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  Patrimônio cultural
   

 

No Domaine de La Romanée-Conti, a experiência de degustar toda a gama de rótulos pensados por Aubert de Villaine


Existe um ponto no mapa que tem uma geografia única. O tempo nem sempre é bom e aberto. O frio é intenso. Os verões podem ser quentes. Os vilarejos lhe dão o ritmo nostálgico da poesia e da canção francesas. Mágico? Harmônico? Pequeno? É a Borgonha dos vinhos, a Borgonha da Romanée-Conti, a Borgonha do gentleman Aubert de Villaine.
É uma faixa de terra no centro norte da França, que vai de Dijon para o sul, a Côte d’Or (costa dourada para uns, costa do Oriente para outros). O lugar está na lista da Unesco para ser declarado Patrimônio Cultural da Humanidade. Assim como a Piazza della Signoria, em Florença; como San Marco, em Veneza; as pirâmides; os palácios de Paris, enfim, tudo que a civilização consagrou como obra da mão do homem ou da natureza. Que não se pode mexer nem aperfeiçoar.
O que quer isso dizer? Que a Borgonha dos vinhos, o estreito pedaço de terra de menos de 50 quilômetros que dá brancos e tintos imitados no mundo todo, é uma conquista humana e uma riqueza natural intocada. É importante que esse conceito seja acentuado. Em regiões do planeta onde a natureza se exprime com sua elegante busca da perfeição – a Amazônia, as ilhas gregas, a costa neozelandesa, as falésias dálmatas –, a missão do homem é preservá-la, torná-la inexaurível e ainda mais generosa.
Está na Côte d’Or o grande vinho da Borgonha. O que Aubert de Villaine, sócio-gerente do Domaine de La Romanée-Conti, defende é o reconhecimento da noção de climat – de terreno vinícola único, diverso do vizinho. Os habitantes dali, desde os monges, se acostumaram a delimitar e nomear esses climats para que o terroir, sempre ele, passe de geração a geração como característico, matéria integrante e essencial do vinho que brota todos os anos naquelas parcelas.
Elas se exprimem por meio de intérpretes refinados: Musigny, La Romanée-Conti, La Tâche, Échézeaux, Bonnes Mares, Chambertin-Clos-de-Bèze, Nuits-Saint Georges Clos de la Maréchale, Meursault-Charmes, Montrachet, Bâtard-Montrachet, Chambolle-Musigny Les Amoureuses, Beaune Grèves, Beaune Clos de Mouches, Pommard les Rugiens, Volnays les Pézérolles.
Todos os produtores são devotos da terra. Um dos perfeccionistas é Aubert de Villaine, com seus crus no Domaine de La Romanée--Conti. Para ele, o que define o vinho é o núcleo da célula. Todos os anos ele o revolve e o cultiva. É patrimônio cultural indiscutível. Mesmo em safras que ameaçam ser difíceis, sob condições que às vezes desanimam, a encosta mágica experimenta o que ele chama de “miracle bourguignon”. Uma parada na chuva e o potente vento norte dissipa as nuvens, refresca a vinha, tira-lhe a umidade e permite a colheita, como aconteceu em 2008.
Os crus da Romanée-Conti são talvez os mais caros do planeta, tirando três ou quatro Bordeaux que lhes fazem concorrência nos leilões. Mas são terrenos muito pequenos. La Romanée-Conti tem pouco mais de 100 metros de frente por 180 metros de fundo. Os demais são um pouco maiores. Uma safra média da Romanée-Conti não chega a 6.000 garrafas por ano. Os demais ultrapassam essa marca, mas não muito.
Os crus são La Romanée-Conti, La Tâche (esses dois em monopólio, ou seja, são do Domaine, sem divisões), Romanée St.-Vivant, Richebourg, Échézeaux, Grands Échézeaux e uma pequena, mas pequena mesmo, parcela do branco Montrachet – o mais glorioso deles, como uma lágrima de sol.
Aubert de Villaine tem uma equipe esmerada. Em 2008, achou que tudo estava perdido com as chuvas de agosto. Veio o 13 de setembro, a chuva parou e ele realizou uma esplêndida colheita. Cada cru a seu tempo. Provei toda a gama. Achei o La Tâche musculoso e aveludado, ainda com gosto da terra; o Échézeaux, delicado; o Richebourg, ágil e poderoso como o agente 007 em seus grandes filmes. A Romanée-Conti, esta estava sibilina, sedosa, com rendas escorregando pela pele, como uma deusa do cinema.
Enfim, foi uma degustação na adega, direto das barricas, de uma safra que estará viva e perfumada daqui a dez, 15 anos.
Em tempo: no capítulo elegância, sempre achei Rex Harrison, Yves Montand e Sean Connery modelos a ser seguidos. Aubert de Villaine é desse time. E está entre os três primeiros.
 
 
 
 
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