Prazeres da mesa

Talharim, doce de leite e o nosso coração

Por: Prazeres Da Mesa | 11.feb.2016

Minha família é um mix. Meu avô Joaquim nasceu na Guarda, região pertinho da Serra da Estrela, em Portugal. A vó Ermelinda chegou ao mundo em San Lucido, na cenográfica Calábria, ao sul da Itália. Do lado materno, uma espanholada brava de Valência, na Espanha. Família de muitas mulheres fortes, longevas, vigorosas e boas com as panelas.

Tínhamos, na família, uma espécie de competição gastronômica. Num dia, a vó paterna se esmerava no talharim. Com uma faquinha, cortava fio a fio a massa feita em casa e cobria com pano de cozinha úmido pra não sair do ponto. Semanalmente, também nos levava panetones cobertos com açúcar cristal e o pão fofo vinha rescendendo pela rua; desembarcava ainda quente na nossa cozinha.

Pois não se passavam horas e lá estava a vó materna com o prato quente de doce de leite, esperando a temperatura baixar pra cortar em cubinhos. Se a tropa de nove netos desse sorte, ainda apareciam uns bolinhos de chuva. Vó-formiga. 

Nunca escrevemos as receitas – de uma ou da outra – em cadernos, com alguma formalidade. Mas como desfrutamos muito das avós, família-grude que sempre fomos, os sabores restam vivos nas nossas papilas. Vai daí que gosto de rememorar as origens, trazer quem já não está à beira nos fogões para a vida dos mais novos.

Dia desses, eu e meu filho fomos à Taberna da Esquina, do Vitor Sobral. Sei lá por que… Já entrevistei esse homem algumas vezes, ele fala pouco, não é de riso fácil, mas eu tenho encanto por ele e pelos seus restaurantes, admiro a paixão que ele nutre pela terrinha e a determinação com que ensina os pupilos a preparar seus pratos. Pois foi a vários deles que nos debruçamos eu e meu filho. Primeiro, uma viagem às lascas de bacalhau com grão de bico, depois, às lulas coentradas – um primor daquela cozinha, refrescadas por um vinho fresco e perfumado do Minho. Entre uma garfada e outra, historinhas de cá e de lá. Sabe vínculo? Tenho certeza de que a cozinha, a mesa, as bancadas… Todos são palcos dos melhores para tecer esse milagre das relações humanas.

Dia seguinte, fomos em busca de resgatar o outro lado da família. Desembarcamos no El Cordobés para comer, beber, nos lambuzar com uma taça de salmorejo – tomates batidos com pão, alho, azeite e braço forte dos ibéricos para esmagar tudo aquilo, devidamente salpicado com ovo cozido esfarelado e jamón serrano picadinho. Tá bem… Não é propriamente da Valência da minha avó. Mas ela me voltou à lembrança naquele dia.

Enquanto o sol ardia lá fora, eu trazia — do jeito mais amoroso que existe nesse mundo — as histórias da família para a vida do meu filho. Pois não é isso que nos faz a comida? Esquenta o coração, a alma e as lembranças? 

01/12
INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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