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Quando a memória afetiva fala mais alto e a gente não consegue abandonar uma comida, mesmo ruim, por puro apego emocional |
Navegando no Facebook – aquela comunidade virtual em que a galera finge ter 1 milhão de amigos –, deparei com a engraçada mensagem da colunista do jornal Folha de S.Paulo, Barbara Gancia: “Acabo de vir do Mercadão, onde comi um pastel de bacalhau do tamanho de uma colcha queen size. Alguém tem um Zylium para me emprestar? Barf!”
A mensagem é ambígua: ela comeu tudo isso porque adora o famoso pastel do Mercado Central de São Paulo? Mas, se é tão bom, por que a urgência no remédio? Se é tão ruim, por que comeu todo?
Os comentários das pessoas que por ali palpitaram foram, no geral, vibrantes. “Que saudade desse pastel...”. “Próxima vez me avisa que vou com você.” “Delíííícia!!!”. Estraga-prazeres, mesmo, só eu, que tasquei: “Horror. Seco, salgado, recheio demais para massa de menos... Um embuste. Você precisa se cuidar melhor!”.
Cito esse episódio porque recentemente defrontei com coisa semelhante: apego por uma comida ruim, mas que fala às tradições, à memória. Foi quando escrevi, para a Folha, sobre um restaurante paulistano, o Caverna Bugre. É uma casa digna de nota, no mínimo, porque completa 60 anos, uma proeza. E acaba de passar por reforma, então está tinindo. E esse restaurante faz parte de minha memória afetiva. Ele fica na Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, local onde morei na minha juventude estudantil. Normalmente, nossas refeições aconteciam no restaurante universitário mesmo. Mas, quando sobrava um dinheirinho, íamos aos bandos a restaurantes em que podíamos ter o luxo de ser servidos à la carte. O Caverna Bugre era um deles.
Agora, ao visitá-lo após a reforma, além de atacar os pratos alemães que são sua especialidade, provei o orgulho da casa: algo chamado filé alpino. Era a glória dos estudantes da minha época, e continua popular. É pedido por mais da metade dos clientes, e ganhou o Prêmio Paladar (do jornal O Estado de S. Paulo), dois anos atrás.
No entanto, eu já sabia o que me esperava. O filé continua igual; mas, da minha adolescência para cá, meu paladar mudou, creio que para melhor. E assim o descrevi na Folha: “Um sincretismo gastronômico composto de filé-mignon e uma cobertura de copa, catupiry e provolone, gratinado e servido com arroz e um liquefeito molho inglês. Uma mistura pesada (talvez não para o adolescente faminto...) em que nada funciona (a não ser a bela crosta dourada do gratinado)”.
Mas o fato é que a memória das pessoas talvez continue falando mais alto. Mal o jornal chegou às bancas, surgiu uma mensagem de alguém no Twitter: “Ridículo o que o Josimar Melo falou do Caverna Bugre; hoje em dia, qualquer um se mete a crítico gastronômico!”.
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