Prazeres da mesa

WATERLOO PORT

Por: Prazeres Da Mesa | 24.nov.2015

Foi com esse nome que os ingleses batizaram a safra 1815 desse nobre vinho

Conter Napoleão Bonaparte era uma tarefa difícil. O todo-poderoso imperador queria ser o dono da Europa. Depois de colecionar muitas vitórias por vários cantos do continente, uma cartada final tinha de ser jogada. Foi então que em solo belga tudo foi definido. Em 15 de junho de 1815, comandando um exército de 73.000 homens, Napoleão invadiu a Bélgica. Lá, esperava-o o duque de Wellington, comandando um exército anglo-batavo-alemão com 93.000 homens e mais um reforço de 50.000 soldados prussianos que logo chegaria. O final foi trágico para todos os lados. Napoleão perdeu a batalha e 48.000 homens, o duque de Wellington venceu a batalha, mas 24.000 soldados perderam a vida. O dia decisivo foi 18 de junho de 1815, e assim a célebre Batalha de Waterloo entrou para a história. Napoleão foi exilado na Ilha de Elba e o duque de Wellington tornou-se o grande herói para diversas nações da Europa.

Essa vitória mudou o cenário político da história, na época, e seus desdobramentos se fizeram sentir por muito tempo. Até o Brasil se beneficiou com a Batalha de Waterloo, pois, com a queda de Napoleão, Dom João VI pôde retornar a Portugal e aqui deixar seu filho Pedro, que poucos anos mais tarde proclamou nossa independência.

Pode-se imaginar a alegria que tomou conta da Europa sentindo-se novamente livre. O duque de Wellington recebeu todas as honrarias que um soldado pode desejar: cinco títulos de nobreza estrangeiros, seis títulos de nobreza ingleses, 11 honras e condecorações inglesas e 217 condecorações internacionais, além de ter sido por muito tempo o chanceler da Universidade de Oxford.

Se no campo oficial a festa foi geral, no campo popular algo de especial deveria marcar tão grande feito, que fizesse o povo celebrar por muito tempo, o retorno da paz e da vida cotidiana sem surpresas desagradáveis. É justamente aí que entra o vinho do Porto!

O VINHO

A safra de vinhos do ano de 1815 no Douro foi excepcional, não só na quantidade como também na qualidade. Como sempre ela é colhida em fins de setembro e início de outubro, nesse período a Europa já estava em paz. Passado o período de inverno de 1815 para 1816, o vinho novo foi provado e constatou-se que se tratava de um excelente caldo. Sem perder tempo, os negociantes de vinho estabelecidos na cidade do Porto fizeram chegar a boa- nova a Londres e logo todos queriam provar a bebida, que, então, recebeu seu nome de batismo: Waterloo Port.

Assim, os bretões tinham mais um motivo para celebrar seus feitos militares em Waterloo. A colheita de 1815 foi posta à venda a partir de 1817 e em 1818, devido à grande procura dessa safra, o vinho atingiu o maior preço desde que o governo de Portugal entrou na história com a criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, em 1756. A safra de 1815 só teve seu preço ultrapassado pela de 1867. Os fatores qualidade superior e o desejo de celebrar foram marcantes para a safra de 1815.

O número de pipas de 550 litros daquele ano exportadas para a Inglaterra foi de 26.526 em 1817 e 32.581 em 1818, ou seja, bebeu-se esse vinho como nunca.

01/12

OS FERREIRA E O VINTAGE 1815

Desde o ano de 1751, a família Ferreira já trabalhava com vinho. José Bernardo Ferreira se ocupava de produzir e de comprar vinhos no Douro e depois os vendia aos interessados, na grande maioria negociantes ingleses. O mercado inglês era tão importante que José Bernardo, no ano de 1815, fez contato e nomeou Joaquim Máximo Virginiano seu comissário em Londres. Naquele ano, José Bernardo exportou 700 pipas de 550 litros para a Inglaterra. Em 1817, mais 960 pipas são exportadas para o mesmo destino, tal fato se associou muito à qualidade da safra de 1815 e à euforia dos ingleses que ainda festejavam os feitos nos campos de batalha.

Durante muitas décadas seguidas foi grande a procura dessa safra na Inglaterra, sempre sendo associada à Batalha de Waterloo. Boa parte da produção desse vinho foi engarrafada em Vila Nova de Gaia e repousou por muito tempo na Garrafeira particular da família Ferreira, que então já tinha em seu comando a célebre “Rainha do Douro”, dona Antónia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha, como o povo a chamava. Foi registrado na “frasqueira” particular de dona Antónia no ano de 1869, que era composta de 87.971 garrafas, que só do ano de 1815 lá estavam descansando 6.267. Assim que a venda a granel da prestigiada safra se esgotou, sobraram apenas essas botelhas, que foram armazenadas na espetacular garrafeira da Casa Ferreira, localizada atrás dos Armazéns da Cruz, em Vila Nova de Gaia.

Em uma lista de preços da Casa Ferreirinha, de janeiro de 1903, encontra-se o Porto Novidade (Vintage) de 1815 sendo ofertado por 20.000 réis a garrafa. Era, então, o mais caro vinho da casa. No ano de 2013, somente 44 unidades dessa preciosidade adormeciam na garrafeira. Após essa data, uma garrafa veio para o Brasil, outra foi para Londres para ser leiloada e as 42 restantes continuam dormindo o sono dos justos.

O LEILÃO EM LONDRES

Para celebrar a passagem do segundo centenário da Batalha de Waterloo, a Casa Ferreira pôs em leilão uma garrafa dessa joia. A prestigiada Casa de Leilões Sotheby’s encarregou-se de comandar o leilão. O local escolhido para o evento foi emblemático, a velha Torre de Londres, onde de 1826 a 1852  o duque de Wellington foi nomeado seu guardião. O melhor de tudo é que a renda obtida com o evento foi destinada à Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica (Apela). O leilão realizou-se após um suntuoso coquetel, tendo como cenário as joias da Coroa Britânica e as armaduras de diversos reis bretões. A garrafa do Waterloo Port Vintage Ferreira 1815 foi apresentada em um rico toucador, acompanhada de um ship decanter de cristal com a base de prata, e arrematada por um inglês por 5.000 libras esterlinas, aproximadamente 23.000 reais.

Fernando Guedes, CEO da Sogrape, empresa proprietária da Casa Ferreira, informou aos presentes que “a Casa Ferreira foi a única do setor do vinho do Porto que preservou algumas garrafas dessa joia”. Assim, mais uma vez os ingleses não esconderam sua euforia em celebrar a vitória na Batalha de Waterloo, com alegria e estilo.

01/12

A DEGUSTAÇÃO EM SÃO PAULO

No dia 18 de junho, exatamente quando celebravam os 200 anos da Batalha de Waterloo, por meio de Prazeres da Mesa, convidei um grupo de amigos para degustar uma garrafa do Porto Vintage Ferreira de 1815, o Waterloo Port. Essa garrafa foi-me presenteada em 2013 pelo então CEO da Sogrape, o amigo Salvador Guedes. Recebi-a com muita emoção e não escondo que foi preciso um nó na garganta para conter as lágrimas. Amante convicto e praticante desse vinho e apaixonado por história, o que mais eu poderia desejar? Prometi na hora ao amigo Salvador que abriria a garrafa na celebração dos 200 anos da batalha. Assim foi feito.

No restaurante A Bela Sintra, do confrade Carlos Bittencourt, éramos nove à mesa, e depois de saborear carne de siri gratinada acompanhada do vinho branco do Douro “Planalto”, bacalhau à Chiado e arroz de pato, harmonizados com os vinhos tintos do Douro “Papa Figos” e “Calábriga”, muito descontraidamente aguardamos o sommelier, que, com precisão e habilidade, tirou a rolha, decantou o vinho e serviu a todos.

A cor se apresentou quase transparente, com tons levemente esverdeados, os aromas reportavam a especiarias, destacando-se o gengibre. Algumas notas distantes de madeira e iodo também estavam presentes. A acidez estava perfeita e a longa permanência na boca surpreendeu a todos. Assim, fechamos com chave de ouro nossa homenagem a um dos fatos mais relevantes da história moderna da humanidade, agradecemos a natureza por preservar durante tanto tempo esse vinho que agora não habita mais a garrafeira, mas, sim, nossa memória!

01/12
Carlos Cabral

*Estuda vinhos há 43 anos. É consultor e um apaixonado pelo tema

Colunas recentes

Colunas