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A gastronomia (e não a culinária) começa a ser tratada no Brasil como atrativo turístico. E o exemplo vem do Recife |
POR JOSIMAR MELO (*)
Estive recentemente no Recife, no lançamento de uma iniciativa gastronômica que merece atenção. Pode parecer pouca coisa: pequeno trecho de uma rua foi declarado polo gastronômico da cidade. Não, não é uma rua gigantesca com centenas de restaurantes. É apenas uma pequena área num bairro bacana, onde estão alguns (não todos) dos bons restaurantes da capital pernambucana.
Trata-se da Alameda Rebelinho – como foi batizado esse trecho da Rua Capitão Rebelinho, que corta os bairros de Pina e de Boa Viagem. Nela estão casas realmente interessantes, caso do Mingus (de cozinha franco-italiana e inspiração nos músicos de jazz), do É (mistura de lounge e de cozinha contemporânea, com utilização de ingredientes nordestinos) e do Kojima (bons sushis num ambiente moderno).
Pode parecer um pouco ingênuo, ou de pouca eficácia, que uma cidade dispense recursos, tempo, funcionários, para promover um pequeno destino gastronômico. Talvez para muita gente seja estranho despender esforços na divulgação de uma ruela. Mas se olharmos de perto com uma lupa não será bem assim.
No mundo inteiro a gastronomia vem se transformando num atrativo para o turismo. E, convenhamos, mais interessante – do ponto de vista histórico e cultural – do que belos traseiros nativos ou animais selvagens voltados para a caça sem fins de alimentação.
Por que não poderia ser assim no Brasil? No caso do Recife, trata-se de um destino turístico por excelência, pelas belezas naturais e pelo clima (tanto que hoje existem voos diretos da Europa e dos Estados Unidos para a cidade). Por que não incluir no pacote para os turistas, do Brasil e de fora, a gastronomia?
O caso da Alameda Rebelinho me leva a pensar na responsabilidade dos restaurantes e das autoridades em relação ao tema. No caso do Recife, existe um investimento importante do Recife Convention Bureau, que congrega entidades interessadas no fomento do turismo.
O que me faz lembrar o exemplo do Peru, onde a promoção da gastronomia vem chegando a níveis de importância raramente vistos. No Brasil, é claro, já existem articulações de profissionais ligados à área. Mas, no Peru, constatei um movimento que faz da gastronomia não apenas um interesse corporativo – como gente se reunindo para promover unicamente as prioridades de seus associados –, mas um interesse nacional. Sim, de envergadura nacional, e mesmo governamental. Ali, chefs e donos de restaurantes, liderados por profissionais do gabarito de Gastón Acurio (do restaurante Astrid y Gastón, entre outros), criam associações que se sentam à mesa mensalmente com os órgãos do governo federal (inclusive ministérios) para discutir as formas de fomentar a gastronomia como cultura e também como valor para ser exportado sob a bandeira do país.
Voltando ao nosso país: no caso do Recife, é um esforço que merece ser observado de perto. A iniciativa, que envolve 33 restaurantes daquela rua, inclui a publicação de um guia com mapa e localização de cada um, para ser distribuído aos turistas e aos moradores da cidade.
O interessante é que, posso prever, o movimento não terá um impacto circunscrito à região demarcada pelo polo. Pois quando o turista se interessa pela gastronomia, a tendência é que ele não fique limitado ao circuito indicado, mas também circule por outros locais – no caso do Recife, restaurantes de vários matizes, sejam tradicionais como o Leite, de cozinha de raiz como o Mira, sejam de cozinha moderna, como tantos que vêm surgindo na região.
A verdade é que quanto mais as pessoas conheçam e se interessem pela comida servida em nossas cidades, mais a gastronomia e a cultura do país ganharão. Fomentar esse movimento é algo que as autoridades, bem como os próprios restaurantes, não podem deixar de fazer.
(*) Josimar Melo é crítico de gastronomia do jornal Folha de S. Paulo e autor do guia de restaurantes que leva seu nome.
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