean-Paul Lacombe, proprietário da famosa brasserie Léon de Lyon - tenho fontes fidedignas que dizem que no cartão de visita de Adrien figuram os sobrenomes Duboeuf-Lacombe. “Adrien sabe mais sobre vinhos do que eu”, contou-me Georges, todo orgulhoso, quando nos encontramos em abril passado, na celebração da 60 anos da safra de Lalou.

Todo esse negócio da sucessão parece funcionar melhor na Europa, mesmo na França, onde o Fisco está sempre presente, esperando para atacar qualquer transferência de propriedade. Os impostos são realmente mais punitivos se uma propriedade do vinho é vendida a terceiros, mas os impostos também devem ser pagos, se a propriedade for transmitida aos herdeiros. Todo tipo de artimanha é utilizada para que uma empresa e o vinhedo tenham naturezas jurídicas diferentes, engordando os bolsos dos consultores fiscais. Mas o valor de algumas das melhores propriedades em Bordeaux e Borgonha é tão alto, que muitas famílias, especialmente aquelas com muitos acionistas, ficam tentadas a lucrar com a venda para terceiros em vez de pagar os impostos devidos na transmissão aos herdeiros.

Os australianos parecem ser muito bons na questão da sucessão, mas no Napa Valley costuma-se dizer que é possível contar com os dedos de uma mão o número de empresas de vinho que foram transmitidas com sucesso de uma geração para outra. À medida que as vinícolas amadurecerem, a porcentagem de sucessão irá certamente aumentar. Muito provavelmente houve brigas sérias entre os gigantes do Napa Valley: eu soube, por exemplo, que Bill Harlan da Harlan Estate (e muitos outros) tem dado considerável atenção ao processo de sucessão, buscando orientação a partir dos exemplos nas dinastias de vinho da Europa.

Suspeito que descobrir uma maneira de passar adiante um negócio milionário de vinhos é um problema que todos nós pensamos saber lidar.

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*É Master of Wine e escreve para diversas publicações em todo o mundo, além de manter o próprio site

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