Prazeres da mesa

Um novo Chile

Por: Prazeres Da Mesa | 16.nov.2015

Vinhos naturais e autorais mostram uma nova faceta desse rico país

Aquele Chile de muita oferta de vinhos nos extremos da categoria – os de entrada e os top – é coisa do passado. Hoje, o melhor do Chile está na faixa dos 80 aos 180 e, lamentavelmente, as garrafas lá estão ao preço das daqui! Esqueça, portanto, a vontade de trazer a bebida na mala. Um bom exemplo do atual momento do país, é o Movimento de Vinhateiros Independentes (Movi). São 24 produtores e uma variedade de cerca de 100 rótulos de ótimos vinhos nessa faixa de preço. O sucesso deles levou o Monopólio da Noruega a considerá-los como uma categoria. Não é pouca coisa. No mínimo, um exemplo de união.

Neste momento, grandes vinícolas estão dando espaço para seus enólogos desenvolverem projetos e liberdade de criar. Dessa postura surgiram vinhos deliciosamente sinceros, produzidos com suas próprias leveduras, experimentos que certamente entrarão em linha nas vinícolas, ou no mínimo servirão para qualificar sua imagem. Outra coisa: eles aprenderam definitivamente a fazer Pinot Noir. Nada daquele excesso de extração, vinhos densos e sem frescor. Diversos produtores estão com excelentes exemplares dessa casta, com delicadeza, mas com raça, vinhos que foram fermentados com parte dos engaços, com pouca extração e com as próprias leveduras. Tem o estilo que se espera da casta, mas têm sotaque. Veja uma relação de algumas surpresas.

A linha Outer Limits, de leveduras indígenas, que resulta em vinhos frescos. Faz com que um Pinot Noir, com parte da vinificação com engaços, o Sauvignon Blanc com quatro meses de batonage e os Carignan, Grenache, Mouvèdre, de leveduras indígenas, mereçAm aplausos. Eu beberia um garrafão. Importados pela Mistral, estão na faixa de 140 reais.

Já a Via Wines, que vende seus vinhos no Pão de Açúcar com a marca Chilenses, tem um Malbec abaixo de 50 reais, muito fresco e típico. Produz também dois vinhos da linha Chilcas, com leveduras indígenas, um Cinsault e um varietal de Pais. Espetaculares. Uma pena que não chegam aqui.

O Noche de Luna da Casa Donoso, com 40% de Cabernet Sauvignon, 25% de Carmenère, 25% de Malbec e 10% de Cabernet Franc é trazido pela Vinhos do Mundo por 65 reais, e é um excelente exemplo de vinho de qualidade, elegante e fresco a um preço muito razoável. Por sua vez, a gigante Luis Felipe Edwards – 30 milhões de garrafas por ano – tem um Rousanne/Marsanne de babar, um Pinot Noir do Valle de Leyda perfeito, também com parte de engaços na fermentação e um belíssimo Carignan de vinhas centenárias, o  C1IOEON, vinhos que mostram como um grande produtor pode fazer vinhos interessantes e com personalidade. O Brasil ainda não aprendeu isso.

Talvez a maior das surpresas tenha vindo de Gonzalo Guzmán de El Principal. Os donos da bodega queriam um vinho branco de qualidade. Gonzalo lhes disse que Chardonnay ou Sauvignon Blanc não funcionariam naquele solo. Gonzalo foi para a Espanha e trouxe mudas de Verdejo (único do Chile) que são sensacionais. Não encontrei no site da Decanter que traz seus vinhos, se chama Kiñe. Mas, o melhor é que Gonzalo trouxe também Alvarinho, Mencia e Graciano. Eu provei todos eles, em “segredo”, sendo que estes três últimos, com leveduras nativas e sem SO2! Vinhos naturais e deliciosos que gostaria muito de ver no mercado. Aguardemos.

O produtor Daniel Von Siebenthal (Terramater) tem maravilhas, como o Viognier ou seu Syrah Carabantes e ainda seu Petit Verdot Tokmar, vinhos profundos, intensos e frescos. Uma grande surpresa. Ele fica em frente à Errazuriz, onde também me surpreendi com sua linha de vinhos de Aconcagua Costa (Vinci Vinhos). Acho que nesse caso, o Pinot Noir (também com engaços) é o melhor que provei; o Chardonnay excelente do mesmo vinhedo, e um delicioso The Blend, com Grenache, Mourvedre, Syrah, e Carignan. Todos de leveduras indígenas.

Que bonito ver esse caminho no vinho chileno. Um exemplo.

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*É fundador da Confraria dos Sommeliers

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