A Bíblia da Gastronomia
 
 
 

Yes, nós temos mocotó!

A aula de um chef brazuca no Culinary Institute of America e suas incursões gourmets na terra do Tio Sam. Leia aqui e veja agora quem é ele.

 

PONTO DE BALA
Por Alexandra Forbes (*)

Quem acompanha esta coluna já sabe: o assunto aqui é o mundo gastronômico lá fora, e não o Brasil. Temos em pauta notícias de chefs famosos da Europa e dos Estados Unidos, seus lançamentos de livros, inaugurações de restaurantes, e ainda pequenas entrevistas. E por falar em Europa, vocês viram que o brasileiro que concorreu no mais prestigioso concurso de pâtisserie da Espanha, de quem escrevi na última coluna, levou o ouro? (Para ver a nota "Brasil na alta pâtisserie", sobre Vicente Saint-Yves Carvalho, chef-pâtissier do restaurante Blau BCN, em Barcelona, clique aqui).

Desta vez, excepcionalmente, peço licença para abrir este espaço para um chef brasileiro até o último fio de cabelo: Rodrigo Oliveira, do Mocotó. O motivo é bom, vocês verão. A seguir, ele divide conosco, e com exclusividade, um relato – delicioso! – de sua viagem recente aos Estados Unidos para falar de Brasil e comer bem. O resto, vou deixar que ele mesmo conte...

IT’S US ON THE TAPE!
Por Rodrigo Oliveira

foto:
O top chef Thomas Keller e Rodrigo Oliveira na cozinha do French Laundry: jantar no 3 estrelas mais badalado do país
Tão divertida quanto improvável, a visita recente de um grupo de chefs americanos da super renomada C.I.A. (calma, estou falando do Culinary Institute of America), causou certo alvoroço no Mocotó. Chefs, fotógrafo e cinegrafista chegaram numa tarde de semana, calma e ensolarada, para uma iniciar uma jornada gastronômica em busca da verdadeira cozinha brasileira. Bem, na verdade, uma tarde assim não seria exatamente calma.

Desde meus primeiros passos no mundo da gastronomia tenho essa escola como grande referência de técnica e profissionalismo. A sua obra mais famosa, The Pro Chef, é um de meus livros de cabeceira desde que o encontrei. Tenho que admitir que estava agitado com a possibilidade de recebê-los no Mocotó.

Já havia sido alertado de que sua agenda era apertada. Assim, preparei tudo o que pude para apresentar o máximo possível da nossa cozinha no pouco tempo de que dispunham. Mas quando chegaram, aparentemente esqueceram-se dos demais compromissos e do cansaço da viagem. Foram quase quatro horas de comida, cachaça e conversa, bem ao estilo da nossa casa.

Descontando toda ansiedade, me diverti bastante também. Falando uma língua particular, uma mistura de português, inglês e “pernambucanês”, me fiz entender e mostrei um pouco da essência da cozinha sertaneja do Mocotó. Percebi que saíram felizes daqui. Mas a grande surpresa, maior do que a de recebê-los na Vila Medeiros, foi receber um convite para apresentar um seminário de cozinha brasileira no próprio CIA! Can you believe that? Entrar nos Estados Unidos como convidado especial? Definitivamente esse é um bom começo! Yes, nós temos mocotó!

Depois do visto e dos preparativos finais, embarcamos para a América com as nossas bugigangas. Disse embarcamos por que a delegação brasileira era estrelada também pelas mestras Mara Salles e Tereza Corção. Desembarcamos em San Antonio, Texas, com um monte de produtos ilegais escondidos entre roupas e calçados. Carnes, farinhas e vegetais frescos, além de um pilão e panelas de barro, passaram despercebidos pela alfândega. Bem, se você for um agente americano desconsidere este ultimo parágrafo.

Hora de conhecer a escola. Essa é a menor e mais nova das três unidades do CIA, mas nem por isso a menos importante. Prova disso, a sua escolha como sede do 2nd Annual Symposium on Latin Cuisines, motivo pelo qual estávamos lá com chefes do México, Porto Rico, Chile, Peru e dos próprios Estados Unidos. Tudo que havia imaginado a respeito da escola estava materializado ali. A estrutura impecável, a organização perfeita, a atenção a todos os detalhes. Uma bela aula para nós brasileiros com o nosso costumeiro e simpático “jeitinho”.

Mise en place pronto e finalmente hora do show. Cada um de nós apresentou quatro aulas, em tópicos como ingredientes ícones e comida de rua, por exemplo. Vencido o desafio do idioma, afinal tínhamos pouca ou nenhuma experiência em apresentar em inglês, o inevitável aconteceu... Chefs e business men de todo o país se encantaram com a cozinha brasileira! Tiramos onda no palco com as nossas limitações lingüísticas e fomos sem dúvida a grande sensação do evento, sendo rodeados após cada apresentação por gente que vinha nos parabenizar pela alegria e pela paixão que nos tomava quando íamos para o palco. Não posso esquecer de dar créditos ao super chef Almir da Fonseca. Conterrâneo, chef titular da escola, com passagem pelo Le Cordon Bleu e grandes restaurantes na América, foi nosso braço direito durante todo o evento. Além, é claro de nos divertir bastante com seu português já corrompido pelos mais de 30 anos de trabalho na terra Tio Sam! Thank you, meu irmão!

Eu e Mara passamos o final de semana entre Austin e San Antonio como hóspedes de Elizabeth. Ajudamos a preparar um jantar para novos amigos americanos, comemos deliciosa casual food no descolado Huisache, fomos ao mais transado mercado do país, o Whole Foods e ainda provamos autêntico barbecue americano no Salt Lick, o restaurante preferido dos locais.

Como uma boa viagem precisa de alguma dose de aventura e indulgência, quando Mara voltou para casa e para lida, embarquei sozinho rumo a San Francisco, Califórnia. Depois de quatro horas de chacoalhões no ar, cheguei embaixo de chuva à cidade das belas pontes. Aluguei um carro no aeroporto (não posso deixar de dizer que estava num novíssimo e prateado Chevy Camaro) e fui direto ao Napa Valley, terra dos melhores vinhos e restaurantes dos Estados Unidos. Meu objetivo principal era bastante audacioso, conhecer o French Laundry e se possível seu criador, o top chef Thomas Keller.

Descontando o fato de que só havia decidido ir para lá no dia anterior, de que não tinha lugar para ficar, nenhuma reserva em hotel ou restaurante e de que não conseguia falar com a única pessoa que conhecia na cidade, estava tudo bem. Quer saber? Estava na Califórnia, cara! No final tudo daria certo! Como estranhamente acontece comigo, tudo começou a dar certo logo na chegada. Primeira parada, o CIA de Greystone, em Saint Helena, certamente uma das escolas de culinária mais bonitas do mundo, bem no coração do Napa Valley. Instalada num antigo castelo onde funcionava uma vinícola, essa unidade é tida como uma das principais atrações turísticas da região. E entenda que estou falando de uma região onde tudo é turisticamente atrativo.

Enquanto me deslumbrava com as suas instalações suntuosas, esbarrei com Sonia Serrano, responsável pelos arranjos para as visitas de todos os chefs estrangeiros e que havia conhecido em San Antonio. Ótima hora para lembrá-la de que havia me convidado para conhecer o vale. O que certamente ela não imaginava é que isso aconteceria tão rápido! Depois de conversar com seus pais americanos, fui oficialmente convidado para ficar. Não poderia estar mais bem instalado!

Imagine uma casa extraordinária, circundada por vinícolas e montanhas, com uma jacuzzi e de quebra ainda desfrutando da hospitalidade de Sam e Dianne, um casal gourmet e gente boa. É isso aí, mais uma vez sinto que a sorte está ao meu lado!

Que tal então dar um pulo a Yountville e ver se consigo almoçar no Bouchon, o outro restaurante do meu ídolo? No problem! É só parar o carro para pedir uma informação, ver o Thomas Keller atravessando a rua, puxar uma conversa e ser convidado para almoçar pelo próprio cara! Sei que parece improvável, mas mais improvável é pedir a conta e receber um bilhetinho: “The lunch is on us! Thank you!”

foto:
Detalhe dos vinhedos do lendário Chateau Montelena Winery: visita inesquecível - e, melhor, na faixa
Também difícil de acontecer, mas acontece, é ficar hospedado na casa do cara que cuida dos vinhedos mais importantes da região e ter seu nome na lista de convidados para visitar o lendário Chateau Montelena Winery e o opulente Sterling Vineyards. For free.

Outra coisa incomum é conseguir uma reserva para o mesmo dia no French Laundry, o três estrelas Michelin mais badalado do país. Sei que você está a ponto de passar no Mocotó e tirar essa história a limpo. Mas caso tenha acreditado em tudo e tenha controlado essa “pontinha” de inveja que tenta se apoderar de você, vai ficar ainda mais surpreso em saber que só precisei ligar para o restaurante de manhã e perguntar se haveria alguma possibilidade de jantar, caso houvesse alguma desistência. E algumas horas depois retornaram dizendo que tinham dois lugares disponíveis. Fácil assim.

Não me entenda mal, é claro que é melhor reservar com 60 dias de antecedência, como é exigido pelo restaurante. Mas se você é um viajante imprudente e otimista como eu, por que não tentar?

O serviço era atencioso e na medida certa caloroso. A comida era... Certo, se for falar de forma sucinta da comida basta dizer que era perfeita. Mas não custa mencionar as Ostras com Zabaione de Tapioca e Caviar de Esturjão ou a Polenta Branca com Mascarpone, Jus de Vitela e Trufas Brancas, dois pratos de uma seqüência extraordinária de dez. Mas se você for com um bom amigo pode provar o dobro. Foi exatamente o que fizemos. Garanto que os muitos dólares que cada pessoa deixa por lá são usufruídos em cada centavo.

Quando crescer quero cozinhar como Thomas Keller. Tudo impressiona lá dentro e nada, nem o ambiente, nem a louça, nem a carta de vinhos, nos deixa desconfortáveis. E olha que estávamos vestidos mais para uma pizza que para um restaurante fino. No final ainda demos um pulo na cozinha e batemos um papo com o chef, que nos acompanhou até a porta. Tá bom ou quer mais?

Já que pediu por mais vou encerrar essa história com os bônus do Napa Valley: café da manhã tipicamente americano no Gillwoods Café, tido como o melhor da região. Quer começar o dia num clima mais francês? The Model Bakery, pães, croissants, queijos, vinho... Para um almoço rápido ou para um grab and go, agarre um hambúrguer de verdade no The Taylor’s Refrersher. Quer um café no meio da tarde? Pare no Napa Valley Coffee, boa bebida, gente descolada e internet livre. Almoço com estilo? Redd, de Richard Reddington, cozinha americana contemporânea e a ótimos preços. E encerrando a lista, não deixe de ir ao Cook, lugar descolado, boa comida e gente do local. Animado a qualquer hora do dia.

Essa é a história pouco detalhada de uma aventura gastronômica na terra do capitalismo, da fast food e da liberdade. Impossível registrar aqui todo o aprendizado e crescimento que essa experiência me proporcionou. Nunca se volta o mesmo de uma viagem. A quem pensa em fazer algo do gênero e tem algum receio, deixo uma sugestão: Just do it!

foto:

(*) Além de titular da coluna Ponto de Bala, a jornalista e crítica gastronômica Alexandra Forbes escreve para várias publicações, dentro e fora do Brasil. Seu blog brazilforinsiders dá dicas de viagem para estrangeiros interessados pelo Brasil. Siga Alexandra no Twitter no @aleforbes.

 
 
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