Prazeres da mesa

Tradição e inovação

A Bodegas Muga, na Rioja Alta, aposta na boa madeira para fazer seus vinhos de grande qualidade

Por: Prazeres Da Mesa | 28.aug.2008

(*) POR JORGE CARRARA

Rioja é uma das mais renomadas regiões produtoras de vinhos da Espanha. Localizada no centro-norte do país, ela está dividida em três áreas: Rioja Baja, no extremo sudeste; Rioja Alta, no noroeste; e Alavesa, num canto do norte. Nas duas últimas se concentra a maior parte das bodegas de ponta do lugar.

Entre elas está a Bodegas Muga, de Rioja Alta, propriedade da família Muga, ligada à vitivinicultura desde o século XIX. Muga possui cerca de 200 hectares de vinhedos próprios espalhados por cinco propriedades, plantados principalmente com a uva Tempranillo, a estrela dessa província vinícola (e do país). Para os tintos há também vinhas de Graciano (uma cepa ibérica de difícil cultivo, mas que na sua plenitude modela vinhos macios e com grande expressão de fruta), Mazuelo (ou Cariñena) e Garnacha (utilizada para os rubros e ingrediente primordial para os rosados). Já na ala dedicada aos brancos, predominam as vinhas de Viura (ou Macabeo) – cepa que amadurece bem em barricas, e que está por trás de alguns dos melhores exemplares brancos da Rioja. Contratos com viticultores locais adicionam os grãos de outros 150 hectares ao poder de fogo etílico da casa.

Muga está encravada no lendário Barrio de la Estación, na cidade de Haro – um lugar que concentra grande número de adegas construídas junto ao terminal de trens em que, na segunda metade do século XIX, embarcavam seus vinhos rumo aos sedentos franceses, na época, com seus vinhedos destruídos pela Filoxera.

Sua vinícola ocupa cerca de 25.000 metros quadrados e está sediada num prédio bicentenário. Dentro de seus sólidos muros de pedra, não se vêem os reluzentes tanques de inox tão habituais nas cantinas. Seus vinhos – que misturam fortes traços de tradição com um agradável verniz de modernidade – nascem e são criados num universo impulsionado por múltiplos corações de pura madeira. Aproximadamente 90 cubas e barris de carvalho, com capacidade de recepção que varia de 3.000 a 15.000 quilos de uvas, se alinham nas quatro salas de vinificação. A área destinada ao amadurecimento dos vinhos conta com cerca de 14.000 barricas de carvalho. Tanta madeira requer muita atenção e, para isso, a adega abriga também uma tanoaria, em que quatro profissionais constróem e reparam cubas e barricas para manter o exército de recipientes em número e forma.

“Compramos e secamos o carvalho que utilizamos”, disse-me Jorge Muga, enólogo da casa e a terceira geração da família no comando, durante minha última visita. E a madeira vem de várias fontes. Pouco mais da metade das barricas são de carvalho francês, complementadas por outras de carvalho americano (marca registrada da Rioja) e uma pequena quantidade de exemplares de madeira húngara, russa e até – raridade – de carvalho espanhol. Tal como os tanques de inox, os equipamentos de refrigeração tampouco têm destaque em Muga. “Acreditamos em meios naturais para elaborar os vinhos pelo que não temos controle de temperatura de fermentação em grande parte da adega”, explica Jorge Muga, apontando para as cubas de madeira em que são vinificados os tintos. A política se aplica também ao branco da casa, que é fermentado em barricas de carvalho enfileiradas no pátio interno da vinícola, ao ar livre, aninhadas nas temperaturas mais frias do outono.

Os métodos naturais também estão presentes nas etapas de finalização dos goles rubros, que não são filtrados mas, literalmente, clarificados utilizando claras de ovos (umas três para cada 100 litros do vinho), que, mescladas com vinho são adicionadas às barricas para retirar as partículas em suspensão. As técnicas de elaboração podem não parecer nem um pouquinho hi-tech, mas os tintos, brancos e rosados da Muga (e até de um espumante Cava que também integra o portfólio) surpreendem com uma limpeza, fruta e frescor que evocam, curiosamente, os goles de uma daquelas vinícolas com pinta de nave espacial de filme de ficção científica.

A casa tem, claro, um trio de tintos ultra-premium, aquela categoria de vinhos às vezes com preços ridiculamente altos – aliás, muito mais no Brasil, onde as distorções do mercado, que não se limitam apenas aos impostos, os tornam ainda piores – mas ela brilha por ter uma coleção de belos exemplares no canto básico que merece, sem dúvida, ser conferida.

Um deles é o branco – sim, aquele vinificado no pátio da adega. A edição 2006 que desembarcou por aqui é corte de uvas Viura 90% e Malvasia, maceradas por aproximadamente oito horas antes de prensá-las. O mosto fermentou em barricas de carvalho francês e o vinho ficou três meses neles em contato com as borras para ganhar complexidade. Ele agrada pelo aroma cítrico com toques de cravo e torrefação, presentes também no paladar, vivaz, com boa acidez e final longo que mescla frutas brancas e limão (89/100, R$ 51,90).

Bom também o Muga Rosado, outro 2006, corte de uvas tintas (60% de Garnacha e 10% de Tempranillo) com Viura, maceradas durante 12 horas antes de ser prensadas. A vinificação foi realizada em barris de carvalho de 2.000 litros e o vinho estagiou três meses em madeira antes do engarrafamento. Aromas de frutas confitadas e geléias, marcam este rosé saboroso, equilibrado e com boa amplitude em boca (88/100, R$ 43,45). Na ala rubra, destaque para o Muga Reserva 2003, elaborado com uvas Tempranillo (70%), Garnacha (20%) complementadas por Graciano e Mazuelo e amadurecido seis meses em cubas de carvalho americano, seguidos de 24 meses em barricas de carvalho americano e francês e ainda mais um ano em garrafa antes de ser colocado no mercado.

O resultado é um vinho muito atraente, tanto pelo aroma intenso (fruta sedutora, pinceladas de coco e baunilha, sinais deliciosos da passagem por carvalho) como pelo paladar em que os mesmos componentes reaparecem, realçados por uma bela acidez e taninos finos que envolvem o conjunto numa textura sedosa (91/100, R$ 83,18, todos à venda na Epice).

Epice, tel. (11) 6910-4662.

(*) Jorge Carrara é colunista de vinhos do jornal Folha de S. Paulo e do site Basilico>

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*Escreve também para o site Basilico

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