O Moscatel é um vinho doce natural, joia da vinicultura portuguesa, ao lado do vinho do Porto e do vinho Madeira. Sua história começa na época em que os navios cruzavam os mares fazendo todo tipo de comércio, e os capitães dos barcos levavam consignado o Moscatel de Setúbal para vender e complementar seu salário. Como nem sempre conseguiam comercializar todos os barris, a carga voltava a Portugal e era devolvida ao produtor.
Ao ser aberto, quase sempre o vinho estava melhor do que antes de embarcar, por causa das variações climáticas sofridas durante a viagem que faziam aprimorar as qualidades da bebida. Fruto do acaso, o Moscatel de Setúbal é produzido atualmente de forma semelhante ao Porto e ao Madeira. A fermentação é interrompida com a adição de aguardente vínica, que deixa o vinho com uma graduação alcoólica de 18% a 20%.
É um vinho recomendado para acompanhar sobremesas e charutos. Por isso, Prazeres da Mesa realizou uma degustação de cinco exemplares importados pela Inovini (José Maria da Fonseca) e Portus Cale (Bacalhôa), à venda no mercado brasileiro. O local escolhido para a degustação foi a Casa da Fazenda, localizada no bairro do Morumbi e um dos últimos refúgios da cidade em que é possível apreciar um bom charuto sem ser alvo da lei antifumo.
Os vinhos degustados foram o Bacalhôa Moscatel de Setúbal 2004, com teor alcoólico de 17,5%, aroma intenso de moscatel, flor de laranjeira, chá e passas. Na boca, a fruta é intensa e tem um final longo e persistente. O Moscatel de Setúbal José Maria da Fonseca 2004, também com 17,5% de álcool, tem cor topázio e aromas semelhantes ao primeiro vinho degustado. O terceiro vinho foi o Bacalhôa Moscatel de Setúbal 1998, com teor alcoólico de 18% e um ótimo balanço entre a acidez e a riqueza de açúcar. Na boca, marmelada, damascos secos, figos e nozes. O Bacalhôa Moscatel Roxo 1998, com 18,5% de álcool, teve aromas intensos e complexos como passas, amêndoas e mel. Para finalizar, foi servido o Alambre 20 anos Moscatel de Setúbal José Maria da Fonseca, com 17,5% de álcool, cor âmbar, nariz intenso e frutado em boca.
A degustação foi realizada às cegas, em duas etapas. Na primeira, os vinhos foram avaliados para buscar o melhor do grupo. O vencedor foi o Bacalhôa Moscatel de Setúbal 1998, que apresentou o melhor equilíbrio entre acidez e doçura. Na segunda etapa, os participantes acenderam seus charutos e iniciaram a prova novamente. O vinho escolhido desta vez foi o Bacalhôa Moscatel Roxo 1998, que, com seu aroma intenso e boa persistência em boca, foi o escolhido para acompanhar as baforadas. Uma sugestão de harmonização para esse vinho é o charuto brasileiro Dannemann Artist Line Robusto.
* César Adames é consultor na área de tabaco, professor no Senac e na Universidade Anhembi Morumbi.