Longe vai o tempo em que o apreciador de vinho, entusiasta, mas pouco informado, comprava tudo, desde rótulos prestigiados a marcas completamente desconhecidas. Sua paixão pelo néctar de Baco era tamanha que ele comprava sobretudo com o coração e muito pouco com a razão. E, se tinha meios para isso, comprava quase sem olhar o preço.
Hoje, isso acabou. É verdade que os ecos diretos ou indiretos da crise internacional também condicionam as compras. Mas sobretudo o apreciador apaixonado transformou-se num cliente com conhecimento, e exigente. E exigente não apenas com a qualidade, mas também, e cada vez mais, com a relação entre qualidade e preço.
Os produtores portugueses estão muito atentos a esse fato, patente em todos os principais mercados de vinho do mundo. O apuro nas vinhas e adegas tem levado a um enorme salto qualitativo nos tintos lusitanos de médio-baixo preço. Para dar um exemplo de rótulos conhecidos, o vinho que dá origem ao atual Loios tinto 2009 (cerca de R$ 30) é de categoria idêntica ou superior ao vinho que era colocado nas garrafas de Marquês de Borba de 2006 ou 2007 (cerca de R$ 42). João Portugal Ramos foi um dos vários produtores que realizaram um evidente upgrade qualitativo de suas marcas sem aumentar os preços. O consumidor agradece.
A região do Tejo (mudou de nome recentemente, antes a conhecíamos como Ribatejo) é talvez a que mais evoluiu os tintos nessa categoria de preço (de R$ 25 a R$ 35). São excelentes exemplos vinhos como Quinta do Casal Branco 2008, Cadaval Vinha Padre Pedro 2008, Altejo 2008, Casal da Coelheira 2008, Catapereiro Escolha 2009 ou Conde de Vimioso 2009. O Alentejo continua em alta, claro, e as mais recentes safras, de 2008 e 2009, vieram reforçar sua liderança: Loios 2009, Monte das Ânforas 2009, Paulo Laureano Clássico 2008, Couteiro Mor 2009, Terra Plana 2009, Lusitano 2009, Montado 2009, Montes Claros 2008, entre outros, são todos boas propostas.
Em regiões como Douro, Dão ou Bairrada é mais difícil conseguir preços competitivos, em razão de os custos de produção de uva serem mais elevados. Mas ainda assim há vários rótulos que conseguem esse difícil compromisso entre o preço e a qualidade. De provas recentes, destaco no Douro os Altano 2008, Esteva 2009, Kopke 2008, Lello 2008, Tons de Duorum 2009 e Sá de Baixo 2008; no Dão, Cabriz 2008, Grilos 2008, Quinta do Sobral 2007, Cunha Martins 2007; e na Bairrada, Quinta do Encontro 2008, São Domingos 2007, Frei João 2007 e Vinha do Putto 2008. Também a região de Lisboa tem bons vinhos para oferecer nesse segmento de preço, com propostas como Sanguinhal Aragonez 2006 ou Quinta das Amoras 2008.
Com esses e muitos outros vinhos que não tenho espaço para citar aqui, podemos dizer que nunca houve no mercado tantos e tão bons tintos portugueses de preço médio ou baixo. E, mesmo para quem a crise passa ao lado, comprar com bom-senso faz parte do conhecimento essencial de qualquer bom apreciador de vinho. Há tempo, e tempos, para tudo. Há momentos para Esteva e momentos para Barca Velha. Não são as crises que mudam essa realidade.
Existem muitos rótulos de preço moderado perfeitamente capazes de nos proporcionar bons momentos à mesa. Vinhos benfeitos, limpíssimos, com fruta de qualidade, frescos e alegres. Vinhos que dão prazer beber. E, bem lá no fundo, isso é tudo o que devemos pedir a um vinho.
* Luis Lopes, além de um apreciador das boas taças, é diretor da Revista de Vinhos, de Portugal.