Prazeres da mesa

Vinhos Artesanais

Por: Prazeres Da Mesa | 15.dec.2016

Aplicada de qualquer maneira, a palavra artesanal vem cansando e nem sempre significa tratar-se de produto melhor, ou não

Ando um pouco irritada com a palavra “artesanal”. Como pode todo esse nicho de cervejas e bebidas espirituosas trazer como sufixo a palavra “artesanal” para glorificar suas virtudes, enquanto ninguém fala sobre vinhos artesanais? Imagino que qualificaria como “artesanais” bem mais de 90% dos vinhos sobre os quais escrevo, uma vez que são produzidos relativamente em pequena escala por produtores independentes que colocam o coração e a alma no cultivo das uvas e na produção dos exemplares. Todos esses vinhos são necessariamente determinados pelas condições locais e por um único ingrediente: uvas cultivadas em vinhedos próprios. Não conheço nenhum produtor de cerveja artesanal ou destilador que cultive os próprios ingredientes de sua bebida. Além disso, a forma pela qual um vinho é produzido é, essencialmente, muito menos industrial do que a produção de cerveja ou de destilados, pois o limite da produção de vinhos é determinado pela natureza. Se cervejeiros artesanais ou destiladores ficarem sem estoque, eles podem simplesmente produzir mais bebida: cerveja e bebidas espirituosas são muito, muito mais rápidas de produzir do que vinho. O viticultor e o enólogo, por sua vez, têm apenas uma campanha de produção por ano, e seu volume é decidido pela área do vinhedo, pela vinha que é cultivada naquele terreno determinado (um compromisso que normalmente é feito por décadas) e pelas vicissitudes de uma estação de crescimento por ano, a qual se encerra na colheita da uva, no outono.

Posso parecer um tanto ranzinza, mas é que meu entusiasmo pelos vinhos é antigo e tenho me sentido cada vez mais ameaçada nesse universo que prezo tanto. Nos Estados Unidos, as vendas de cervejas artesanais têm aumentado muito mais drasticamente do que as vendas de vinho – até mais de 20%, segundo a empresa Nielsen, de pesquisa de mercado. E eu, uma habitante das Ilhas Britânicas, noto cada vez mais que o espaço do vinho está sendo invadido por outras bebidas, especialmente por cervejas e licores artesanais e coquetéis.

No ano passado começou o Kerrygold Ballymaloe Literary Festival of Food and Wine no sul da Irlanda. Um dos palestrantes mais divertidos era Garrett Oliver, editor do The Oxford Companion to Beer e um dos líderes do movimento cada vez mais poderoso e bem-sucedido da cerveja artesanal na América. Ele não poderia ter sido mais cool ao explicar que tinha chegado a hora de o suco de uva fermentado se retirar e abrir caminho para a cevada maltada fermentada. Daí, neste ano, conheci as irmãs Boyle em Ballymaloe, mulheres glamorosas na casa dos 30 anos. Elas são grandes fãs de vinho e bem informadas sobre o assunto. Mas são também fabricantes de cerveja. Susan e Judith Boyle cresceram em um pub e hoje produzem Brigid’s Ale, nome originário do santo padroeiro da cerveja, a partir de ingredientes estritamente locais de seu condado natal, Kildare.

Em meados dos anos 1980, havia apenas cinco grandes cervejarias na Irlanda. Atualmente são 60, a maioria delas pequenas cervejarias dirigidas por hipsters ou por entusiastas jovens. Esse interesse crescente também atinge os negócios de bebidas espirituosas, com destilarias que crescem rapidamente na Ilha Esmeralda (é certo que toda essa atividade é incentivada pelo fato de a Irlanda ser um país frio demais para a viticultura).

A carreira de Susan Boyle começou na universidade, onde ela se apaixonou por vinho. Ela se formou atriz e agora excursiona com um espetáculo chamado The Tales of Ales. Perguntei-lhe se na Irlanda havia tensão entre as facções do vinho e da cerveja. Ela diz que não, “porque o vinho irlandês não existe”, mas, como amante de vinhos bem viajada, ela é rápida ao lembrar que “os enólogos australianos e neozelandeses não poderiam existir sem a cerveja”.

Um de seus momentos altos no último ano foi um jantar em Dublin com a curadoria de Garrett Oliver, o qual mostrou algumas cervejas não comerciais muito especiais, maturadas em diferentes tipos de borra, como de vinho e de espumantes. Claro que não deve existir necessariamente um conflito entre os vinhos e as chamadas cervejas artesanais e as bebidas espirituosas. Na verdade, há uma pequena tendência entre os produtores de vinho de começarem a fabricar cerveja e, às vezes, destilados também. Mas a questão é que há um limite para o volume de bebidas alcoólicas que um consumidor pode (ou que, pelo menos, deveria) consumir.

Meu amigo Dave Broom é um escritor britânico renomado, e hoje é especializado em bebidas espirituosas. Seu interesse por esse tipo de bebida surgiu somente depois de ele começar a produzir vinho em Margaret River. No final das contas, ele percebeu que seria mais fácil ganhar a vida na área (muito menos populosa) da pontificação das bebidas fortes. Perguntei-lhe o que ele pensava da crescente concorrência entre os vinhos, as cervejas artesanais e as bebidas espirituosas, o que no comércio é chamado de “share of throat” (cotas da garganta). Ele me respondeu: “Não acredito que o vinho esteja se tornando menos interessante. Pelo contrário, percebo que as cervejas e as bebidas espirituosas estão tirando bons ensinamentos da produção de vinhos, e hoje estão aplicando alguns de seus princípios. Esse movimento começou nos Estados Unidos com a ascensão da cerveja artesanal, em reação contra a cerveja de mentira que os grandes fabricantes estavam tirando de suas bombas. Com o tempo, essa tendência alcançou as bebidas espirituosas: muitos dos destiladores artesanais são ex-cervejeiros. Alguns são também produtores de vinho. O movimento das bebidas espirituosas, porém, foi menos contrário às grandes marcas, consistindo em mais uma tentativa de ampliar a oferta. Hoje notamos essa tendência no mundo todo”.

Mas como eu, ele está magoado com o mau uso do termo “artesanal”, o qual muitos consumidores associam, com relativa obscuridade, a alta qualidade de uma produção em pequena escala. “Há uma conotação de ‘roupa nova do imperador’ no adjetivo ‘artesanal’ associado às cervejas e bebidas espirituosas”, segundo Broom. “Inicialmente, as pessoas compram o conceito e se recusam a julgar criticamente, porque a história contada é muito boa. Agora, porém, percebo que os consumidores passaram a olhar para os produtos “artesanais” fazendo a pergunta: “Isso realmente vale o dobro de uma marca comercial existente?”.

De fato, sei que muitas das bebidas espirituosas mais famosas, mesmo aquelas produzidas em grandes quantidades, são o resultado da utilização de ingredientes e da aplicação de uma expertise que dificilmente poderiam ser melhoradas em qualquer lugar, mas certamente não em uma fábrica instalada em um chalé no campo. Por outro lado, seria difícil imaginar que um vinho produzido em grande escala possa ser tão bom quanto aquele feito em pequena escala, ou seja, de modo “artesanal”. Os Bordeaux Premier Cru tintos podem ser produzidos em volumes surpreendentes – até mesmo 40.000 caixas de 12 garrafas por ano, como em Château Lafite, por exemplo – e se tornaram justificadamente, ou lamentavelmente, um verdadeiro produto de luxo. Mas as grandes marcas comerciais como Yellow Tail, Gallo e Blossom Hill não são artesanais – pelo contrário: sua escala de produção é industrial, vendendo por ano milhões de caixas de 12 garrafas.

É significativo, e particularmente triste para mim, que a segunda maior empresa do mundo de vinhos, a Constellation Brands, que sempre esteve envolvida na produção de uma grande variedade de bebidas, tenha anunciado recentemente que está mudando seu foco de vinho para cerveja.

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*É Master of Wine e escreve para diversas publicações em todo o mundo, além de manter o próprio site

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