Um almoço no Mugaritz

Um almoço no Mugaritz

O restaurante está na posição número 3 do ranking mundial da San Pellegrino e ostenta duas estrelas do guia Michelin. Os insumos são de altíssima qualidade e a casa compartilha da filosofia do Quilômetro Zero, tentando ao máximo priorizar produtores e produtos da região.

Na cozinha, entre estagiários e brigada permanente, estão em torno de 40 pessoas, sendo que um terço trabalha na cozinha de produção/pré-preparo (o chamado quarto frio, com temperatura de 12~15oC) e o restante distribuído nas partidas da cozinha propriamente dita.

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O Mugaritz fica nos arredores de Errenteria, a 12 km do centro de San Sebastian, num cenário bucólico cheio de colinas, relvados e ovelhas pastando.

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A propriedade é enorme, contando também com uma horta e um amplo estacionamento, já que também realizam jantares de casamento.

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Logo à chegada cada comensal recebe essa lembrancinha, com um cartão entitulado “Plantar fronteiras”.

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Dentro há uma semente da árvore-símbolo do restaurante, defronte à qual temos nossa mesa.

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Começamos com os tapas. Esta é a corteza. Com umas 20 cabeças de leitão se produzem meros 2 litros de um caldo espesso, que é espalhado num silpat para secar, e que infla ao ser frito. Fica parecido com o mandiopã, mas na boca, sem morder, derrete por completo. Vem com uns trocitos de abóbora.

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Os japoneses têm um produto chamado kuzu, utilizado como espessante de caldos, similar à maisena. O Mugaritz fez um trabalho intenso em cima do produto e passou a empregá-lo de formas muito diferentes da tradicional. Este é o cristal, feito de kuzu e servido com um praliné e uma pasta de coral de txangurro (um tipo de carangueijo gigante).

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Esta pseudo focaccia é feita também com kuzu, sem farinha de trigo, e servida com um praliné de tomate-seco.

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Laranja, azeite e sal: as “supremas” de laranja são desidratadas com cal (da mesma forma que os doces interioranos do Brasil), secas no forno, ficando ressecadas por fora mas suculentas por dentro.

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O azeite da laranja vem nessa bela jarrinha. Assim que chegou à mesa nos entreolhamos e o primeiro comentário foi uníssono: “deve quebrar que é uma beleza!”. Coisa de gente que trabalha com restaurante.

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Aliás, minhas companhias à mesa eram Claude, Thomas Troisgros e Julien Mercier (que tirou a foto).

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Talo de cardo rojo (parecido com um salsão gigante) banhado em praliné de nozes e anis.

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Avelãs cozidas com textura de feijão, pele perfeitamente intactas, cebola e crocantes de cristal de kuzu. Fez sucesso.

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Para a sopa mortero cada comensal recebe um destes pilões, com o qual macera um misto de gergelin e poivres num bowl quente de ferro fundido…

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…daí o garçon agrega ervas frescas e um caldo de pescados.

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Tentáculos de anêmona ao vapor encobrindo um pedacinho de tutano de boi.

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Um falso queijo curado que chamamos de lino, feito com linhaça e leite de cabra, servido com cogumelos salteados e ervas carnudas (com um evidente toque salgado).

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Miga, um pão feito com kuzu, sem farinha de trigo, servido com pastinhas de azeitona, nozes e cebola queimada.

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Língua: fibras de língua desfiadas, servidas com alho confitado, cebolas queimadas, caldo de rabito e flores.

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Bela aparelhagem de mesa, não?!

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O foie-gras do Mugaritz é famoso, considerado um dos melhores do mundo, aqui servido defumado com mini-rabanetes em hidromel.

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Lombo de merluza ao vapor em caldo leitoso de nabo.

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Caudas de txitxarro com o próprio caldo e espinafre.

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Primeira etapa dum prato: flan de quinoa com um caldo espesso de ave de caça.

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Segunda etapa: ave de caça grelhada. Nesse caso era um pica-pau, e vem com a cabeça para comprovar a veracidade do bicho. E (sim!) come-se o cérebro. Outras opções são pombos e perdizes (que não vão com a cabeça).

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Última etapa salgada: rabitos crocantes de porco em seu caldo, azeite de nozes e “folhas” de miho.

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Queijos da região antes das sobremesas, harmonizados com uma cerveja defumada – Etxeko Bob’s Beer.

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Sorvete de leite de cabra com nozes tostadas no sal. O que parece serem nozes inteiras são, na verdade, feitas de chocolate, e dentro contém gelatina de armagnac.

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Falsas favas de baunilha servidas com açúcar de baunilha (de verdade) e doce-de-leite.

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Sanduíche de sorvete de baunilha.

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Empanadilla de brioche, servida numa tigelinha furada por onde passa o vapor perfumado de folhas de mandarina em infusão.

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Cucurucho: casquinha de cristal de kuzu com sorvete, flores e “pregos enferrujados” de chocolate.

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No final das três garrafas de vinho, quatro horas de refeição e visita à cozinha, o chef Andoni veio à mesa agradecer a compota de cupuaçu que Claude lhe trouxe. E, claro, receber os merecidos parabéns pelo menu!

2 Responses »

  1. Ah, e essa compota de cupuaçu é Made in Belém, feita no Lá em Casa, entregue nas mãos do Claude qd esteve aqui fazendo um evento na casa Cor. Que bacana saber q ela chegou por lá e Andoni pode matar a saudade daqui, pois já faz mt tempo que veio. Conexão Belém-San Sabastian. :)

    • Que mundo pequeno, não?! Mas, realmente, não dá pra presentear um dos principais chefs do mundo com uma compota de cupuaçu que não seja DOCG (nomenclatura de vinho para “denominação de origem controlada e garantida”). Bom ver o Lá Em Casa rodando o mundo com seus sabores!!!

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