Prazeres da mesa

Suspiro não, macaron!

Por: Prazeres Da Mesa | 3.jun.2016

Macarons - Inês de CastroHá alguns anos, conheci o italiano Edoardo Tonolli. Ele tinha vindo à rádio Bandnews, onde atuo como colunista, para uma entrevista. Antes de abrirmos os microfones e entrarmos​ no ar, combinamos de falar sobre a febre dos sorvetes italianos que haviam invadido o mercado.

Toda vez que eu me referia aos “sorvetes” da Baccio di Latte, que Edoardo estava trazendo para o país, ele me corrigia com sotaque carregado: Non é sorvete, Inés, é gelato!

Terminei a entrevista provocando o Edoardo: “boa sorte com os sorvetes!”, já tendo aprendido direitinho que sorvete era bem diferente de gelato.

Nessa mesma época, tinha como hábito frequentar a patisserie Douce France, do meu professor Fabrice Lenud. Com ele aprendi a fazer pães de azeite, pão de beterraba, pão integral… O cara é um mestre e toca com mãos de açúcar essa doceri​a que está entre as mais queridas dos paulistanos.

Eu e meu filho íamos à Douce France uma vez por semana e, lá eu o deixava escolher dois ou três macarons. Mas nada além dessa cota, até para ele saber que:

  1. É caro porque a matéria prima é importada
2. A diferença dos sabores é sutil e vale à pena identificar a comida gustativamente e não apenas com o crivo do olhar
3. Bastam poucos macarons para satisfazer o desejo por doce.Macarons - Inês de Castro

Assim, meu filho se acostumou a valorizar o docinho francês. No mercado de Santo Amaro, zona sul de São Paulo, onde vamos para comprar grãos, biscoitos e algumas especiarias, mostrei a ele, ainda aos 7 ou 8 anos, como eram as amêndoas, matéria básica para produzir a farinha com que se faz ​esses docinhos​.

Um dia,​em ​uma das nossas coloridas degustações na Douce France, ​entrou uma mulher acompanhada de uma criança pequena.

“Me dá um suspirinho desse aí? Pode ser o rosinha…”

E a vendedora: “a senhora quer o macaron de cereja ou este outro de lavanda… o mais roxinho?”.

“Não quero macarrão… Quero o suspirinho mesmo” Tranquila, a vendedora continuou: “a senhora quer um só?”

“Não… coloca uns 5″.

Na hora da conta… um berro: “credo, que valor é esse?”.

“Foram 5 macarons, senhora”.

“Mas 30 reais por ISSO?”

Aproveitei o episódio, que meu filho assistiu sem dar um pio, pra explicar a diferença entre doces artesanais e doces industrializados, para falar sobre ingredientes que valorizam uma comida, para explicar por quê vale à pena pagar por determinados pratos e por outros não… Educação se oferece em qualquer lugar. P​ara onde a gente olhar​,​ ​haverá um exemplo trazido na bandeja. Aproveitar é uma questão de disposição, vontade e paciência. Ah, e um pouquinho de ​interesse em aprender também.

Macarons - Inês de Castro

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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