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Entre amigos e com alguns dos rótulos mais célebres da história, um almoço para ficar na memória |
Éramos sete à mesa do simpático restaurante Aguzzo, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, em um domingo de virada do tempo, com um pouco de frio e muita chuva. Mal podia eu imaginar que um “Grand Tour de Force” me aguardava. O anfitrião, um jovem amigo a quem tive o privilégio de mostrar os caminhos de Baco pelos idos de 1989, trouxe consigo um simpático sul-africano com ascendência escocesa e russa, expert no ramo de compra e venda de raridades destiladas e fermentadas. A pessoa em questão é David Natham-Maister, hoje trabalhando na Inglaterra. David é a maior autoridade em absinto que existe no mundo, autor do The Absinthe Encyclopedia, um rico livro ilustrado que conta as histórias de glórias e desgraças dessa misteriosa bebida.
Antes de iniciarmos, foi servido o almoço, com todo o requinte que merece e com preparação sui generis (com gotas de água bem gelada caindo lentamente sobre a bebida), um Absinto Pernod de 1910. Originalmente com 68% de álcool, com o passar desses 100 anos havia perdido 4%, portanto, estava com 64% de álcool. Um intenso aroma de anis tomou conta da sala e uma onda de sabores exóticos foi envolvendo o paladar. Depois dessa prova, pude compreender melhor por que a tão negra fama dessa maravilhosa bebida.
Para abrir o almoço, uma Magnum de Champagne Dom Perignon 1988 foi servida para acompanhar dois pratos de entrada: carpaccio de polvo e ravióli de polenta com espinafre e gorgonzola. Esse champanhe estava soberbo, correto na cor não muito amarelada e aromas de brioches e pão tostado, todos na medida. O polvo acompanhou-o melhor.
Em seguida, foram servidos dois pratos principais: um risoto de codorna com radicchio ao vinho tinto e um gigot agneau, com favas, temperado com molho de Pastis, alho, cebola roxa, manteiga e salsinha. Para acompanhar, nada menos que uma Magnum de Château Petrus 1961 – na opinião de especialistas, um vinho perfeito! De fato estava fantástico. Os aromas iniciais de café torrado, seguidos pelos de framboesas maduras, tomaram conta da sala privé do Aguzzo.
Quando julgava estar ao portal do céu, chega a primeira sobremesa: uma panna cotta de favas de baunilha fresca com creme de manga e calda de framboesa, que foi solenemente acompanhada de um Schloss Schönborn 1976 Riesling – Trockenbeerenauslese. Potente vinho do Reno, com graça e elegância deu sequência aos gostos tão distintos de manga e framboesa, transformando tudo em um sabor majestoso, como se tivesse saído de uma ópera de Wagner.
Para fechar, um merengue coroando o sorvete de creme, tudo regado com calda de figos e morangos. Para ele, um Porto Vintage Taylor’s 1994, de cor púrpura, parecendo ter sido engarrafado um dia antes, mas com os complexos aromas de frutas frescas bem vivas.
Brindamos a cada taça e a cada prato, brindamos à vida que nos deixou chegar àquele domingo e brindamos ao melhor de tudo, que estava acima da qualidade dos pratos e dos vinhos: à nossa amizade, que nos levou àquele altar para a celebração da vida. Um domingo inesquecível!
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