A gências de classificação de risco, manifestações contra cortes de gastos, aposentados nas ruas, estudantes no quebra-quebra. A visão de uma Europa convulsionada pela crise econômica e financeira não combina com a ideia de lazer, prazer, cultura e elegância que os europeus – com o vinho e a gastronomia – exportaram nas últimas décadas. O mundo que comprava as ideias europeias tratou de adaptá-las a seus traços nacionais, desenvolvendo como nunca a arte do turismo e do prazer à mesa.
São atividades que exigem ao menos um toque de elegância, não necessariamente artístico, mas com base em conhecimentos adquiridos no decorrer do tempo. São traços cultivados em família, passados em cursos, difundidos como bens culturais. Gastronomia e vinhos são parte essencial das viagens. É em meio a eles que se viaja. Agora, a questão se põe. O que será feito de tanto vinho, de tanta receita de pratos?
Os vinhos contam histórias de terrenos, de rios e castelos, de velhas abadias e mosteiros, de ranchos a perder de vista, de encostas íngremes, onde a luz do dia muda a cada hora, a cada estação. Tudo isso parece agora se ensombrecer ante uma crise que leva o consumo para longe. Lagos de vinhos não vendidos deixam portugueses, gregos, espanhóis e italianos ainda mais engasgados do que eles estão com suas crises de liquidez e emprego. Nas duas últimas décadas, muitas escolhas foram feitas por produtores de vinho. As principais:
1 O estilo americano, de uso de madeira nova (carvalho), se impôs entre os produtores novos, do Velho e do Novo Mundo.
2 Esse estilo exige concentração na vinificação e alta gradação alcoólica (acima de 14% por volume), caso dos vinhos do Chile, da Califórnia, Austrália, Nova Zelândia, Portugal, Espanha, Argentina e África do Sul, para citar apenas a parte mais conhecida.
3 Esses vinhos, concentrados e densos, têm preço superior aos demais da mesma casa vinícola. São os conhecidos como top de linha, usam garrafas mais espessas (hoje condenadas pelos verdes, por não serem ecologicamente corretas), uma das razões do preço mais elevado.
4 A moda dos vinhos potentes terá começado antes do ano 2000, em Bordeaux, com os vinhos de garagem, que, por sua vez, procuravam seguir o sucesso de vinhos americanos como o Screaming Eagle, Harlan Estate, Stags Leap e outros do Vale do Napa, na Califórnia.
5 Itália, Portugal, muitas regiões da França e todos os países produtores do Novo Mundo seguiram essa fórmula. Os vinhos passaram a ser padronizados, parecidos, e ficaram conhecidos mais pelo nome da uva (varietal) do que pelo terreno em que foi cultivada. Assim, um Chardonnay acompanhado do nome do produtor ou de uma propriedade passou a ser a carteira de identidade do vinho.
6 De uns cinco anos para cá, os apreciadores mostraram, primeiro timidamente, depois com mais ênfase, seu cansaço – e a impossibilidade de identificar o vinho por sua origem. O que é um produto da terra, do lugar, do clima desse lugar e das famílias e mãos que se sucederam no trabalho de transformar uvas em vinho, a cada ano virou uma bebida correta, feita em grandes quantidades, apenas com o nome do produtor e da uva no rótulo. Só agora começa a mudar essa prática. Californianos, australianos e sul-africanos buscam fazer vinhos de terreno, com as características de cada parcela. Mas a mudança, infelizmente, não chegou ao consumidor – porque não chegou ao distribuidor de larga escala.
7 Com a crise, vai sobrar vinho. Os bons – não só os caros de leilões – poderão sobreviver.