O vinho do Porto vintage é uma seleção caprichosa da natureza – somente 2% da produção de uma safra inteira costuma ser classificada assim pelo Instituto dos Vinhos do Douro e Porto. Em PRAZERES DA MESA Ao Vivo, surgiu a oportunidade rara: degustação de exemplares desse tipo, de diferentes colheitas. Com o exercício, os participantes tiveram a chance de observar como o tempo é considerado o grande educador desse ícone, nascido em terraços do Douro, em Portugal.
Abrindo a prova, o Porto LBV 2004, da Casa Weise Krohn. O rótulo pertence à tradicional família Falcão Carneiro, dona de uma das maiores coleções de Porto antigo de que se tem conhecimento. Embora seja um LBV, sua qualidade é tão boa quanto a de um vintage tradicional. Sua cor pujante mostra logo que se trata de um vinho bem-nascido. Os aromas de framboesas e amoras maduras encantaram a todos. Na boca, portou-se como um veludo.
A degustação continuou com rótulos de 2007, das casas Duorum, Burmester e Warre’s. Neste ano foi o que teve maior número de declarações de vintage – 98 casas produtoras solicitaram esse diploma ao Instituto do Vinho do Douro e do Porto (IVDP). Para os ingleses, degustar essa safra é considerado “infanticídio”. Mas, para os que apreciam vinhos ricos em frutas vermelhas, fortes e jovens, a pedida é das melhores.
Duorum é o filho caçula do recente projeto implantado no Douro, assinado por ícones da vitivinicultura lusa – João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco. João fez uma bonita revolução no Alentejo. José Maria, após duas décadas de trabalho como enólogo da prestigiada Casa Ferreira, onde foi o braço direito do mítico enólogo Fernando Nicolau de Almeida, resolveu alçar voo próprio. O especialista está trabalhando em um maravilhoso projeto no Douro Superior, quase fronteira com a Espanha. Seu primeiro exemplar mostrou a que veio. O vinho é daqueles que enchem a boca. Potente, mas com uma elegância a ser conferida.
O Burmester esbanja cor e aromas de frutas vermelhas. Seu tom retinto como tinta negra alerta que estamos diante de um produto para muitas décadas de vida. O difícil é saber se aguentamos esperar tanto por esse Porto nascido na Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, no Cima Corgo, que reúne todas as qualidades esperadas de um vinho dessa linhagem.
Seguimos com o elegante e fresco Warre’s, de cor opaca intensa, elaborado com cepas velhas cultivadas na Quinta do Retiro Antigo. Depois, o Graham’s de um ano não muito tradicional para a categoria, 2003. Nele foi possível sentir bem a harmonia entre natureza e competência do enólogo que o elaborou. As uvas que compõem esse rótulo têm procedência diversa, com destaque merecido para as vinhas velhas da Quinta do Tua, que mescla videiras de baixa produção e forte concentração. A maior qualidade desse vinho, porém, é que ele apresenta sinais de guarda.
A cor do Ferreira 2000 é negra, parecendo que ele foi produzido no dia anterior. Complexo, robusto, harmônico e com longa permanência na boca, a bebida ainda parece jovem e certamente terá condições de atravessar um século de vida.
Para encerrar, outro exemplar digno de boas notas o Cálem 1999. De cor cerrada e aromas penetrantes de groselha, esse vinho é uma raridade, uma vez que, em geral, este não foi um bom ano para o Porto. O retrogosto impecável, longo, suave e muito agradável é garantido pela excelente aguardente vínica que lhe foi adicionada. Em nenhuma das amostras degustadas, aliás, sentiu-se álcool depois dos goles. Prova de que, de fato, os vintages são a perfeição do Porto.
* Carlos Cabral estuda vinhos há 40 anos. É consultor e um apaixonado pelo tema.