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POR JOSIMAR MELO (*)
Uma paisagem empoeirada, a quase ausência de umidade no ar, temperaturas que pulam de 20 oC durante o dia para 10 graus negativos à noite – não parece o melhor cenário desenhado para a fruição de um gourmet. Mas foi onde, no mês de agosto, estive vivendo uma interessante experiência gastronômica, no Deserto do Atacama, no altiplano do norte do Chile.
A base de operações foi o Tierra Atacama (www.tierraatacama.com) – um hotel-butique inaugurado há cerca de um ano (dos mesmos proprietários daquele da estação de esqui de Portillo). Como os melhores hotéis da região, esse também inclui, em sua diária, os passeios que revelam a exuberante e árida beleza da natureza local. As excursões levam os hóspedes a visitar salares, vulcões em atividade, dunas lunares, gêiseres, cânions e montanhas feitas de terra e sal que mudam de cor a cada minuto, lagos que refletem esse colorido, além de pássaros (como os flamingos) e outros animais que por ali vivem.
Mas à parte esse cardápio que por si só preenche pelo menos uma semana de passeios, fora os momentos de relaxamento na piscina e no spa do hotel ou as visitas à minúscula e pitoresca Vila de San Pedro de Atacama (que fica num oásis a 2.400 metros de altitude), o hotel resolveu acrescentar, neste ano, um programa de atividades gastronômicas. A primeira delas – batizada Aventura Gastronomic – consistiu de aulas de culinária mescladas a algumas degustações de vinho e visita a produtores de ingredientes típicos da região.
As aulas foram ministradas pela chef belga Ruth Van Waerebeek, que viveu nos Estados Unidos e está no Chile desde 2000, onde é proprietária de um hotel no Vale do Curicó, 200 quilômetros ao sul de Santiago (o Hostal Gastronómico Mapuyampay), e consultora de culinária da vinícola Concha y Toro. Suas aulas, abordando a cozinha de todo o país e ensinando técnicas clássicas, são didáticas e informativas, e redundam nas refeições.
Mais especiais ainda são os contatos com produtos da região, feitos com visitas a famílias que usam técnicas ancestrais para produzir seus ingredientes. Durante esses passeios aprendemos que, na localidade de Ayllu de Coyo, uma amêndoa chamada chañar é usada há séculos pelas comunidades vizinhas para preparar um xarope que lembra o maple syrup, utilizado especialmente em sobremesas. E que outras famílias usam a fava de uma outra árvore, o algarrobo, para produzir artesanalmente uma farinha que é naturalmente doce (aliás, a fava, catada no chão, pode ser roída pelos mais apressados em sentir sua agradável doçura).
Da programação faz parte também a visita à localidade de Machuga (onde pratos locais como o espetinho de lhama e empanadas de queijo nos esperam); a visita à fazenda orgânica de Tahó (de onde saem desde queijos das cabras da propriedade até legumes, como rúcula e tomates protegidos das noites frias de inverno por estufas); e um almoço no restaurante da família Vega, onde o cardápio inclui empanada de carne e um chupe (algo entre um cozido e uma sopa) de galinha caipira.
Esse contato com sabores e ingredientes ancestrais dá um colorido emocionante e especial às atrações – aulas de culinária, degustações de vinhos e os almoços e jantares – que, junto às belezas naturais da região, justificariam a viagem.
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(*) Josimar Melo é crítico de gastronomia do jornal Folha de S. Paulo e autor do guia de restaurantes que leva seu nome
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