Prazeres da mesa

Vinho verde

Em Portugal, descubra os encantos dessa bela região centenária

Por: Prazeres Da Mesa | 1.sep.2009

(*) POR JORGE CARRARA

Além de um imenso leque de cepas nativas, Portugal tem também outros tesouros: belas regiões produtoras. A dos vinhos Verdes é uma delas. A região, demarcada há pouco mais de um século, ocupa o canto noroeste do país e abriga um dos maiores mantos de vinha da terrinha, cerca de 35.000 hectares. As videiras encontram-se em meio a colinas de um verde exuberante e o visual chega a lembrar algumas paisagens do Brasil.

Ir para lá é sempre bom. Melhor ainda se for na primavera, com a vegetação a pleno e os terrenos cobertos de flores. Bom também é encontrar goles de um nível inédito (como os listados a seguir), mais concentrados, com fruta intensa e limpa, fruto talvez do trabalho na terra e nas cantinas dos produtores que visitei e cujos vinhos tive a sorte de provar.

Quinta do Casal do Paço
Vasco Croft comanda a produção da pequena (e linda) propriedade de sua família, que tem pouco mais de 10 hectares de vinhas – a caminho da certificação biodinâmica. Apesar de jovem – a primeira vindima foi de 2004 –, os goles da casa já impressionam muito. São brancos com fruta bem definida, elegantes, como o Afros Loureiro 2008, rico e amplo, no nariz e na boca, em frutas mescladas com tons minerais (89/100) e rubros como o Afros Vinhão 2008, sedoso e persistente, marcado por framboesa, o melhor tinto provado (88/100). (www.afros-wine.com)

Quinta de Gomariz
Na edição 2009 do Concurso dos Vinhos Verdes, organizado pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, a adega abocanhou quatro das 20 medalhas de ouro outorgadas (a lista completa dos prêmios pode ser encontrada em www.vinhoverde.pt). Levou também um dos cinco Best of Vinho Verde, galardão concedido aos melhores entre os que conquistaram medalhas. Seus vinhos impressionam pela expressão de fruta, provavelmente resultado de um trabalho técnico apurado, não só no campo, mas com mostos e leveduras, na cantina. São vinhos como o Loureiro 2008, um branco que une tons cítricos (mexerica, limão-siciliano) aos de frutas como pitanga e maracujá, num paladar vivaz e muito persistente, ou o Espadeiro, um rosado 2008, com características similares somadas a um perfume leve de frutas vermelhas (ambos 89/100). (www.quintadegomariz.com)

Casa de Sezim
A vinícola está ao lado da casa principal da propriedade, uma mansão senhorial com uma deliciosa varanda, com vista para um grande e belo jardim. O enólogo José Paulo Pinto Mesquita, filho dos proprietários, assina os vinhos de Sezim, brancos como o Grande Escolha 2008, um corte de uvas Loureiro e Arinto, de aroma atraente, mesclando frutas tropicais com cítricas, num paladar equilibrado e longo (88/100). (www.sezim.pt)

Quinta da Lixa
Grande produtor da região, possui cerca de 42 hectares de vinhas próprias que fornecem parte das uvas utilizadas na elaboração de 3 milhões de garrafas de vinho por ano. Menção aqui para o Alvarinho 2008, um branco frutado (manga, carambola) denso, com boa acidez e presença em boca (88/100). (www.quintadalixa.pt)

Sociedade Agrícola Encostas do Zezere e Quinta da Corga da Chã
A casa da sub-região do Paiva, no sul, chamou minha atenção com o Corga da Chã 2008, um branco de uva Trajadura bem expressivo na fruta (limão, leve banana e abacaxi), o campeão dos vinhos provados dessa variedade (88/100). (www.corgadacha.com)

Adega também do sul, de Baião, com outro belo branco, esse de uva Avesso (também o melhor provado dessa cepa), o Entre Margens 2008, com perfil peculiar (maçã, leves aromas de pão fresco), boa estrutura e final prazeroso (88/100). (quintasalgueirais@sapo.pt)

Adega de Monção
A cooperativa reúne 900 hectares de vinhedos de Alvarinho. Deles saem as uvas que dão forma o Deu-la-Deu, top da casa. Uma vertical do rótulo mostrou o potencial de envelhecimento que têm os vinhos dessa variedade, estrela do canto norte da região. A prova começou com um Deu-la-Deu 1998, de cor dourado-claro, inteiro e sedutor no aroma e no sabor, que tem tons minerais (que lembram um Riesling) junto a geleias e pinceladas tostadas, realçado por boa acidez (89/100). Boas também as versões mais recentes, como a 2008, pura fruta tropical junto a toques de compotas, com boa densidade e final longo (89/100). (Barrinhas*)

Reguengo de Melgaço
Localizada também no norte, na fronteira com a Espanha, tem apenas 10 hectares de vinhas que resultam em cerca de 60.000 garrafas de (um único) vinho por ano. Mas o minimalismo fica por aí: a casa é dona de grandes Alvarinhos, como deixou claro outra bela vertical. Escravo do espaço, destaque aqui para alguns dos oito vinhos, como o 2001, um vinho complexo, também com leve ar de Riesling, rico em facetas frutadas, defumadas e minerais, untuoso e vivaz (92/100). Sedutores também o 2004 e a última edição, de 2008, uma verdadeira salada de frutas sustentada por um paladar viscoso e com acidez na medida certa (91/100).
(World Wine*)

(Jorge Carrara viajou para Portugal a convite da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes).

Importadoras do vinho no Brasil: Barrinhas: tel. (21) 2131-0021. World Wine: tel. (11) 3383-7477.



(*) Jorge Carrara é colunista de vinhos do jornal Folha de S. Paulo e do site Basilico.

jorge carrara_site

*Escreve também para o site Basilico

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