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POR CARLOS CABRAL (*)
Um grupo de mergulhadores profissionais da Octopus, empresa húngara especializada em pesquisas no fundo do mar, descobriu recentemente próximo à costa de Pernambuco um lote de vinhos do Porto de mais de dois séculos, junto aos destroços de antigas embarcações naufragadas. A notícia foi divulgada recentemente pelo site da Agência Portuguesa para Investimentos e Comércio (Aicep).
Dentre os 22 navios afundados, um em especial, de bandeira portuguesa, havia chamado atenção por seus porões conterem inúmeros equipamentos de trabalho e outros produtos em bom estado de conservação. Havia cerâmicas para construção e decoração (de acordo com a nota, provavelmente da Manufactura Santo António), material que seria destinado aos colonos que aqui viviam no fim dos séculos XVIII e XIX. Mas o que mais fascinou os exploradores húngaros foram as garrafas de vinho do Porto de 200 anos encontradas nos porões da nau lusa.
Resgatadas as primeiras garrafas, o empresário e enólogo húngaro Huba Szeremley e a equipe da Universidade da Horticultura e Indústria Alimentar de Budapeste, que integra a expedição, provaram algumas amostras e decretaram: “O vinho está apto ao consumo”. Uma notícia que deixa milhares de colecionadores e apaixonados por esse néctar do Douro exultantes e ao mesmo tempo em alerta (imagine como devem estar os departamentos de vinho da Sotheby’s e da Christie’s, em Londres!). A Octopus ainda acredita que possa haver cerca de 1.000 garrafas mais enterradas na areia, próximo do navio.
Se os primeiros estudos revelam que os vinhos encontrados têm de fato dois séculos, de acordo com os registros do naufrágio, é possível afirmar que tais garrafas, datadas de 1809, têm o desenho e a estrutura mais próximos aos usados no engarrafamento de Porto Vintage. Até 1708, o vinho era envasado em vasilhames mais baixos, parecendo uma botija ou moringa de barro, e apresentavam um gargalo proeminente preparado para receber uma vedação, no caso uma rolha.
Para as autoridades lusas e apreciadores brasileiros, a expectativa agora é a confirmação do nome do navio, pois será possível confrontá-lo com a farta documentação da alfândega da cidade do Porto, sobre os transportes dos vinhos que partiram daquela cidade naqueles idos. Com essa informação em mãos também será possível saber a casa que exportou a bebida e até encontrar os registros das quantidades e tipos exportados. Enquanto isso, a Octopus anuncia que fará exposições itinerantes desse tesouro líquido na Hungria, em Portugal e no Brasil. E fica o desejo de que alguns amantes de Porto possam provar ao menos um cálice dessas iguarias.
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(*) Carlos Cabral estuda vinhos há 38 anos. É consultor e um apaixonado pelo tema
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