O restaurante é casual, os garçons totalmente informais, as mesas não têm toalha, o salão é apertadinho, e vivem lotados. O nº 9 do ranking The San Pellegrino World’s 50 Best Restaurants é um espaço democrático, com menu que mal chega à metade do preço de seus colegas de lista. Veja como é um jantar lá clicando neste link.
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Azurmendi (Larrabetzu/ESP)

Meu segundo restaurante 2 estrelas-Michelin fica a 10 minutos de Bilbao, numa grande propriedade na encosta de uma colina, propiciando essa bela visão.

O salão do restaurante comporta em torno de 50 comensais, e separando-o da cozinha está o grande salão de eventos, onde são realizadas bodas para até 500~600 convidados.

No topo da colina está o novo prédio, todo envidraçado, para onde o restaurante deve se mudar este mês de janeiro. O prédio antigo ficará somente para eventos, e visitamos também o subsolo, onde funciona a vinícola da casa, produzindo vinhos e o tradicional txacoli basco.

Estávamos num grupo de 7 pessoas, todos da equipe do Mugaritz, e fomos atenciosamente recebidos pelo chef Eneko Atxa. Conhecemos também essa sala, mais parecida com um laboratório, que é seu departamento de pesquisas!

Gema de ovo com conteúdo parcialmente extraído e substituído por caldo de trufas: uma bocada com explosão de sabor!

Raviólis de rabo de boi com capa crocante de pão e caldo concentrado de seu cozimento. De tirar o chapéu.

Ostra morna (sem chegar a causar cozimento) com salicórnia (uma erva suculenta que cresce banhada por água salgada). Para dar o clima, bowls com algas e gelo seco, sobre os quais era vertido água do mar, enchendo a mesa de brumas e perfume.

Txangurro (uma espécie graúda de carangueijo) com ovas, flores e espirais de cebolinha. Por baixo, o caldo de cozimento do próprio txangurro e espuma de seu coral.

"La Huerta": legumes, flores, tomatinhos confitados, "terra" comestível e creme de cebola por baixo.

Esferas de mozzarella (ou seriam simplesmente de leite?) num caldo espesso de panceta, anchova e aspargos.

Se a horta veio à mesa, por que não também o mar?! Parecia até um netbook individual para cada comensal: chipirones grelhados, gotas de toffee de cebola e croquetes explosivos de tinta de lula (indiscutivelmente um dos pontos altos do menu). No fundo, o fundo (do mar, claro)!

Última etapa salgada: peito de pombo. Meu ponto alto foram essas graúdas avelãs douradas, que na verdade eram uma crosta de algo parecido com um chocolate e recheio de foie de pombo! Ajoelhei e joguei minhas mãos para os céus!

Pré-dessert, a vista da colina do Azurmendi: servida assim mesmo, em 45º, espuma de agrião com ervas, flores e "terra". Por baixo, uma compota de maçã. E o bagulho não deslizava!

"Fresas y rosas": disco de merengue, pétala de rosa cristalizada, morango em duas texturas. Para compor, uma tigela com água de rosas e gelo seco que, tampada, virava um vulcão de perfume.

Três horas mais tarde (ou teriam sido 4?!), enfastiado e depois de várias garrafas de vinho consumido, ainda vem essa caixinha individual de bombons.
Existem duas opções de serviço. Fomos no Menu Geroko (95 euros) com alguns mimos extras oferecidos pelo chef a título de coleguismo profissional. Aliás, Eneko acabou oferecendo também os vinhos. O chef está no Twitter (siga acessando este link) e o site do restaurante está aqui.
Cinc Sentits (Barcelona/ESP)
Passando por Barcelona, minha prioridade eram os famosos bares de tapas, mas no último dia resolvi me dar de regalo um restaurante de cunho gastronômico. Nesse período over-seas a alternativa “táxi” não tem entrado na minha lista de opções, de modo que procurei algo relativamente próximo de minha hospedagem.

Acabei encontrando um recém-estrelado do Michelin a 30 minutos de caminhada e lá fui eu ao Cinc Sentits, de pequena e discreta fachada, decoração de muito bom gosto.

A casa trabalha apenas com cardápio fechado, em duas opções: os menus Sensações e o Essência. Fui no primeiro, mais completo (tapa, 2 entradas, peixe, carne, queijo, e 2 sobremesas). Essa amêndoa torrada, incrivelmente redonda, estava pecaminosa.

A equipe é muito atenciosa e todos (à exceção da commis) falam inglês fluente. Sempre dão opção ao cliente: "inglês, espanhou ou basco?). Shot Cinc Sentits de três camadas: maple, creme, e zabaione de cava.

Além da carta de vinhos, existem duas seleções de harmonização de vinhos disponíveis, uma priorizando vinhos da região e outra de países variados. Fui nessa segunda e tive a oportunidade de conhecer esse Tokaji, sequíssimo.

Tranche de peixe (ponto perfeito, mas me deparei com uma espinha) com batata e pesto de salsinha. Era a primeira parte de um prato que vinha em duas etapas, seguido depois...

dessa micro-paellera. Sabe quando as pessoas disputam o fundo queimado de uma panela de arroz? Pois neste caso só há o fundo caramelado de arroz em caldo de peixe.

Queijos para comer na seqüência e acompanhados de doce de leite, geléia de laranja e cidra cristalizada.

Um vinho catalão de sobremesa elaborado com Touriga Nacional, Garnacha negra, Garnacha blanca, Malvasía e Xarel·lo (hein?!).
Essa experiência aconteceu pouco depois de meu jantar no Mirazur, ambos com UMA estrela Michelin. O Cinc Sentits é muito bom, altamente recomendável, mas impossível não comparar. Faz grande diferença quando uma casa trabalha atrás da SEGUNDA estrela, caso do francês.
OBS – Peço desculpas pela descrição deficiente (e eventualmente até incorreta) dos pratos. Ao recuperar as anotações do jantar acabei cometendo uma barbeiragem e deletando as notas. Com isso tive de recorrer a meus neurônios enferrujados para lembrar de uma refeição percorrida há mais de 2 meses.
Conferindo o ranking da San Pellegrino
Como funciona?
Organizado pela revista Restaurant, o mundo é dividido em 27 regiões, cada um com um diretor regional e mais 30 jurados. Destes, pelo menos 10 são anualmente renovados.
Cada votante deve indicar (em ordem de preferência) 7 restaurantes que tenha frequentado nos últimos 18 meses, sendo no mínimo 3 de fora de sua regional. Os votos, claro, não podem ser dados a casas do próprio jurado.
Meus check-in’s
Terminando minha temporada européia, acredito que não vá aumentar minha lista, então vamos aproveitar o domingão de férias para fazer um balanço dos restaurantes que conferi:
[#3] Mugaritz (San Sebastian/Espanha)
Meu segundo estágio na Europa, uma casa que existe há 13 anos. O menu varia de 18 a 22 etapas, e a idéia é que sempre existe algum “truque” nos pratos: a cerveza, na verdade, é um caldo de feijões; o que parecem feijões vêem a ser avelanas cozidas; as nueces são falsas, com cascas feitas de chocolate e recheio injetado de gelatina de armagnac, etc. Muitas vezes essas pegadinhas podem passar despercebidas aos comensais, mas não chega a ser um desperdício, pois de qualquer forma os insumos são de primeiríssima.
[#7] D.O.M. (São Paulo/Brasil)
Já faz muito tempo que não vou lá, e é engraçado os comentários que recebo do restaurante do Alex – tudo muito “ame-o ou deixe-o”. Minhas experiências foram muito boas, e tá na hora de um repeteco.
[#9] Le Chateaubriand (Paris/França)
O mais bem colocado restaurante da França é super-informal, garçons descontraídos, salão para 60 pax, e a cozinha para atendê-los tem menos de 25 m2 (aí já computadas as áreas da câmara fria e da plange!). Não tem toalha na mesa, só funciona com menu fechado mas (segure as pontas!) por inacreditáveis 55€!!! Vou postar aqui no blog o meu jantar no Chateaubriand nos próximos dias. Aguardem!
[#50] Asador Etxebarri (Atxondo/Espanha)
Próximo a Bilbao, o restaurante é citado com respeito por todos cozinheiros com quem comento. O dono e chef está diariamente na casa, é o primeiro a chegar e um dos últimos a sair. Produz o próprio carvão (a partir de 4 tipos de madeira) e com ela faz todos os pratos quentes da casa. A casa não compartilha da filosofia do “quilômetro zero”, optando por outra: o melhor ingrediente, seja de onde for, seja qual o custo. Daí pode-se ter à mesa angulas (uma mini-enguia), caviar iraniano, percebes, etc. Foi lá que comi o melhor camarão de minha vida. Também em breve aqui no blog.
[#68] Mirazur (Menton/França)
O primeiro restaurante que estagiei na Europa, com uma espetacular vista da Côtes D’Azur (seja do salão, da cozinha, ou até mesmo do alojamento da equipe). Flores e ervas silvestres, cítricos em profusão, ingredientes de deixar qualquer cozinheiros nos céus (vindos principalmente da vizinha Ventimilia/Itália). Cozinha de verdade com grelhas, piano francês, salamandra e muito calor. Experiência inesquecível dos dois lados do balcão: como cozinheiro e como comensal.
[#74] Mani (São Paulo/Brasil)
Também faz algum tempo que não vou a este restaurante, de decoração simples mas charmosa. As criações são mesmo realmente surpreendentes, criadas e executadas pelo casal Daniel Redondo e Helena Rizzo. Aliás, finalmente conheci a chef, recentemente aqui na Espanha. Hora de mais um repeteco.
Ok, sei que minha lista é modesta se comparada com a de tantos outros colegas de profissão ou gourmets-viajantes… mas posso continuar trabalhando no sentido de aumentá-la, não?!
Manual de sobrevivência do cozinheiro
Todos nós temos de ser versáteis e estar preparados para contornar dificuldades, certo?! Supondo que você seja cozinheiro e tenha hábitos comuns à essa raça, anote aí algo que pode vir a ser necessário à sua sobrevivência. O ponto aqui é comunicação. Aprenda a falar em outras línguas:
- em italiano: spina
- em francês: pression
- em espanhol: caña
- em inglês: draft
- e em português: chopp!!!

Aqui na Europa é comum oferecerem um belisquete quando você pede uma bebida alcoólica. Geralmente é uma besteirinha, na maior parte das vezes uma azeitoninha bem pequetita. E para minha surpresa, dos lugares onde passei até agora, o melhor foi em Menton/FRA! Tinha as tradicionais olivas, palitinhos, amendoim e um campeoníssimo grão-de-bico com cominho!
Contribuição de meu amigo Rogério Silva, em japonês o termo é nama biru!
Cozinha basca bem recomendada

Ferran Adriá (sim, ele mesmo) diz que este é o melhor lugar que existe para se comer a autêntica comida basca. Foi assim que paramos no Ibai, um restaurante diminuto com menos de 4 metros de fachada e uma discretíssima placa.

À entrada parece mais um dos tradicionais bares de pintxos, mas sem frequentadores e com balcão mal abastecido. Na verdade o salão fica no subsolo, com capacidade para menos de 30 clientes.

Devidamente acomodados, esse senhor vem à mesa e nos recita os pratos disponíveis no dia. Trata-se do proprietário, mas também o cozinheiro que, diga-se de passagem, executa a função sozinho!

Começamos com linguiça caseira cozida em sidra.

Percebes (um tipo de molusco)! Não parecem as garras de algum tipo de monstro?!

Setas (cogumelos) salteados com ovo de codorna poché.

Comida basca? Então, pra acompanhar, a bebida tem que ser uma txacolina (um vinho branco da região, parecido com a sidra).

Enormes kokotxas de merluza com um impecável molho pil-pil.

Chipirones en salsa tinta (molho à base de legumes com tinta de lula).

Pra finalizar vêem duas grandes travessas com linguado.

Apenas duas pessoas fazem o atendimento no salão: a esposa do dono/cozinheiro e esse senhor – o irmão, que destrincha cada peixe em quatro longos filés.

O linguado está num ponto tão perfeito de cozimento que, mesmo dobrando-o no prato, o filé não se quebra.
Fim de almoço, café pra encerrar, 90€ por pessoa, e todos saem concordando com a afirmação do chef El Bulli.
Um almoço no Mugaritz
O restaurante está na posição número 3 do ranking mundial da San Pellegrino e ostenta duas estrelas do guia Michelin. Os insumos são de altíssima qualidade e a casa compartilha da filosofia do Quilômetro Zero, tentando ao máximo priorizar produtores e produtos da região.
Na cozinha, entre estagiários e brigada permanente, estão em torno de 40 pessoas, sendo que um terço trabalha na cozinha de produção/pré-preparo (o chamado quarto frio, com temperatura de 12~15oC) e o restante distribuído nas partidas da cozinha propriamente dita.

O Mugaritz fica nos arredores de Errenteria, a 12 km do centro de San Sebastian, num cenário bucólico cheio de colinas, relvados e ovelhas pastando.

A propriedade é enorme, contando também com uma horta e um amplo estacionamento, já que também realizam jantares de casamento.

Logo à chegada cada comensal recebe essa lembrancinha, com um cartão entitulado “Plantar fronteiras”.

Dentro há uma semente da árvore-símbolo do restaurante, defronte à qual temos nossa mesa.

Começamos com os tapas. Esta é a corteza. Com umas 20 cabeças de leitão se produzem meros 2 litros de um caldo espesso, que é espalhado num silpat para secar, e que infla ao ser frito. Fica parecido com o mandiopã, mas na boca, sem morder, derrete por completo. Vem com uns trocitos de abóbora.

Os japoneses têm um produto chamado kuzu, utilizado como espessante de caldos, similar à maisena. O Mugaritz fez um trabalho intenso em cima do produto e passou a empregá-lo de formas muito diferentes da tradicional. Este é o cristal, feito de kuzu e servido com um praliné e uma pasta de coral de txangurro (um tipo de carangueijo gigante).

Esta pseudo focaccia é feita também com kuzu, sem farinha de trigo, e servida com um praliné de tomate-seco.

Laranja, azeite e sal: as “supremas” de laranja são desidratadas com cal (da mesma forma que os doces interioranos do Brasil), secas no forno, ficando ressecadas por fora mas suculentas por dentro.

O azeite da laranja vem nessa bela jarrinha. Assim que chegou à mesa nos entreolhamos e o primeiro comentário foi uníssono: “deve quebrar que é uma beleza!”. Coisa de gente que trabalha com restaurante.

Aliás, minhas companhias à mesa eram Claude, Thomas Troisgros e Julien Mercier (que tirou a foto).

Talo de cardo rojo (parecido com um salsão gigante) banhado em praliné de nozes e anis.

Avelãs cozidas com textura de feijão, pele perfeitamente intactas, cebola e crocantes de cristal de kuzu. Fez sucesso.

Para a sopa mortero cada comensal recebe um destes pilões, com o qual macera um misto de gergelin e poivres num bowl quente de ferro fundido…

…daí o garçon agrega ervas frescas e um caldo de pescados.

Tentáculos de anêmona ao vapor encobrindo um pedacinho de tutano de boi.

Um falso queijo curado que chamamos de lino, feito com linhaça e leite de cabra, servido com cogumelos salteados e ervas carnudas (com um evidente toque salgado).

Miga, um pão feito com kuzu, sem farinha de trigo, servido com pastinhas de azeitona, nozes e cebola queimada.

Língua: fibras de língua desfiadas, servidas com alho confitado, cebolas queimadas, caldo de rabito e flores.

Bela aparelhagem de mesa, não?!

O foie-gras do Mugaritz é famoso, considerado um dos melhores do mundo, aqui servido defumado com mini-rabanetes em hidromel.

Lombo de merluza ao vapor em caldo leitoso de nabo.

Caudas de txitxarro com o próprio caldo e espinafre.

Primeira etapa dum prato: flan de quinoa com um caldo espesso de ave de caça.

Segunda etapa: ave de caça grelhada. Nesse caso era um pica-pau, e vem com a cabeça para comprovar a veracidade do bicho. E (sim!) come-se o cérebro. Outras opções são pombos e perdizes (que não vão com a cabeça).

Última etapa salgada: rabitos crocantes de porco em seu caldo, azeite de nozes e “folhas” de miho.

Queijos da região antes das sobremesas, harmonizados com uma cerveja defumada – Etxeko Bob’s Beer.

Sorvete de leite de cabra com nozes tostadas no sal. O que parece serem nozes inteiras são, na verdade, feitas de chocolate, e dentro contém gelatina de armagnac.

Falsas favas de baunilha servidas com açúcar de baunilha (de verdade) e doce-de-leite.

Sanduíche de sorvete de baunilha.

Empanadilla de brioche, servida numa tigelinha furada por onde passa o vapor perfumado de folhas de mandarina em infusão.

Cucurucho: casquinha de cristal de kuzu com sorvete, flores e “pregos enferrujados” de chocolate.

No final das três garrafas de vinho, quatro horas de refeição e visita à cozinha, o chef Andoni veio à mesa agradecer a compota de cupuaçu que Claude lhe trouxe. E, claro, receber os merecidos parabéns pelo menu!
Le Gravelier (Bordeaux, França)

Passei novamente pela capital mundial do vinho, dessa vez apenas para um stop-and-go a caminho de San Sebastian. Como ia passar a noite por lá, resolvi cumprir uma promessa feita ao Thomas e visitar o restaurante da tia, irmã de Claude Troisgros, agora Anne-Marie Gravelier.

O restaurante é pequeno, para menos de 30 pax, mais uma sala reservada no andar de cima para outros 15. O salão é informal, mas bem charmoso e acolhedor. Depois de uma caminhada de uns 40 minutos a partir do hotel, cheguei um pouco atrasado para minha reserva.

Me deram uma curiosa mesa alta. Estranhei no começo, mas tinha um banco (também alto) de assento enorme e confortável descanso pros pés. Além disso, a posicão e a altura me davam ampla visão dos trabalhos da cozinha.

Como cortesia a proprietária me ofereceu uma taça de Champagne. Fome-e-vontade-de-comer, aceitei prontamente, pois após a caminhada eu mesmo teria pedido uma! Começando com uma sardinha “enlatada” da casa e torradinhas.

Entrada: cepes grillé avec gambas et bouillon.

Pra beber, um vinho da região, claro! Le Cadet de Larrivet Haut-Brion 2009. (Notaram ali atrás o janelão da cozinha, bem na minha linha de visão?)

Primeiro prato: “pizza”! Na verdade, um crostini com rúcula, uma tranche grelhada de dourada e uma pastinha espetacular por cima.

Segundo prato: um tradicional blinis, pombo assado, alcachofrinha e um jus do assado levemente caramelado.

Queijo: chévre empanado com geléia de piment-espellete.

Pré-dessert: bolinho frito no palito, merengue gratinado e sorvete.

Sobremesa: acho que é tradição dos Troisgros servir crepe-suflê (não é reclamação, mas uma constatação, pois sempre é muito bom), aqui de framboesa com coulis e sorbet da mesma fruta.

Adoro café Illy, e foi bom encontrá-lo aqui. Por onde estive na Europa não existe açucareiro e nem um monte de sachets disponíveis. É sempre assim: UM sachet ao lado da xícara.

Como minha reserva tinha sido feita na véspera, Anne-Marie e o marido – o chef Yves Gravelier, não estavam na casa devido a um compromisso previamente assumido. Mesmo assim correu tudo perfeitamente bem, o atendimento foi muito atencioso (recebi até um panfleto da Maison Troisgros). Como não achar bom se, no final, recebi a dica pra voltar de tram (um VLT – veículo leve sobre trilhos) por módicas moedinhas e ainda fechei com a oferta desse digestivo da casa?! E tome o caminho da roça, sorriso nos lábios.
Mirazur, um restaurante diferenciado
Rankings, prêmios e estrelas não são a razão de viver para nenhum restaurante, mas são bastante úteis para compará-los e “medalhas” para ostentarem orgulhosos nos peitos estufados.
Como publiquei há um semana, o Mirazur entrou na lista dos 10 melhores restaurantes da França. No guia Michelin consta como “restaurante de UMA estrela”, mas no dia-a-dia da cozinha nota-se recorrentemente que trabalham com afinco atrás de um upgrade nessa classificação.

A casa tem dois salões de atendimento. Este é por onde os clientes chegam, no mesmo piso da cozinha…

…que pode ser vista por um enorme janelão atrás do bar. Fizemos nossa reserva para a noite de um domingo, já em baixa temporada e com poucas reservas. Nesse dia a produção estava sendo feita quase que exclusivamente pela brigada permanente, sem estagiários.

Nos dirigimos ao andar superior, onde fica o salão principal.

Só aí notei que, apesar de estar trabalhando lá há mais de um mês, era a primeira vez que visitava o ambiente.

Sentando à mesa, somos recebidos com o welcome-drink: espumante com infusão de verbene (uma erva espanhola) e casca de laranja.

Aproveitamos para observar a bela vista do salão envidraçado…

…que traz as luzes do centro da cidade de Menton e do porto de Garavan.

Em seguida vêem os tapas: bombom de queijo defumado (miolo cremoso), chips de arroz com tinta de lula e tartare de legumes, crisp de beterraba com queijo de cabra (não muito visível na foto, servido em cima de um tufo de musgo).

Pode ser deslumbre, mas num ambiente desses, com esse serviço, até a garrafa de água ganha nobreza, podendo ser confundido com um vinho.

Pain de partage (pão pra compartilhar) e azeite de Menton (com um toque de citron) servido por Jose di Gregorio – vulgo Cochi, garçon argentino, sobrinho do chef Mauro, e que está indo para uma temporada em Nova York numa casa de Daniel Boulud.

Escolhemos o menu de 105€ – o carte blanche, de 10 etapas. Nada do que tinha sido servido até então entra nessa conta. São mimos servidos a todos os comensais. Iniciamos os trabalhos com um jovem Pinot Gris argentino.

O primeiro amuse-bouche chega cuidadosamente montado. Para vocês terem uma idéia, essa mini-carote tem o tamanho de meia tampa de caneta Bic! E começa a fazer sentido o porquê de tanta cobrança, tão alto nível de exigência na cozinha.

O bouilon de cenouras vem numa jarrinha japonesa e é servida à mesa.

Amuse-bouche huitre: ostra crua por baixo, creme de échalote, e pêra em várias formas (carpaccio, uma manta gelatinizada, parisien, e purê).

Salada de artichoke (alcachofra) com creme de citron e emulsão de erva-doce. Lindo e delicioso, mas um terror para a praça de garde-manger.

Ouriço com espuma de açafrão e emulsão de coentro, um dos pontos altos do jantar.

Oeuf poché com espuma de batata e lâminas de ouro… digo, de trufas brancas (afinal, é mais caro do que ouro!).

Hora de abrir outro rótulo, um branco da região (Provence).

O salsão europeu é um pouco diferente, com um grande bulbo comestível. Foi o que experimentamos nessa vieira grelhada com purê de salsão, espuma defumada e trevinhos.

Dorade savage com um primo da mandioquinha grelhado, roletes de carpaccio de topinambur, purê de uva e sauce romarin.

Passando para as carnes vermelhas, passando para um vinho mais adequado.

Selle de veau com uma berinjela grelhada ao fundo, molho ponzu, e chifonade de shissô por cima.

Filé de cervo com crosta de pão-de-mel, purê de castanha portuguesa, e nabos variados.

Antes de passar aos doces, um hábito bem europeu: seleção de queijos franceses de petit producteurs.

Pré-dessert de pistache e café em formas, texturas e temperaturas diferentes.

Última etapa do jantar: tijolinho de brownie de chocolate, anéis de figo fresco, e tubo de espuma de azeite.

Durante o jantar, volta e meia algum cozinheiro subia ao salão para espiar como estávamos, verificar a aceitação e sucesso dos pratos. Nossos sorrisos não deixavam dúvidas. Ao final, todos subiram e brindamos para nos confraternizar.

Doce final, pratinho individual de petit-fours com chips de arroz, macaron de erva-mate e financié de gengibre com Grand Marnier e carpacio de pêra.
O menu oficialmente tem 10 etapas, mas contabilizando welcome-drink, os tapas, os pães (outras três variedades além do pão de partage tinham serviço volante), os queijos e os petit-fours esse número sobe para DEZESSEIS!
Extasiado, de barriga cheia e um sorriso de satisfação, o Mirazur foi minha segunda casa estrelada Michelin, mas num nível completamente diferente da anterior. Acredito que muito em breve atingirão sua meta e passarão a ostentar orgulhosamente deux étoiles. Parabéns ao chef Mauro Colagreco e toda a equipe do Mirazur!!!
Outro balanço, agora das CERVEJAS!
Vez de listar as brejas! Só não dá pra chamar de loira, porque tem de cores bem variadas, até mesmo vermelhas! E toca o bonde:

Segundo a equipe do Mirazur, o Minipub é o único estabelecimento onde dá pra tomar algo depois das 22hs. Parece inacreditável que isso aconteça numa cidade... em QUALQUER cidade, mas realmente não encontramos nenhum outro boteco aberto. E mesmo assim tem movimento modorrento! Vários drinks na carta, mas vamos mesmo de cerveja: Carlsberg (Dinamarca), Corona (México) e Desperado.

A Desperado tem ainda a versão Red, que além da tequila tem também guaraná e cachaça. Curioso... e SÓ.

No BiCu, de Gênova, tomando uma degustação das cervejas produzidas lá mesmo. Podia pelo menos ter tirado a foto antes de matar o primeiro shot, não?!

No aeroporto de Lisboa, última parada antes de voltar à terrinha, conferindo um pastel de nata. E para acompanhar, uma Super Bock, cerveja dos patrícios.

Pausa para relaxar no La Grota, um café a 50 metros da fronteira Itália-França: Spritz e breja alemã Beck's.

No Les Destilleries Ideales, em Nice Ville, fazendo fila em todas as cervejas de pressão: uma de maçã (interessante) outra de cereja (curiosa, mas enjoativa)...

No alojamento, entre a galera, o que mais fazia sucesso era essa cerveja italiana comprada no Eurodrink, a 100 metros do restaurante: Birra Moretti. Com véu de noiva!

Na ida ao mercado, fazendo a mise-en-place do frigobar do quarto: Koenigsbier e Kronenbourg (francesas), Hoegaarden e Leffe (belgas).

Na varanda do alojamento todo dia alguém aparecia com uma marca nova para experimentarmos: Pelforth, francesa.

Bordeaux, 14ºC de temperatura ambiente, happy-hour num pub inglês: John Bull Classic (o bom desse tempo é que a cerveja não esquenta!).

Supresa em Menton: abanquetamos para tomar uma holandesa Amstel, que veio guarnecida de vários belisquetezinhos. Nota máxima para um grão-de-bico com cominho, de-li-ci-o-so! Vou copiar a idéia.

E nessa lista a cereja do bolo tem duas nacionalidades - cerveja Deus: a fermentação inicial é na Bélgica, depois é engarrafada e terminada por método champenoise tradicional na França. Quando apareceu no Brasil custava (para o consumidor final) R$ 250 nos restaurantes. Encontrei no Metro (na Itália, semelhante ao Makro) por $15 Euros.





















