A 1.500 metros acima do nível do mar, em Gualtallary, Mendoza, a escassez de água e a quase total ausência de canais de rega colocaram em evidência o caráter rude do deserto. Enquanto, mais embaixo, nos vales de Mendoza, o verde se impõe, em Gualtallary a vegetação luta por gotas de chuva. Os crategos, os cactos e os pequenos arbustos de pimenta vermelha se espalham pela areia, subindo lentamente até a majestosa Cordilheira dos Andes, que é vista aqui como especialmente imponente: maciços considerados como gigantes, silhuetas obscuras recortadas contra o céu azul.
Gualtallary é a nova fronteira do vinho mendocino e um dos lugares mais alucinantes do vinho atualmente na Argentina. Muito disso se deve à altura, ao frio que desce em forma de brisa dos Andes e que retarda a madureza, imprimindo sabores mais nervosos e frescos em seus Malbec, contrastando também com o caráter mais doce e saboroso dos vinhos das áreas mais baixas.
No entanto, o verdadeiro valor dos Malbec de Gualtallary, o segredo de seu caráter também reside no solo. Combinado com a areia e as pedras, encontra-se a cal, o famoso carbonato de cálcio tão requisitado nos vinhedos do mundo e presente, certamente, em alguns dos mais famosos terroirs deste planeta: Barolo, Bourgogne, Bairrada. O culpado direto da arquitetura tensa e firme desses vinhos subjaz nada mais do que do solo, desses solos de giz.
Em Gualtallary acontece algo similar ou, ao menos, de maneira incipiente. As primeiras vinhas foram plantadas aqui em 1996 por Ernesto Catena, que procurava, nessa época, lugares mais frescos para conseguir produzir um Cabernet Sauvignon mais elegante e fino, coisa que não conseguia nas áreas mais quentes e baixas de Mendoza. Dessas primeiras plantações nasce hoje um dos melhores Malbec da Argentina, o Adrianna Vineyard, membro da coleção dos vinhedos de Catena, um dos estudos mais bem-sucedidos sobre a diversidade de territórios em Mendoza.
Adrianna é um vinho que resume o lugar, com seu frescor, seus aromas de especiarias e sua estrutura monolítica e austera, deixando pouco espaço para a doçura. Esse mesmo detalhe, digamos, “estrutural”, pode ser encontrado em Malbec mais simples, como o varietal 2010 de Zorzal, dos irmãos Michelini. Um vinho puro, refrescante, mas também com esta arquitetura firme, robusta e essa suave sensação de giz na boca.
Sophenia é outra das adegas pioneiras em Gualtallary. Um de seus proprietários, Roberto Luka, plantou em 1997 e, desde então, tem construído um sólido catálogo de vinhos. Se vocês quiserem compreender a terrinha de Gualtallary, pode provar o sabor firme de especiarias do Reserva 2010, um Malbec que também compartilha dessa estrutura monástica, severa, como se fosse uma igreja romana.