Prazeres da mesa

Tim-tim

Por: Prazeres Da Mesa | 5.dec.2016

A semana que passou não foi fácil para os brasileiros. E foi dificílima para quem vive o dia-a-dia nas redações. Como colunista de uma rádio de notícias, a BandNews FM, não atuo diretamente na produção de reportagens cotidianas. Mas quando os fatos atropelam o dia, ninguém fica de fora, todo mundo faz um pouco, todo mundo grava entrevistas, edita, participa de alguma forma porque há muito o que informar. E assim foi na dramática semana em que caíram um avião e um helicóptero, morreu um chefe de estado, um dos nossos maiores poetas partiu e uma criança foi atropelada por uma lancha… Enfim, só notícia ruim, só tristeza, nada a comemorar (pensei eu) e um olhar ansioso para o relógio, na esperança de que ele andasse mais depressa para a gente poder se livrar de tanta dor. E, como além de jornalistas, somos também mães, filhos, amigos, alunos… há de dar conta de outras tantas tarefas… Haja energia.

Foi assim que, em um fim de tarde dos últimos dias, meu filho, que já não é mais um garotinho, mas um jovem adulto de 18 anos, me fez uma proposta inusitada: “Mãe, vamos sair para comemorar?”. Reagi assustada: “comemorar o quê, filho?”. E ele: “A vida! Estamos aqui, não estamos? Eu me formei, estou na faculdade, estamos cheios de amigos, nossa família é legal… a gente tem muito que comemorar”.

Como é bom e tranquilizador o olhar que traz esperança, não é? E, assim, fomos para o Beach Burger, que nasceu no descolado litoral norte paulista mas conseguiu conservar a onda havaiana no caos da capital, bem no coração de Cerqueira César.

Para minha surpresa, meu vistoso acompanhante pediu um cosmopolitan para acompanhar as casquinhas de siri em canudinhos. Meu filho, que até outro dia só variava entre coca-cola, guaraná e uma água com gás, agora está curioso para descobrir a graça dos drinques. Bebe pouco, é atleta, mas naquele momento – e talvez até intuitivamente – ele pediu o drinque que fez a minha cabeça nos anos 80, quando a gente saia para dançar em uma semana sim e na outra também e quando Nova York era nosso maior sonho de consumo viageiro.

Preciso admitir que as tristezas não foram embora. Mas a vida continua. E ela está bem aqui, diante dos meus olhos, no filho amado que agora também divide comigo as angústias, as dores e, claro, as alegrias. É daquelas satisfações que a vida nos oferece até mesmo quando o dia está pintado de cinza-chumbo. Uma possibilidade de olhar para frente e enxergar que, ali, sempre tem um bom caminho para a gente percorrer.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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