Prazeres da mesa

Trata as mina direito, pô!

Por: Prazeres Da Mesa | 29.jul.2016

Com mais de meio século de vida, sempre vivendo em São Paulo, sou frequentadora contumaz de restaurantes. Durante a adolescência, eu os frequentava na companhia dos meus pais. Me lembro da rosa de prata (era chique ter uma daquelas), presenteada pelo Terraço Itália, quando jantei com a família para comemorar meus 15 anos.

Alguns anos mais tarde, na companhia do namorado, adorava jantar nos restaurantes de hotéis de São Paulo e o buffet do Maksoud Plaza era dos nossos favoritos. Casada, conheci outros tantos restaurantes dentro e fora de São Paulo. Note que, até agora, estou indo a restaurantes na companhia de algum homem: o pai, um namorado, marido…

A realidade mudou e meu companheiro de mesa, hoje, é um jovem; meu filho de 17 anos. E me defronto com uma realidade que, até então, não tinha encarado frente a frente. O machismo nos restaurantes. Dia desses, fomos conhecer um restaurante, que é filial paulistana de uma casa argentina de mesmo nome, onde já havia estado há alguns anos.

Ao entrarmos no restaurante, que estava com muitas mesas disponíveis, fomos convidados a ocupar uma junto à porta de entrada. Recusamos e fomos nos sentar em outra mesa, esta no meio do salão. Dez longos minutos foi o tempo que o maître levou para chegar à mesa com os cardápios. Outros dez minutos e ele se postou ao nosso lado perguntando secamente: “e aí, vai ser o quê?”

la cabaleriza - ines de castro (1)

Pensei no velho e duro estilo portenho, relevei e pedi a tapa de cuadril (a nossa picanha) de 400 g que serve duas pessoas, acompanhada de uma salada Recoleta com fatias de linguiça. O homem impaciente anotou tudo, não proferiu nenhuma palavra e, já se virando, bufou na minha cara quando pedi: “pode trazer couvert para nós, por favor”.

Sou do tipo que olho além da cara. Esteja ela feia ou bonita. Em segundos pensei: talvez o homem esteja com problema, talvez esteja doente, talvez esteja com alguma dor, talvez tenha sido chamado à atenção pelo chefe. Fiquei tentando entender o motivo de tanto descaso comigo, que havia acabado de entrar, fazia um pedido completo, no qual gastaria um valor considerável.

Qual não foi minha surpresa quando este maître, na sequência da minha mesa, se aproximou da mesa vizinha, onde estavam um casal e uma criança: “e aí, ‘doutor’ tá tudo certo?”, ” Precisa de mais alguma coisa? Só falar, hein?”, “A carne veio no ponto que o senhor queria, ‘doutor’?” “Qualquer coisa a gente chama o chef. Só falar, hein ‘doutor’?”

Juro que desconfiei da minha sanidade. Estaria, eu, com mania de perseguição? Não teria o maître ido com a minha cara? Cheguei a perguntar ao meu filho se eu havia sido descortês ou grosseira com o sujeito, ao que ele respondeu de bate-pronto: “imagina, você sorriu pra ele o tempo todo. Nem entendi por quê ele mal te olhou.”

Pois é, filho, mas eu entendi. O maître mal me olhou porque vivemos em um país onde são os machos que validam as fêmeas que andam ao seu lado. Um país onde a conta do restaurante é sempre entregue ao homem, a despeito dele ter ou não ter dinheiro para bancá-la - conheço mulheres que passam o cartão de crédito por baixo da mesa, para que o homem ao lado faça as vezes de “pagador”.

Entendo a situação do garçom, do maître; não há etiqueta moderna que sinalize a eles para quem entregar a conta. Mas há os que fazem graça, perguntam antes de colocar o valor na frente de um ou de outro e nunca, jamais, em tempo algum, fazem diferença na hora de se referir a um cliente do sexo masculino ou feminino. Atendem, são gentis, servem o que foi pedido e, quando são gente boa, ainda distribuem um ou outro sorriso. Prefiro esses.

 

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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