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  Taças e pessoas

Mais difícil que harmonizar um rótulo com um prato é combinar o vinho com quem se brinda. No campo das relações humanas, comida fica em segundo lugar


Tenho acompanhado com muita atenção o rápido interesse do “novo consumidor brasileiro de vinhos” em buscar as mais diversas informações nesse mundo da enologia. Tal prática tem sido benéfica ao setor. A maior preocupação com a qualidade e o enorme sortimento de vinhos oferecido no Brasil, de todas as partes do mundo, deixam o novo consumidor como se estivesse em um parque de diversões. É uma utopia desejar que todos os consumidores sintam o prazer que sentimos ao degustar uma garrafa de vinho. Aqui alguns conselhos de quem está nessa estrada há 43 anos e que, acredita, poderão ser úteis.
Graças ao enorme interesse pela gastronomia despertado em nossos jovens, ultimamente surgiram escolas de nível internacional entre nós que, a cada ano, colocam um grande número de profissionais dessa área no mercado. Cada um tem seu sonho, todos são criadores e imaginativos, a maioria até arrisca fazer uma releitura do arroz e feijão que sua mão lhe serve há anos, tentando criar uma nova iguaria. Depois de muito trabalho, criatura e criador estão na mesa e, aí, surge a questão: que vinho combina com esse prato?
Pela escola clássica, se for carne, vinho tinto; se for peixe ou frutos do mar, vinho branco. Os modernistas defendem a liberdade total, e olha que às vezes chega até a dar certo. Mas o principal fato é sempre esquecido. Com quem partilharei aquela iguaria? Quem vai me acompanhar na degustação do vinho? Aí está o segredo de tudo. Nós, seres humanos, temos a capacidade de transformar. Podemos tornar um simples sanduíche memorável como também podemos estragar o mais refinado dos banquetes. Então, chegamos à conclusão de que a principal harmonização à mesa é: quem está conosco!
Perceberam que em uma refeição de negócios a comida e a bebida têm sabor de plástico? Que, no meio da refeição, alguém lembra um pouco da história do vinho servido, para acrescentar predicados e informar ao convidado que aquela garrafa custa muito caro e que a mesma não é uma deferência, é um aviso: faça negócio comigo!
Poucos sabem que o vinho tem a capacidade de juntar e sociabilizar as pessoas, após a primeira taça, o tradicional “gelo” da chegada é quebrado, soltamos a língua e vamos às verdades, como há séculos os romanos descobriram, “in vino, veritas”.
É mais fácil harmonizar vinho e comidas do que vinho com pessoas. Alguns tipos são clássicos, como os que adoram beber bem quando são convidados, mas, em casa, sabe-se lá o que ele bebe. Depois tem o intelectual, que contesta tudo, da comida ao vinho. Esse deveria ser condenado a tomar água sanitária por uma vida toda.
Vivo dizendo pelos quatro cantos que “o melhor vinho do mundo é aquele que bebemos na companhia de quem amamos”. Quem faz a qualidade final de um vinho é quem o degusta, e o momento da degustação não volta mais. Portanto, aquele é sempre o melhor momento.
Tenho pena daqueles que não sabem escolher um vinho sem antes saber que nota ele recebeu desse ou daquele expert. Quando um tipo desses serve o tal vinho, vai logo avisando: “Fulano de tal, de 92 pontos, para este vinho! Ai de você contestar e dar 91!”. Está formada a confusão.
Leitor amigo, antes de escolher um vinho, ou a comida que vai servir junto dele, escolha as pessoas que estarão degustando com você e sinta a alegria de estar vivo, celebrando um grande momento de sua vida, na companhia das pessoas que lhe são caras e que lhe querem bem. Este, sim, será o melhor vinho do mundo e a harmonização será imbatível.

* Carlos Cabral estuda vinhos há 43 anos. É consultor e um apaixonado pelo tema.

 
 
 
 
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