Prazeres da mesa

TERRA MADRE JOVEM

Por: Prazeres Da Mesa | 3.mar.2016

Por: Carol Sá – Coordenadora da Rede Jovem do Slow Food Brasil

Quem decide o futuro da alimentação? Para os componentes do Slow Food, a resposta passa pelo papel do jovem produtor rural

Alimentar o planeta é, sem dúvida, o maior desafio que nossa geração enfrenta. Neste ano, até a Expo Milano, tradicionalmente voltada para inovações tecnológicas, joga luz sobre o assunto e procura respostas. Realizada em Milão, de 1º de maio e 31 de outubro, com a participação de 140 países, o evento tem como tema “Alimentar o planeta, energia para a vida”. Infelizmente, o conceito se perdeu ao longo da feira. A Carta Milano, que deveria ser um manifesto sobre o futuro da nossa comida, acabou se concentrando nas artes gráficas e visuais. Diante desse cenário, o Slow Food e o Slow Food Youth Network assumiram um grande desafio: realizar, também em Milão, o evento Terra Madre Jovem – We Feed The Planet.

Acreditamos ser nosso dever apresentar um discurso oposto à visão corporativa, uma oportunidade que não poderíamos deixar passar em branco. É a chance de mostrarmos que o alimento é mais do que simples mercadoria e tratar dos problemas reais do sistema alimentar atual. Para tanto, demos voz àqueles que mais têm a dizer: os camponeses, artesãos da comida, pescadores, nômades e indígenas, que trabalham duro apesar de todas as dificuldades e nutrem o planeta com responsabilidade, dignidade e paixão. São eles que nos ensinam a proteger sementes, plantas, animais, água e solo, fontes insubstituíveis do nosso alimento. Sabemos que não há ninguém melhor do que eles para nos contar como assumir este dever nos próximos anos.

O Terra Madre Jovem – We Feed the Planet contou com a participação de jovens do mundo inteiro, das mais diversas áreas de atuação: produtores, chefs de cozinha, jornalistas, educadores, biólogos, indígenas e povos tradicionais. Todos juntos participaram de uma incrível imersão de quatro dias, composta de discussões abertas, oficinas interativas, debates e palestras. Confiamos que reunir esses jovens agentes transformadores contribui para a construção de um sistema alimentar bom, limpo e justo.

A participação brasileira foi significativa: foram enviados 50 jovens do país, vindos de diversas regiões, que vivem realidades bem distintas. Um deles é Guilherme Ferreira, 29 anos, veterinário de São Roque de Minas, MG, e produtor de queijo artesanal na Serra da Canastra. A queijaria da sua família foi a primeira da região a receber o registro no Sistema Brasileiro de Inspeção (SISBI) – e seu queijo levou a medalha de prata no Mondial Du Fromage, na cidade francesa de Tours, em julho. Guilherme, quinta geração da família a seguir o ofício, representa o elo jovem da tradição queijeira.

Também viajou para a Itália o técnico agrícola Rafael Oliveira, 23 anos. Índio tupiniqim, ele vive na aldeia Caieiras Velhas, em Aracruz, ES, terras indígenas que foram cercadas pelo monocultivo de eucalipto. Desde os anos 1950, é tensa a convivência entre índios e não índios. Apenas os mais velhos tiveram oportunidade de conhecer de perto a vegetação nativa da Mata Atlântica – os mais jovens já nasceram rodeados pela paisagem forjada para a exploração da celulose. Como técnico agrícola, Rafael se empenha, hoje, em recuperar as terras de seu povo, agora oficialmente reconhecidas pelo Estado brasileiro – sua equipe encabeça o projeto de plantio de sementes crioulas. Seguindo os princípios da agro ecologia, ele assume o compromisso de restaurar os recursos naturais para que seus filhos tenham a chance, assim como seus avós, de conhecer uma terra saudável em sua plenitude.

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O movimento Slow Food faz manifestos pelo resgate de ingredientes e de processos de produção

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