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POR ALEXANDRE STAUT
FOTOS DIVULGAÇÃO
Mal começa a peça Memória da Cana, encenada num casarão do Bixiga, bairro da região central de São Paulo, o lugar é tomado por um cheiro de canela. Depois vem o odor de naftalina, o cheiro da colônia de barbear, de talco e de pó de arroz antigo. Até que o aroma de um ensopado de carne toma conta do espaço. São apenas os primeiros estímulos sensoriais, que, nessa peça, vão além do olfativo. No fim, as atrizes Cris Rocha e Carol Badra servem um jantar ao público: o tal cozido que cheirava, preparado ao modo pernambucano e servido com farinha. Todos o saboreiam ao lado dos atores, num bistrô aconchegante instalado nos fundos do casarão.
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| A casa (peça inspirada em Guimarães Rosa): aromas do cafezinho e do bolo de fubá saboreados na infância |
Projetos como esse são a nova onda nos teatros da cidade de São Paulo. A ideia é fazer com que o espectador seja estimulado não só pela imagem e pela fala, mas também por seus outros sentidos, como o olfato e o paladar. Para o cozidão que serve na peça, Cris Rocha, atriz e cozinheira, usa músculo bovino, paio, calabresa, batata, quiabo, maxixe, abóbora, couve, cenoura, entre outros legumes. O sucesso foi tanto que muita gente liga na sede da companhia dizendo que quer reservar lugar no bistrô. “São todos muito bem-vindos, mas deixamos claro que, em nosso grupo, a gastronomia está a serviço do teatro”, diz Cris.
O grupo Redimunho de Investigação Teatral também costuma servir jantar em seus espetáculos. Neste momento está em cartaz com duas criações: A Casa e Vesperais na Janela. Em ambas, a gastronomia tem papel de destaque. As montagens são inspiradas na obra e no universo de Guimarães Rosa. Em A Casa, um homem reencontra seu passado numa velha casa repleta de sensações. “Guiado por esse homem, o espectador interage com suas lembranças, inclusive a do aroma do café e do bolo de fubá que ele comia na infância”, diz a atriz Giovanna Galdi, cozinheira responsável pelos quitutes servidos durante a peça.
Chama atenção um cheiro de bolinhos de chuva na gordura, que Giovanna frita durante todo o espetáculo. Num certo momento, os espectadores são convidados a prová-los numa mesa caprichada e generosa – um verdadeiro banquete de quitutes mineiros. Ali estão docinhos variados, queijo com goiabada, pequenos sanduíches, cachaça artesanal, vinho doce de garrafão, entre outras delícias.
Em Vesperais na Janela – peça que acompanha a trajetória de uma trupe mambembe que sai pelo país na sina de trocar sua arte por pouso e comida –, há um entreato em que os personagens fazem um grande baile. Nesse momento, os atores dançam, cantam e oferecem aos “convidados” diversos pratos feitos ali mesmo, enquanto a peça acontece. Bolos, pães, frutas, docinhos e vinho estão no cardápio. Um deleite para quem assiste.
Há ainda outras peças em São Paulo que exploram o tema da gastronomia de forma lúdica. Perto do Fogo, em cartaz no teatro Juca Chaves, que marca a volta aos palcos da atriz Geórgia Gomide, é uma delas. Impossível não se dar conta, logo de cara, do fogão a lenha aceso em cena, além do cheiro de café passado na hora. O texto de Nicolau Ayer trata do drama de um pai e uma filha que tentam retomar valores e estreitar os laços de carinho.
Todas essas criações foram inspiradas, de forma direta ou não, no cultuado grupo francês Théâtre du Soleil, criado por Ariane Mnouchkine, em 1964. Em viagem pelo Brasil, em 2007, Ariane disse que, em cada uma de suas apresentações, faz questão de alimentar o espírito e o estômago de seu público. Seus banquetes nada deixam a desejar ao joie de vivre dos encontros gastronômicos das casas francesas, com cozidos, assados, seleção de queijos diversos, sobremesa. Tudo regado a bom vinho.
No Brasil, um dos primeiros atores a explorar a gastronomia no teatro foi o carioca Rodolfo Bottino. Sua peça Risotto com o Rodo!, montada há seis anos, já foi vista em 35 cidades por mais de 60.000 pessoas. Durante pouco mais de uma hora, Bottino conta histórias ligadas à culinária, canta e prepara um risoto delicioso, que serve depois aos espectadores. Se é tradição na cidade sair para o teatro e depois esticar até o restaurante, por que não fazer as duas coisas num mesmo endereço?
SERVIÇO
A Casa
Escola Paulista de Restauro (R. Major Diogo, 91, tel. (11) 3101-9645); R$ 30
Memória da Cana
Espaço dos Fofos Encenam (R. Adoniran Barbosa, 151, tel. (11) 3101-6640); R$ 16
Perto do Fogo
Espaço Cultural Juca Chaves (R. João Cachoeira, 899, tel. (11) 3073-0044); R$ 50
Vesperais na Janela
Escola Paulista de Restauro (R. Major Diogo, 91, tel. (11) 3101-9645); R$ 30
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