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  Sustentabilidade já

O mundo do vinho precisa se conscientizar urgentemente sobre a necessidade de economizar água e em adotar outros mecanismos de preservação ao meio ambiente


Qualquer pessoa que olhe a Terra com uma visão panorâmica pode perceber que estamos esgotando seus recursos rápido demais. Estou feliz que a consciência do impacto ecológico do uso de garrafas pesadas, tanto em termos de produção como de transporte, seja muito mais difundida do que na época em que comecei a escrever sobre isso, há cinco anos. Mas precisamos pensar sobre tantos outros aspectos da fabricação, comercialização e consumo de vinhos se quisermos construir um futuro sólido e sustentável para o planeta. Uma coisa que me incomoda especialmente é a necessidade de refrigeração que é exigida na fabricação e no armazenamento dos vinhos.

A maioria dos sistemas de ar-condicionado engole bastante combustível, ainda que os lugares mais tradicionais para armazenar vinhos, as adegas, não exijam praticamente nenhuma energia e proporcionem temperaturas admiravelmente constantes ao longo do ano. Fiquei muito espantada com a discrepância entre os métodos antigos e os modernos de fabricação de vinhos quando visitei a pequena região de Cigales, no norte da Espanha. Lá existe uma longa tradição no cultivo de vinhas pela população local e na produção caseira de vinhos em suas adegas subterrâneas. Essa tradição continua ainda tão viva nos dias de hoje que essas adegas são locais para banquetes frequentes nos fins de semana e outras festividades.

Mas, quando a grande empresa Baron de Ley, originalmente estabelecida em Rioja – uma importante empresa, a qual espero que contribuirá para divulgar o potencial dessa interessante região vinícola –, mudou suas instalações para Cigales, eles ignoraram a sabedoria local ao construir um castelo gigantesco para sua vinícola, a Finca Museum. Os barris não são envelhecidos em adega, tampouco em prateleiras de armazenamento, mas apoiados no chão de uma câmara ampla e alta, do tamanho de um ginásio de esportes, a qual é parte integrante da vinícola, construída esparramada na superfície do alto de uma colina, presumidamente cheia de energia, já que o sol incide fortemente nessa área todos os verões.

Não é que essa empresa espanhola seja maldosa. Eles estão simplesmente seguindo o que se tornou a regra em tantos lugares do mundo – especialmente na Espanha, em princípio – ao construir um monumento comercial exibicionista bem visível. O problema é que ele é mal pensado, como muitos de seus similares. É preciso um pouco mais de consciência e de visão de longo prazo para conceber prédios de vinícolas em que a sustentabilidade seja a principal preocupação.

Claro que isso não só se aplica à arquitetura de novos prédios, mas à aplicação de métodos em edifícios já existentes. Seria maravilhoso se todo produtor de vinhos pudesse ter uma visão inovadora sobre como usar a energia e, principalmente, como aproveitar o lixo e fazer um esforço conjunto para diminuir o uso dos recursos naturais assustadoramente limitados da Terra. Principalmente porque o mundo considera o vinho (e sua produção) como uma atividade razoavelmente sustentável. Seria bom, se a realidade coincidisse com essa imagem.

Claro, alguns produtores no mundo têm inovado em seus métodos e devem ser felicitados por isso. Por incrível que pareça, um dos países mais pró-ativos nesse sentido é a Espanha. Alguns anos atrás, Miguel Torres Jr., o homem que supostamente estaria prestes a se aposentar (ah!), buscou informações científicas sobre o aquecimento global e o crescimento populacional e concluiu que ele tinha somente uma maneira eficaz de agir, se ele quisesse, de fato, estabelecer um negócio sustentável para as próximas gerações. Isso não aconteceu muito antes da conferência que ele organizou em Barcelona em junho de 2010 sobre ecossustentabilidade e vinhos. Ele analisou detalhadamente todos os processos em suas muitas vinícolas e instituiu todo tipo de mudanças, inclusive a utilização de um combustível próprio para seus veículos e cultivando algas especialmente destinadas a absorver enormes quantidades de dióxido de carbono resultantes da fermentação alcoólica.

Há tantos ajustes que podem, ou devem, como muitos podem argumentar, ser feitos. Uma espécie de Protocolo de Kyoto chamado Convenção de Barcelona foi redigido como resultado da conferência de 2010. Até novembro de 2011, já havia 20 signatários da convenção e estima-se que haverá 150 até o evento Alimentaria, em março de 2012 (leia em www.wineriesforclimateprotection.com).


Mas falamos aqui somente da Espanha. O que precisamos é de ações no mundo todo. Um lugar onde ocorreram iniciativas admiráveis é razoavelmente raro. O Napa Valley é considerado, a partir de uma visão externa, um local meio mimado e, talvez, não um dos locais mais óbvios para ações conjuntas conscientes ecologicamente. Mas os viticultores de Napa Valley, por muitos anos, investiram pesadamente cavando adegas em suas belas montanhas, promovendo o armazenamento de vinhos com energia limpa, e, agora, eles têm uma iniciativa agrícola no setor da indústria sustentável, assim como seus colegas na Nova Zelândia e na África do Sul.

A não utilização de agrotóxicos e a proteção do meio ambiente já são bom começo, mas eu encorajaria os profissionais do vinho a refletir sobre todos os aspectos de seu negócio. A água é um dos aspectos mais preocupantes na produção atual de vinhos. Por um bom motivo, esqueci-me do cálculo de quantos litros de água são necessários para produzir 1 litro de vinho. É amplamente conhecido que o mundo será escasso em estoques de água potável muito em breve e que nós não podemos continuar a usá-la com tanto desperdício. Certamente, os viticultores na Califórnia e na Austrália já sabem quão valioso é esse recurso, que muitos ainda consideram como garantido.


Há muitas pequenas coisas que podem ser feitas para reduzir a emissão de carbono, ou, ao menos, para aumentar a eficiência. Muitos produtores ainda acreditam que eles precisam usar embalagens de isopor, de poliestireno, terrivelmente não recicláveis, enviadas pelos Correios, mas eles estão enganados! A melhoria na resistência das embalagens de papelão há uns dois anos foi espantosa. A maioria das minhas amostras chega embalada em papelão, nada mais natural e biodegradável do que isso: e não me lembro da última vez em que uma garrafa se quebrou.

No entanto, realmente não entendo por que mais produtores não utilizam os práticos pequenos tubos de vidro, com rolhas de rosca, vendidos pela Wine in Tube (www.witfrance.com), que também vende pequenas caixas simples de papelão dentro das quais eles enviam esses tubos. Isso reduz o volume das encomendas de quase 4.000 centímetros quadrados para 300 centímetros quadrados aproximadamente, além da redução significativa do peso. Agora, que bolsas, caixas de papelão e latas estão muito melhores, eu pergunto se precisaríamos ainda de vidro para os vinhos mais baratos? Nós, consumidores, deveríamos, certamente, fazer todo o possível para reciclar nossas garrafas de vinho usadas.

E minha dica final: por que todo mundo continua a trazer cuspideiras enormes nas degustações? O transporte e a limpeza delas não são econômicos, e bastam algumas cuspideiras para que nós, degustadores, gastemos tempo demais nos deslocando com e até elas. Muito mais práticos, higiênicos, compactos, fáceis de empilhar e completamente biodegradáveis são os copos de papel, um por pessoa. Todos com seu copo de papel e com muito mais conscientização com as questões da sustentabilidade no mundo dos vinhos.


Leia mais em jancisrobinson.com

 
 
 
 
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