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  Festa improvável

A noite em que os melhores produtores da Borgonha, de onde saem os mais celebrados vinhos do mundo, sentaram à mesa


POR RENATO MACHADO (*)

Não é sempre que acontece em pleno inverno um jantar de sexta-feira à noite reunindo os melhores produtores de uma região da Borgonha num vilarejo da Côte d’Or. Ali, na estreita faixa de terra de pouco mais de 40 quilômetros, onde os mais celebrados vinhos do mundo são feitos artesanalmente, tais ocasiões são, além de raras, discretas.
A agenda dos produtores é organizada com meses de antecedência. É raro estarem presentes todos os atores principais. A produção dessas casas familiares é pequena, restrita, rigorosa. E repartida com base em acertos de longo prazo, numa esteira sólida de fidelidades.

Numa mesa de 14 lugares no restaurante Le Chassagne, no vilarejo de Chassagne-Montrachet, não muito longe de Beaune, capital do vinho da Borgonha, sentaram-se nos idos de janeiro os titulares das propriedades mais cobiçadas da região, e talvez do mundo vinícola, muitos deles fora do alcance da população local.

A lista impressiona: o casal Seysses, Rose e Jacques, do Domaine Dujac; Michel Rocq, cuja mulher, Véronique Drouhin, não pôde comparecer, representou a casa Joseph Drouhin; Patrick Bize, de Savigny-les-Beaune, cujo pai Simon foi associado no passado à Romanée-Conti; Jean Marc Roulot, do Domaine Guy Roulot, berço dos Meursaults mais refinados, cristalinos e minerais de toda a Côte de Beaune; sua mulher, Alix de Montille, também produtora, que, com o irmão Étienne (ausente naquela noite), faz um Meursault austero e bem focado; Jean Pierre de Smet, diretor do Domaine de l’Arlot, perto de Nuits Saint Georges, vinho lendário; Christophe Roumier, do Domaine G.Roumier, talvez o Musigny mais delicado que exista; Dominique Lafon, titular, proprietário, viticultor e vinificador dos extraordinários brancos dos Domaines des Comtes Lafon, uma considerável extensão de hectares em diversas denominações que vão de Meursault a Macon, passando por Montrachet, Volnay, Monthelie... E, discretamente, no meio da mesa, quase se esforçando para não se fazer notar, Fredéric Mugnier, autor de um Nuits-Saint-Georges Clos de la Maréchale, que pode muito bem fazer parte de um conto de fadas.

A brincadeira da noite era temática. Cada casal levaria de sua propriedade o vinho que melhor traduzisse as características, a alma, enfim, o esforço da casa, na safra mais generosa que a memória alcançasse – e que tivesse ainda o vigor e a complexidade que fazem a cultura daquele lugar.

O menu do chef de qualquer forma iria perder. Ninguém estava ali por causa dele. Pelo contrário, todos sabiam bem que ele seria pretexto. Pois assim foi, desde o salmão em três versões na entrada (excelente, aliás) até a ave que discretamente assistiu os tintos do final.

Antes de começar a festa alguém sugeriu que tudo se passasse às cegas. Acharam divertido. Ali estavam eles, dispostos a arriscar a reputação de criadores de Borgonha de alto preço, para se certificarem de que, enfim, sabiam das coisas – ou não inteiramente. E que os erros seriam saudados a risadas. E também que um cumprimento ao vizinho sempre acaba dando certo. Eles lá se entendem. Todos desfrutam da melhor terra, do melhor clima e sabem perfeitamente o que acontece em torno.

Os dois brancos do começo não deixaram dúvidas. Ou deixaram? O primeiro era o Meursault Charmes 04 de Roulot, elegante e altivo, parecendo David Niven em filmes de humor sutil, impecável em sua finesse. Todos os 15 convivas acertaram. O segundo branco confundiu os degustadores, entre os quais Christophe Roumier e o modesto autor destas linhas, que, não querendo se ofuscar completamente, resolveu dar palpite. Imaginamos se tratar de um Chassagne-Montrachert de Lafon 04. Era um Meursault-Charmes 2000, lustroso e macio como os braços de Kate Winslet em Titanic.

Os tintos se seguiram embaralhados, para confundir... Houve mais erros que acertos e a cada um, os risos francos dos colegas de turma tornaram a ocasião mais que surpreendente. Entre os grandes Borgonha, as diferenças são sutis demais.

O vinho de Bize, o Savigny Les Vergelesses 99, um premier cru, se desvendou por si, sem segredos, diferente e rústico em relação aos tintos da Côte de Nuits. Entre estes, um Clos St. Denis 02 de Dujac chegou com força e foi perdendo a corrida aos poucos. O Beaune Clos de Mouches de 02 Drouhin mostrava que seu DNA partia em outra direção. O esplêndido Clos de l’Arlot, do Domaine de l’Arlot, surpreendeu pela elegância aromática e pela persistência – era um 2004 soberbo. O Clos de la Maréchale 04, de Mugnier, arrebatou os corações e as mentes. Ah, mas havia o Chambolle-Musigny Les Amoureuses 95, que Christophe Roumier guardara para o final. O mais antigo, mais reto e austero, com a acidez de taninos perseverantes, aqueles que fazem o belo vinho durar como expressão de terreno e não de tecnologias.

Mas o Clos de la Maréchale, de Fred Mu-gnier, nas expressões de respeito e até de entusiasmo daquele concílio de doutores, não deixou dúvidas. Foi o vinho da noite, seguido das Amoureuses de Roumier e do Clos de l’Arlot.
Foi isso mesmo? Não, disseram algumas vozes. O Meursault Charmes, de Dominique Lafon, empatou no primeiro lugar.
Não houve prêmios nem discursos. Só afeto. E a sensação de um dever artístico cumprido.

foto:


(*) Renato Machado é jornalista da Rede Globo e grande conhecedor de vinhos, especialmente os do Velho Mundo
 
 
 
 
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