Prazeres da mesa

Vinhos de gala

Por: Prazeres Da Mesa | 11.feb.2016

Elegância, requinte e números superlativos definem o banquete oferecido após a entrega do Prêmio Nobel, quando ter um vinho servido é sinal de prestígio

Todos os anos, no dia 10 de dezembro, em Estocolmo, Suécia, após a cerimônia de entrega do Prêmio Nobel, ocorre na sede da Câmara Municipal daquela cidade o grande banquete de gala em homenagem aos agraciados com essa importante láurea.

Tão difícil quanto escolher os premiados é a preparação desse banquete para 1.300 convidados. Os números são superlativos e o risco é preocupante. Afinal, cada convidado deve ser servido com o prato quente ao mesmo tempo e os demais serviços devem ser arranjados da melhor forma. É como traçar uma estratégia de guerra. Nada pode dar errado, pois esse é, há séculos o maior banquete oficial que permanece com os mesmos objetivos, desde 1901, quando foi realizado pela primeira vez. Somente durante a Primeira e Segunda Guerra, a ágape não aconteceu.

A Fundação Nobel começa a preparar o banquete em agosto – da escolha da decoração temática, que sempre homenageia os países dos agraciados, à seleção do menu e dos vinhos a serem servidos, envolvendo um batalhão de profissionais na organização. São montadas 65 mesas que perfazem um total de 470 metros lineares. A fundação tem em seu acervo 6.730 peças de louça, 5.384 taças de cristal e 9.422 talheres de prata.

No último banquete, em 10 de dezembro de 2014, alguns dos ingredientes usados foram: 475 lagostas, 2.692 pombos, 100 quilos de batatas, 70 litros de vinagre de raspberry, 67 quilos de alcachofras, 53 quilos de queijo e 45 quilos de salmão defumado da Escócia. A comida é elaborada e servida por 263 pessoas - chefs, auxiliares de cozinha, garçons e sommeliers.

A família real da Suécia é convidada de honra e, em torno dela, sentam-se os agraciados e suas respectivas famílias. Com todo esse cuidado na produção, os vinhos também recebem um tratamento especial. Sempre a partir de agosto, começa a correr entre os mais prestigiados produtores do mundo certa expectativa de que seja um dos escolhidos para essa noite. Trata-se de um prestígio a mais para qualquer marca. Destaco aqui alguns vinhos servidos para que o leitor tenha uma ideia da seriedade da escolha:

  • Em 1910 – Golden Sherry, Bordeaux Pontet Canet, Rudesheimer, champanhe Charles Heidsieck Imperial e Extra Dry, Chateau Lafite e Porto Sandeman.
  • Em 1920 – Chateau Pontet Canet, Forster Traminer 1893, Sparkling Hock e Madeira Fine Bual.
  • Em 1930 – Madeira Old Stock, Nieresteiner Rote Schimitt 1926, champanhe G.H.Mumm e Extra Portwine Vintage.*

* Sobre este “Portwine”, não sabemos se era o autêntico de Portugal, porque já nessa época Austrália e África do Sul denominavam assim seus fortificados.

  • Em 1945 – Sherry Granja, Douro Clarete e Imperial Ruby.*

* Nota-se aqui que só vinhos da Espanha e Portugal foram selecionados, porque nesses países a guerra não afetou a produção.

  • Em 1990 – Champanhe Moet Chandon Brut Imperial, Chateau de Cruzeau 1988, Gradask Very Old Superior e Vin Sans Álcool.*

* Este vinho sem álcool aparece pela primeira e única vez nos cardápios. Tal fato indica que algum dos agraciados tinha restrição a álcool.

  • Em 2002 – Champanhe Dom Perignon Vintage 1992 – Magnum, Corte Giara Amarone 1999 e Moscatel de Setúbal.*

* Este Moscatel é da Casa José Maria da Fonseca.

  • Em 2006 – Champanhe Pommery Gran Cru Vintage 1996, Veenwouden Classic 2002/Paarl e Chateau Haut Bergeron 2003 – Sauternes.*

* Nesse ano, um vinho da África do Sul foi a estrela da noite!

  • Em 2008 – Champanhe Jacquart Brut Mosaique Millessime 2002, Chateau Moulinet 2000/Pomerol, Beerenauslese Chardonnay – Helmut Lang 2006.
  1. Em 2014 – Champanhe Taittinger Brut Réserve, Villa Cafaggio 2011/Chianti Clássico e Calvet Reserve di Ciron 2010/Sauternes.

Cada agraciado volta para casa com um diploma, uma medalha de ouro e um cheque de 1 milhão de dólares americanos. Para celebrar, desfruta de um grandioso e fantástico banquete o que, para mim, é o mesmo que ser premiado muitas vezes em um só dia!

Carlos Cabral

*Estuda vinhos há 43 anos. É consultor e um apaixonado pelo tema

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