Prazeres da mesa

Vinhos reabilitadores

Por: Prazeres Da Mesa | 8.jun.2015

Quando estamos com a saúde fragilizada nosso gosto pelos estilos de vinho podem mudar. Os fortificados, por exemplo, ganham força nesses momentos

É um truísmo dizer que, com o passar dos anos, os assuntos que fazem parte de nossas conversas com os amigos tendem a ser os mesmos. Na minha experiência, eles variam entre histórias de amor, filhos, trabalho e saúde, ou melhor, a falta dela (com uma incursão ocasional por assuntos relativos à locação ou moradia, caso você more em uma cidade como esta em que vivo: Londres).

Infelizmente, já cheguei nessa fase da vida em que os problemas de saúde começam a aparecer, e isso é muito chato. Minha recente luta de um mês contra uma pneumonia (minha primeira experiência com essa doença) me fez pensar sobre vinhos adequados para pessoas convalescentes ou sofrendo com algum tipo de problema de saúde. Sei bem que uma parcela dos profissionais de saúde considera o consumo de qualquer bebida alcoólica como maléfico, prescrevendo que o álcool deva ser evitado ao máximo pelas pessoas saudáveis, e principalmente pelas pessoas com a saúde debilitada. Provavelmente esses profissionais de saúde não estão lendo este artigo.

Porém, há menos de um século, em determinados casos, vinhos eram prescritos para a recuperação de doentes. Vinhos históricos como o Tokaji e o Constantia construíram sua fama no passado graças às suas reputadas propriedades milagrosas à saúde. No início do século XX, as mulheres grávidas eram incentivadas por alguns médicos e parteiras a consumirem cerveja de malte para aumentarem seus níveis de ferro, e o consumo de vinho do Porto era recomendado à recuperação dos convalescentes. Houve uma época em que as exportações de vinho da Austrália consistiram parcialmente na categoria bastante questionável de “vinhos tônicos” (ou seja, tudo o que fosse forte e doce ao mesmo tempo).

Até hoje, The London Clinic, um dos mais respeitados hospitais particulares daqui, oferece aos seus pacientes uma lista de vinhos harmonizados com as refeições do hospital (exceto para as pessoas com problemas de dependência alcóolica, como é de se esperar, porém os demais pacientes estão liberados para molharem suas gargantas com o melhor líquido do mundo.)

À medida que meu resfriado evoluiu para uma gripe e em seguida para uma pneumonia, fui observando atentamente como eu me sentia ao beber vinho quando comecei a me sentir meio mal. Além das minhas degustações profissionais de vinhos quase todos os dias, eu tenho o hábito de beber um pouco de vinho todas as noites. Porém, durante minha doença, fiquei surpresa em notar que durante quatro dias eu tinha perdido completamente o apetite e …. a vontade de beber vinho! Essa foi uma sensação muito estranha, causada, imagino eu, por uma congestão nasal completa que me impedia de sentir o cheiro das coisas.

Mas, graças a Deus, depois de um tempo, meu olfato retornou de forma repentina e intensa. Eu, por exemplo, tive que tirar um croissant do meu quarto porque simplesmente não estava suportando o seu cheiro. E notei que estava igualmente sensível aos aromas estranhos das flores do buquê que tinha recebido de presente.

No momento em que meu paladar voltou, mas eu continuava de cama, os únicos vinhos que me davam vontade de tomar (e sinto vergonha de confessar isso) eram os com borbulhas de qualidade. Lembro-me dessa sensação nas poucas vezes em que estava me sentindo meio doente. Um Champanhe me parece uma bebida muito revitalizante e fácil de beber, e talvez inconscientemente eu acredite que derramar vinho tinto em lençóis seja mais incriminador do que gotas de qualquer bebida clara.

Embora o médico de Louis XIV tenha declarado abertamente sua preferência pelo Borgonha em detrimento ao Champanhe, os vinhos com borbulhas apetecem muito mais esta convalescente que vos fala do que os demais. O frizz deles parece agir como um tônico no meu organismo (ou seria resultado do comprimido Alka-Seltzer no meu copo?). Quando minha saúde melhorou e meu apetite por vinhos voltou, tive que degustar uma sequência de Franciacortas de qualidade superior, e eles marcaram totalmente o retorno do meu paladar pelas uvas.

Mas quando comecei a me sentir suficientemente bem para descer com facilidade as escadas em direção à cozinha para jantar com minha família, ainda tossindo e pigarreando, o vinho que mais amei, como nunca tinha amado antes, foi o vinho do Porto. (Sim, é um salto grande mudar do champanhe para o vinho do Porto, concordo).

A riqueza suave do vinho do Porto foi um bálsamo para a minha pobre garganta idosa, e os seus vapores inebriantes funcionaram como o mais luxuoso dos remédios para tosse. Durante uma a duas semanas, eu me deliciei com vinhos do Porto de todos os tipos: fortificados, Tawnies pálidos e densos, vinhos do Porto Vintage roxo escuro de todos os tipos. Os altos teores alcóolicos em vinhos não fortificados que eu julgava desencorajadores em tempos de saúde perfeita, passaram a ser um atrativo em meu estado de fraqueza.

É claro que existem vários vinhos especificamente formulados para fins medicinais. Um dos melhores é o Barolo Chinato, a versão especial fortificada do Barolo com infusão de cascas de árvores e ervas, indicado para combater a febre e outras diversas doenças. No cantão suíço de Valais, o vinho feito com a uva local humagne blanc. Ele é tradicionalmente infusionado com as ervas da região (além de possivelmente canela, açafrão e hissopo) e costuma ser administrado para dar energia às mulheres em trabalho de parto.

Em linhas gerais, quanto mais forte, doce e herbáceo for um vinho, maior é sua reputação quanto às suas qualidades terapêuticas. Defendo a ideia de que quanto mais vinho um paciente sente vontade de beber, melhor será sua recuperação. Sim, eu detestaria ter que privar um enfermo de um dos maiores prazeres da vida.

 

Jancis Robinson_site

*É Master of Wine e escreve para diversas publicações em todo o mundo, além de manter o próprio site

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