
Na semana anterior parte da brigada de salão do Mirazur tinha ido ao Aphrodite, um restaurante uma-estrela-Michelin de cozinha molecular em Nice Ville, e nos recomendado.

Chegamos um pouco atrasados em relação a nosso horário de reserva, e ao invés de duas pessoas seríamos três. Sem problemas, pois a casa estava com uma ocupação de 50%.

Fomos acomodados numa mesa ao lado da adega. Nos distraíamos olhando as garrafas, inclusive uma totalmente branca e uma enorme quadri-magnum (6 litros!). Reviva seus tempos de “Onde está Wally?” e encontre as duas na foto acima.

Um dos cantos do salão: muito mais interessante do que as onipresentes paredes texturizadas ou vermelhas, não?!

Escolhemos o menu mais extenso e inventivo, batizado de R’…évolution (99€).

Coquetel da casa, à base de espumante com gelo seco e canudo de fava de baunilha.

Entrada de “ostra vegetariana”: a mencionada “ostra” é feita de berinjela, a “pérola” uma esferificação de citron, ervas com sabor que (supostamente) arremetem a ostra, e shot de ouriço-do-mar. Não fez sucesso entre os comensais, exceto eu, que gostei do ouriço.

O Nitro-Dragon é uma remodelagem do pão com tomate espanhol. Vêem colherzinhas individuais de tomate-confit e cubinhos de crouton.

A espuma de pão vem numa bandeija fashion, junto com o recipiente de nitrogênio líquido no qual é imerso. Uma pequena porção é colocada sobre cada colherada de pão e tudo deve ser comido de uma vez só.

Na boca a espuma esquenta, expande, e sugere-se que seja expelida pelo nariz. Voi-lá, olha o dragão à mesa!

“Ilusão de macarrão com tomate”: o molho tomate foi parar na forma de macarrão (gelatinização), recheio de cremoso de burrata e pesto de manjericão. Faltou cuidado e capricho na execução do “macarrão”.

“Pote de pães sem pão”: deliciosos crisps de parmesão, de batata e outros tubérculos, mandiopan, etc.

Gema de Daube à la Niçoise, um tipo regional de caldo de carne, servido sobre um chip crocante e brunoise de legumes.

Chegamos ao Aphrodite já com uma dica de vinho para harmonizar o menu dada pelo jovem sommelier francês do Mirazur. Chegando lá, porém, o simpático e nada discreto sommelier da casa sugeriu outro rótulo, um branco da região (Provence). Surpresa: era até mais barato!

“Texturas e Temperaturas”: ravioli de moules (quente), sorvete de chorizo (gelado), e jus de bourride (quente) servido à mesa.

O passo seguinte veio coberto com chamativas cúpulas iluminadas, um visual que lembrava Star Wars e outros filmes hollywoodianos com ET’s.

Pata negra com aspargos verdes grelhados e cúpula defumada.

Hábito europeu, o queijo pré-sobremesa: mousse de queijo, lâminas crocantes de alcachofra, rúcula e pão.

“Sorvete do dia feito à mesa”: no caso veio um bowl de coulis de framboesa pura e retornou o recipiente de nitrogênio líquido. O garçon prepara à minute, e haja braço!

Bonito, não?! Cremoso, lisinho, azedinho característico.

Em seguida veio uma caixa de ovos “especiais”, que têm somente clara.

Cada ovo é quebrado e o conteúdo despejado numa frigideira individual que estava mergulhada no nitrogênio. É a “fritura”.

As “gemas” vêem à parte, e daí é só montar.

Um ovo frito na sobremesa: a clara é de panacota de côco, a gema é esferificação de manga, e a pimenta-do-reino, na verdade, é baunilha raspada. O pão é um brioche comum, e consigo imaginar a bronca do chef Mauro se fosse no Mirazur e não viesse um paralelepípedo perfeito.

“Desconstrução: um caviar falso ou um Irish Coffee?”: disquinhos de blinis, o caviar eram esferinhas de café, e o creme um chantilly de whisky. O caviar foi feito de forma displicente, ficando disforme e sem lembrar as ovas de esturjão.

Na tábua de petit-fours veio um cornetto de morango com balsâmico branco, um chantilly de lemoncello…

… um lollipop de parfait de limão verde com açúcar explosivo (aquele que pipoca com a umidade da boca e fazia a alegria da garotada antigamente)…

… e um pirulito de cacau com cobertura de wasabi que vinha com um tubo de pasta de dente de framboesa para aplicar.

Para não amargar o prejuízo e rir na hora de pagar, a conta vem amarrada em balões de hélio: abrir, inspirar o gás, falar igual personagem de desenho animado e cair na gargalhada!
Foi divertido? Sim, muito! E a qualidade da comida? Estava bom, mas isso me pareceu não ser a maior preocupação do chef.
À época que fui estava na praça do poison com Ricardo Santoro, ex-pupilo do chef espanhol Quique Dacosta. Veio me provocar: “Pô, você vai comer no Aphrodite e nem veio ao Mirazur ainda?! Você consegue imaginar um senhor, o avaliador do Guia Michelin, aspirando o balão de hélio e falando igual um pato?!”. O restaurante passou a ser o mote com o qual fazíamos gozação e nos implicávamos.
Willian acho que este não estaria em minha lista. Muito teatrinho, possivelmente para tirar a atenção do que manda, a comida. Vc voltaria nele????
Abraço
Abilio
Nao, nao voltaria, e vc vai entender o porque depois q eu publicar o meu jantar (espetacular, ja vou adiantando) no Mirazur. Abs!