Prazeres da mesa

Verão pede branco

Por: Prazeres Da Mesa | 7.jul.2014

E nem combinam os vinhos elaborados com Pinot Noir, 
casta que compõe rótulos elegantes, com taninos mais finos

Por Jorge Lucki

Mesmo que o verão sinalize para pratos mais leves e, portanto, para vinhos no mesmo patamar a acompanhá-los, é pouco significativo o aumento no consumo de brancos nesta época do ano. De fato, o apego aos tintos está tão consolidado entre os brasileiros que, na prática, faz com que se abra mão do extremo prazer que se alcança quando existe perfeita harmonização entre vinho e comida. Foi, a propósito, o que ocorreu recentemente em um bom restaurante de São Paulo, quando notei de longe um cliente do local, depois de analisar com atenção a carta, se fixar num Pinot Noir para acompanhar uma massa com vôngole.

Embora não concorde com essa linha e ache que os brancos são insubstituíveis nessas situações, admito que a escolha tenha algum fundamento: apreciadores que demonstram ao menos o mínimo de atenção com relação à compatibilização têm-se valido, como consolo para permanecer no gênero tintos, de Pinot Noir, casta que tem a propriedade de compor rótulos elegantes, com taninos mais finos – taninos finos “brigam” menos, mas brigam, com o vôngole (e frutos do mar em geral).

Cabe, em todo caso, uma ressalva importante: não dá para generalizar. Fora de sua região de origem, a Borgonha, a imensa maioria dos Pinot Noir perde frescor e atinge graduação alcoólica mais elevada, tornando-se, na média, pesado e deselegante. Vem daí minha implicância com o Pinot mundo afora. Se a característica e o grande diferencial da uva são exatamente a delicadeza e a elegância, e nos “pirateados” ela perde esses atributos, não faz sentido insistir com eles.

Por um bom tempo, isso foi “mais ou menos” respeitado, e a Pinot Noir não era muito disseminada. Qualquer resquício de pudor caiu por terra como consequência do filme Sideways, de 2004, que ressalta as virtudes dos vinhos com ela elaborados. Num mercado tão influenciável como o dos Estados Unidos, tal menção fez com que a busca por Pinot Noir explodisse – 30% de imediato – sem que houvesse produção suficiente para atender à demanda. Logo a febre se espalhou pelo planeta.

Produtores das mais variadas procedências implantaram às pressas novos vinhedos para não perder o bonde que estava passando. Seria isso Pinot Noir? “É inapelável, não existe Pinot Noir fora da Borgonha”, disse certa vez a competente e geniosa Lalou Bize-Leroy, que comanda o celebrado Domaine Leroy. Segundo Christophe Tupinier, que dirige a revista Bourgogne Aujourd’hui, desde 1994 a publicação referência da região, “se a Pinot Noir não conseguiu se desenvolver pelo mundo da mesma maneira que outras castas tintas e brancas, há razões para tanto, e a primeira delas é sua sensibilidade”. E afirma: “É uma variedade delicada, cuja essência é produzir vinhos que se caracterizam por uma espécie de equilíbrio entre finesse, densidade, plenitude da fruta, taninos finos e frescor. Os fatores intervenientes na qualidade são múltiplos: humanos, geológicos, vegetais e climáticos. Com toda a boa vontade do mundo, não se poderá jamais produzir grandes Pinot Noir em países de clima quente, muito frio, muito seco ou muito úmido.” Com efeito, longe de seu habitat, a casta perde as preciosas características que a distingue de todas as outras variedades.

Regra geral, seja por questões naturais, seja para agradar ao consumidor americano, os “borgonha” existentes por aí são mais alcoólicos e apresentam um padrão marcado por fruta muito madura, quase adocicado – “jammy”, derivado de “geleia”, em inglês, consequência de um grau de acidez insuficiente para dar equilíbrio ao conjunto (as uvas são colhidas mais tarde e procura-se mais extração na vinificação).

É frequente associar vinho encorpado com tânico ou potente em boca. No caso, confunde-se estrutura e persistência (que bons Borgonha têm), com vinhos impactantes (que tanino e volume provocam). Nesse aspecto, é significativo notar que os Pinot Noir provenientes de uvas plantadas nos Estados Unidos obtêm altas pontuações do influente crítico Robert Parker. Ao contrário do que se poderia supor, isso não se deve à extrema competência dos produtores americanos que assim teriam conseguido conciliar todas as virtudes da Borgonha com a potência e a concentração que agradam Parker.

Na mais recente edição de seu boletim Wine Advocate, número 210, de dezembro de 2013, em que há uma seção dedicada aos vinhos de Sonoma, região mais costeira da Califórnia – paralela ao Napa Valley, que fica mais para dentro e é bem quente –, Robert Parker concede notas acima de 95 pontos a vários vinhos, valendo destacar dois (!) Pinot de Peter Michael, que alcançaram o topo, 100 pontos, patamar que não me lembro de algum grand cru da Borgonha ter sido distinguido pelo crítico americano. Sobre o rótulo de 100 pontos, Parker chega a colocá-lo em pé de igualdade ao La Tâche 1990, do Domaine de la Romanée-Conti, rótulo histórico no meio. Com todo o respeito que Robert Parker merece – é idôneo e ótimo degustador –, Pinot Noir não é a praia dele.

Pouquíssimas regiões têm mostrado vocação para propor Pinot Noir que se aproxime do padrão Borgonha e, dentro delas, não são todos os produtores que abraçam essa causa. Em todo caso, alguns exemplares têm vindo da Nova Zelândia, particularmente das zonas de Central Otago, ao sul da Ilha Sul, e Martinborough, no canto meridional da Ilha Norte. Da mesma forma, a região vinícola de Ahr, na confluência desse rio com o Reno, no centro oeste da Alemanha. O Chile começa a apresentar vinhos com certa tipicidade, depois de um início de cultivo da Pinot Noir um tanto estabanado, sem analisar os lugares mais apropriados e sem os clones adequados.

Quem se orgulha de seus vinhos e está buscando destaque no cenário internacional do Pinot Noir são os produtores suíços, ainda que, aparentemente, quase tudo que produzem seja consumido dentro do país – o preço elevado é, também, um fator desfavorável em termos de competitividade fora de suas fronteiras. Eles levam tão a sério que organizam anualmente, desde 1998, o Mondial du Pinot Noir, concurso que contempla unicamente vinhos e espumantes produzidos com a casta em sua totalidade.

Não me interesso particularmente por competições do gênero, mas como a revista Bourgogne Aujourd’hui atua como parceira e dedica comentários ao evento, acabo me inteirando e, na medida em que aparece alguma oportunidade, procuro provar algum vinho que tenha se destacado. Lembrei-me disso quando estive na ProWein, ótima e bem organizada (não poderia ser diferente em se tratando de Alemanha) feira internacional de vinhos que se realiza anualmente em Düsseldorf.

Sem Borgonha de expressão inscrito – produtor de prestígio, de qualquer país, não participa desse gênero de competição –, o grande vencedor de 2010 havia sido o Donatsch Cuvée Passion, produtor situado no Grison, próximo à Áustria, e tida como a melhor região suíça para Pinot Noir. É vendido na propriedade por aproximadamente 35 dólares. Não consegui prová-lo, mas naquela ProWein degustei os de quatro produtores vizinhos, Malanser, Adank, Lampert’s e Mattmann, que, segundo o responsável pelo estande que reunia a delegação suíça, têm o mesmo estilo que o premiado e qualidade semelhante. Com graduação alcoólica elevada, ao redor de 14,5%, e baixa acidez – eu esperava o contrário –, me decepcionaram.

Até prova em contrário, e estou aberto para tanto, mantenho minha aversão a Pinot Noir fora da Borgonha. Assim como as harmonizações de peixes e frutos do mar com vinho tinto. Qualquer que seja. Nessas ocasiões, vou sempre de brancos.

Jorge Lucki

*É um dos maiores conhecedores de vinhos do país e colunista do jornal Valor Econômico

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