Prazeres da mesa

VITRINE DO PECADO

Por: Prazeres Da Mesa | 6.jan.2017

Fui virar o ano em Paraty, no Rio de Janeiro, cidade cheia de história, lotada de personagens curiosos: os condutores de charrete, que adoram falar sobre a maçonaria; os barqueiros, que admitem inventar histórias sobre os milionários donos de ilhas no entorno; o ator João, que encarna um escravo acorrentado diante da igreja Santa Rita de Cássia para lembrar o tempo em que os negros africanos desembarcavam e, ali mesmo, eram comprados pelos senhores de engenho…

Mas, com tantas figuras inusitadas, nenhuma delas é tão típica de Paraty quanto os vendedores de doces, que circulam com seus carrinhos gigantes pelo calçamento irregular do Centro Histórico.

Eu conheci os vendedores de doces na primeira vez em que fui a Paraty, nos anos 1970. Àquela época, meu sonho eram os palcos. Bailarina clássica, eu passava meus dias refém das dietas. E nesta ida a Paraty, advinha? Eu estava de dieta. Meu pai, “formiga” assumido, virou freguês do doceiro que fazia parada diante da Pousada Pardieiro onde estávamos hospedados. E eu ali, salivando, fiquei só no desejo. A força de vontade foi reconhecida no retorno aos palcos – estava seis quilos mais enxuta – só que os doces não saíam da minha memória.

20 anos depois, voltei a Paraty determinada: iria me atracar com aqueles doces. Chovia muito na cidade, as ruas estavam bastante encharcadas e o calçamento – desafiador desde a sua concepção – se transformou em uma corrida de barreiras para turistas e, claro, também para os doceiros e seus carrinhos. De novo, fiquei na vontade. O único carrinho com que cruzei já estava vazio.

Há alguns dias, retornamos à Paraty para a virada do ano. Agora vai, eu pensei. E foi. Não faço mais dieta… a previsão do tempo não anunciava chuva… e, pra minha alegria, os doceiros se multiplicaram alegremente pela cidade.

Dentro dos carrinhos, muito mais do que os quitutes seculares. Hoje em dia, também vendem aqueles brigadeirões gorduchos e bolos que, de hora em hora, são “regados” com leite condensado. Mas todo o resto está lá: as cocadas, os bolos de tapioca, os quindins brilhantes e o espetacular quebra-queijo. E foi por esse mesmo que eu comecei os trabalhos. E depois uma cocada de fita… e uma rapadura…

Foi uma tarefa árdua; eu e os doces. Depois uma passadinha na Igreja da Matriz Nossa Senhora do Rosário para pedir perdão pelo abuso. Mas, sinceramente? Não bateu arrependimento, não.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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