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  Italianos crescem com a comida

Os vinhos italianos ficam ainda melhores quando acompanham uma boa refeição


Se no último artigo tratamos do vinho no universo do bistrô, nada mais justo que fazer uma análise de como tintos e brancos se comportam nas osterie, trattorie e ristoranti, até porque a cozinha italiana se mostra muito mais enraizada em nossa cultura que a francesa. Ainda que não fosse argumento suficiente, têm surgido, sobretudo em São Paulo, notáveis exemplos de restaurantes italianos, seguindo o formato bistrô, com carta e serviço de vinhos muito bem-cuidados.

Antes de entrar efetivamente no assunto, cabe identificar a proposta dos diversos modelos de restaurante italiano. Osteria – originalmente corresponde a uma hospedaria, em que pratos regionais, rápidos e simples são servidos da mesma forma que o vinho e outras bebidas. Normalmente a administração e o serviço estão a cargo da família dona do negócio. Trattoria – é um restaurante casual, igualmente com pratos e vinhos regionais, de baixo custo e com administração e serviço de familiares. A osteria e o ristorante equivalem à fórmula que conhecemos de restaurante. Com requinte e preço superiores, brigada completa, cardápio e carta de vinhos abrangentes.

A distinção vale pelo aspecto histórico e cultural. Na prática, as características dessas tipologias se misturam e fica a cargo do proprietário a nomenclatura que esteja mais próxima da essência de seu estabelecimento. É interessante constatar que ultimamente muitos restaurantes italianos estão seguindo uma proposta de bistrô, isto é, com poucas mesas, pratos mais elaborados e refinados do que numa cantina, preços mais baixos do que num ristorante e equipe enxuta.

Alguns ainda conseguem se destacar pela oferta adequada de vinhos com serviço correto, sem a obrigatoriedade de contar especificamente com um sommelier, no sentido mais rígido. Restaurantes como Tappo, Vito, Pasquale, Così, Friccò, Vino! e BottaGallo são alguns dos que se destacam pelo bom nível de cozinha, carta de vinho e serviço.

Um pouco mais elaborados, mas sem entrar num grau de sofisticação que os enquadraria numa (indesejável) categoria acima, vale colocar o festejado Due Cuocchi e o recém-aberto Tre Bicchieri – o nome (literalmente, três copos) vem ao mesmo tempo do sistema de pontuação utilizado pelo mais famoso guia de vinhos da Itália, o Gambero Rosso, e do fato de ser comandado por três (ótimos) profissionais advindos do grupo Fasano. No cardápio dessas casas brilham pastas e carnes tradicionais, alguns molhos autorais, além dos clássicos embutidos e queijos italianos.

Até então, o sortimento do cardápio parece não contar com grandes inovações. O grande diferencial dos restaurantes citados está no apuro na execução das receitas, nas matérias-primas de qualidade superior, em muitos casos na própria confecção da massa, e num serviço simples e eficiente. Para comprovar que tais valores são reconhecidos pelo consumidor, basta ver como podem ser longas as filas para conseguir mesa ou a grande dificuldade em fazer uma reserva com pouca antecedência.

Quanto aos vinhos, é natural – e recomendável – que se tenha a predominância dos rótulos italianos, às vezes exclusivamente, como no BottaGallo. Em especial pela grande virtude dos vinhos do País da Bota: são vinhos gastronômicos, que “crescem” com a comida.

É um atributo que tem lá seus motivos. Vinhos italianos costumam privilegiar a acidez, fator que torna a harmonização mais leve e versátil. Em casos clássicos e emblemáticos de tintos como Chiantis e Nebbiolos (os bons), a extração dos compostos das cascas (os taninos) é feita hoje com menor vigor e em mais tempo, produzindo vinhos mais elegantes.

Outra característica que colabora para a vocação gastronômica dos vinhos italianos advém das próprias leis que regem sua forma de produção. Muitas D.O.C. e D.O.C.G. (Denominazione di Origine Controlatta e Denominazione di Origine Controlatta e Garantita, respectivamente) prescrevem que os vinhos são obrigados a passar por um estágio mínimo em madeira, e em alguns casos, mesmo depois de pronto e engarrafado, devem descansar por um certo tempo antes de ser comercializados.

Durante o período em que o vinho repousa nos barris e nas garrafas, seus taninos “amaciam”, o álcool se integra melhor ao conjunto e aromas terciários começam a aparecer. Como resultado, a agressividade de um vinho jovem cede espaço à elegância e à sutileza, tornando mais amigável o diálogo com a comida.

Ainda que tudo contribua para formatar uma carta exclusiva com rótulos italianos – é errado pensar que limitam as opções e que são mais caros –, há clientes que não dispensam os vinhos do Novo Mundo, especialmente os sul-americanos. Isso pode estar associado à imagem de que são mais baratos, mas também pela opção de uma escolha com menos risco de errar.

Recentemente, o sommelier de um ótimo restaurante italiano confidenciou: “Se eu colocar Catena e Montes na minha carta, não trabalho. Prefiro buscar outros produtores da América do Sul, talvez menos conhecidos, mas que me permitem dialogar com o comensal e atender melhor suas expectativas quanto à combinação do vinho com o prato”.

Não é cisma pessoal minha contra o Catena. Ao contrário. Só comprova a tese da opção que não tem erro. Mas também não tem mérito. Insisto na mesma tecla: a grande magia do vinho é a diversidade. Escolher o caminho da banalidade ao montar uma carta de vinhos pode se tornar um grande inimigo da casa. Restaurante que tem especialidade tem por obrigação dar ênfase a rótulos do país que norteia sua cozinha.

Isso tem a ver também com não fechar exclusividade com uma importadora. O lugar ficará “preso” à oferta de determinados rótulos, e o que normalmente acontece é o desvirtuamento da conexão entre a carta e o cardápio. Enfim, a grande virtude dessa nova linha de casas italianas está na facilidade de se posicionar entre cantinas e ristoranti.

Apresentam uma grande evolução qualitativa em relação às cantinas, sem a formalidade e os elevados preços dos ristoranti. O mesmo vale para a seleção dos vinhos, que não nos obriga a optar por água para escapar dos Valpolicella, Bardolino, Corvo e Chianti de baixa qualidade, cena comum nas cantinas. E sem ter de oferecer um serviço formal e uma lista tão extensa (e cara) quanto se pode encontrar num ristorante.

“Quanto aos vinhos, é natural – e recomendável – que se tenha predominância dos rótulos italianos”
 
 
 
 
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