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  A multiplicação do pirarucu

A criação desse peixe em São Paulo pode, sim, ajudar na conservação da espécie nos rios de origem


Foto Ricardo D’Angelo

Todo mundo sabe do meu fascínio pela Amazônia. Entre as pessoas que conheci nos últimos anos e que realmente podem dizer que conhecem e viveram a Amazônia está meu grande amigo, grande mestre e grande fotógrafo Pedro Martinelli. Outro dia, em conversas e trocas de e-mails, o Pedrão me fez refletir dizendo o seguinte: “O pirarucu está sendo criado em São Paulo. Qual é o retorno que damos à floresta?”. Eu nunca iria contrariar meu mestre, e acabei pensando muito a respeito disso. Tenho minha versão para a história, embora não saiba ainda se ela é certa ou errada.

A criação do pirarucu pode ser, sim, uma forma de conservação dessa espécie e, principalmente, uma forma de diminuir a pesca ilegal e o comércio da carne desse gigante amazônico sensacional. O pirarucu é excepcional não só por ter uma carne branca e saborosa que, no momento certo e com delicadeza na preparação, não se diz ser um peixe de água doce. Ele também tem uma impressionante taxa de conversão, que é a relação entre quanto ele come e quanto pode crescer. Um alevino de pirarucu treinado a comer ração pode terminar o ciclo de um ano de vida com 12 quilos, o que parece um milagre.

Estou cem por cento de acordo com Pedro quando ele se questiona qual é o retorno disso para os rios da floresta. Agora, contraponho com o seguinte argumento: essa taxa de conversão do pirarucu pode, sim, ajudar a manutenção da espécie e, principalmente, das populações ribeirinhas. Essa criação em cativeiro é uma alternativa da pesca e manejo da fauna natural.

Vale a pena lembrar que entre a época de cheia e a extrema seca, várias áreas alagadiças da Amazônia perdem milhões de alevinos de pirarucu mortos em lagoas temporárias. Assim, o manejo dessa biomassa perdida seria um sonho possível e traria uma viabilidade econômica para as populações indígenas e ribeirinhas da Amazônia. Afinal, vale cada vez mais lembrar que o principal elo entre a natureza e a criação passa por dentro da cozinha, e que o chef é o principal elo dessa corrente, que está em construção na alimentação como ferramenta da conservação.

foto:
Pirarucu com Tucupi
4 porções

Farinha de bacon
500 g de bacon
30 ml de óleo de canola

Fumet de peixe
2 kg de carcaça de peixe
2 g de pimenta-do-reino em grãos
250 ml de vinho branco
3 dentes de alho
1 talo de alho-poró
1 cravo-da-índia
1 talo de salsão
1 folha de louro
1 cebola média
Água a gosto

Sagu
1 litro de vinho tinto
200 g de sagu
200 g de açaí
100 g de bacon em brunoise
100 g de cebola picada

Molho
400 ml de tucupi
50 ml de fumet de peixe
50 g de cebola picada
10 folhas de coentro
5 pimentas-de-cheiro

Camarão seco
100 g de camarão seco dessalgado e sem casca
5 g de alho picado finamente
Azeite a gosto

Pirarucu
440 g de pirarucu; 40 g de farinha de mandioca; 10 g de farinha de bacon

Montagem
20 g de castanha-do-pará ralada
Broto de jambu, broto de coentro, ciboulette, cerefólio e alecrim a gosto

Farinha de bacon
1 Escolha um pedaço de bacon com bastante carne e menos gordura. 2 Corte-o em cubos pequenos e leve ao fogo baixo em uma frigideira com um fio de óleo. 3 Derreta e frite até os cubos de bacon ficarem bem crocantes e dourados, sem queimar. 4 Envolva os pedacinhos em muitas camadas de papel absorvente e prense para tirar o máximo de gordura. 5 Envolva-os novamente em papel e deixe desengordurar durante 12 horas. 6 Bata no liquidificador até obter uma farinha e volte a prensar no papel, para que fique sequinha, com a menor quantidade possível de gordura. 7 Passe por uma peneira fina e reserve.

Fumet de peixe
1 Lave em água corrente a carcaça de peixe para eliminar todo o sangue contido nela. 2 Corte todos os ingredientes e cozinhe em uma panela com o vinho e água suficiente para cobrir toda a carcaça; cozinhe por aproximadamente 3 horas em fogo baixo. 3 Coe e reserve.

Sagu
1 Em uma panela, doure o bacon e acrescente a cebola, o vinho tinto, o açaí e o sagu. 2 Cozinhe mexendo sempre por cerca de 1 hora ou até que esteja totalmente cozido.

Molho
1 Em um bowl, misture o tucupi, o fumet de peixe, a pimenta-de-cheiro, a cebola e o coentro. 2 Bata no liquidificador até que esteja homogêneo e passe pelo chinoix. 3 Aqueça o molho a 80 °C antes de servir.

Camarão seco
Em uma frigideira doure o alho e salteie rapidamente os camarões secos.

Pirarucu
1 Corte o pirarucu em pedaços de 110 gramas cada um. 2 Tempere o peixe com sal e pimenta. 3 Misture a farinha de bacon com a farinha de mandioca e faça uma crosta em um lado do peixe. 4 Em uma frigideira antiaderente, cubra o fundo da panela com o óleo de canola e grelhe primeiro do lado da crosta até que fique bem dourado e crocante. 5 Vire o peixe rapidamente e finalize no forno por 2 minutos antes de servir.

Montagem
1 Disponha o sagu no fundo do prato. 2 Acrescente o peixe ao lado do sagu. 3 Disponha as ervas, o camarão seco e a castanha-do-pará ralada. 4 Finalize com o molho.
 
 
 
 
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