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  Centralidade do alimento

Pela proteção do direito primário da humanidade, capaz de garantir a vida não do gênero humano e do planeta


Por Lia Poggio
Foto divulgação

No início era uma ideia que parecia apenas uma intuição genial, mas no decorrer do tempo se tornou uma certeza compartilhada: a centralidade do alimento. Um ponto de partida extraordinário para uma nova política, uma nova economia, uma nova sociabilidade. Essa certeza foi crescendo com o tempo, não somente no Slow Food e na rede do Terra Madre, mas em todas as regiões do mundo, aumentando a consciência de milhões de pessoas.

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De 25 a 29 de outubro, em Turim, na Itália, foi realizado o Congresso Internacional do Slow Food. Pela primeira vez, um documento congressual foi traduzido para os idiomas dos inúmeros países onde o Slow Food está presente de forma estruturada: mais de 50. O documento possui como tema a centralidade do alimento. Isso porque temos a certeza de que o alimento é um direito primário da humanidade, capaz de garantir a vida não só do gênero humano, mas de todo o planeta. Precisamos lutar pelo direito ao alimento e para erradicar a fome, assim como se lutou para acabar com a escravidão: já não temos mais tempo a perder.

O alimento deve voltar a ser um elemento central das reflexões que tocam o homem. O que é essencial à sobrevivência, é parte da esfera dos direitos. O alto comissário da ONU para os direitos humanos identificou algumas obrigações para os estados: não interferir na capacidade de se autoprover, proteger a segurança alimentar, o ambiente, permitir o acesso à terra, permitir o acesso dos menos favorecidos aos recursos. Para o Slow Food e Terra Madre, tudo isso tem a ver com o respeito pela agricultura tradicional e sustentável cujos porta-bandeiras são os produtores familiares, jovens, mulheres, idosos, povos indígenas.

O alimento provém da natureza, por meio da terra. O solo se alimenta de tudo aquilo que oferecemos a ele e, por sua vez, continua a nos oferecer o alimento em um ciclo contínuo. Ameaçando a fertilidade dos solos, comprometemos nossa vida e a de nosso planeta. Escolhendo o que comer, temos a oportunidade de defender a fertilidade dos solos cada vez mais ameaçada pelas práticas intensivas da agricultura industrial e pelo uso abusivo de substâncias químicas. Frequentemente há outras especulações: grandes plataformas de energia alternativa, como a energia solar, colocadas sobre terrenos férteis. Em muitos países há o problema da “cimentificação” excessiva: é necessário defender a fertilidade dos solos como um bem comum.

É imperioso raciocinar em termos de pegada hídrica: quanta água desperdiçamos, quanta água “custa” o alimento que escolhemos. A rede hídrica do planeta é uma só. O modo no qual cultivamos nossos campos ou criamos nossos animais pode ser oneroso em termos hídricos; a situação dos mares em nível planetário é crítica. Tudo isso nos envolve.

A produção de alimento deve ser sustentável e favorecer a qualidade da vida e do ambiente, em primeiro lugar do ar. A qualidade do ar é deteriorada pelos agentes químicos e torna-se ainda mais crítica com a enorme quantidade de CO2 liberada para fazer viajar os alimentos pelo mundo. Não é possível que nosso futuro contemple um sistema agrícola que prevê um alimento produzido a milhares de quilômetros de distância e conservado por longos períodos para permitir sua sobrevivência. Pequena escala, local e orgânica são a resposta à agroindústria de efeitos negativos.

Promover o alimento local e as produções de pequena escala e de qualidade significa promover raças animais e variedades vegetais com capacidade de se adaptar a determinado contexto climático, desenvolvido em milhares de anos de evolução. Até o final do século, se mantivermos este ritmo, 10% de todas as espécies vivas do Planeta estarão extintas, especialmente aquelas domesticadas para a produção de alimento. Um sistema vivo com alta taxa de biodiversidade pode responder bem às mudanças climáticas e desenvolver uma importantíssima função de regulação do clima. O alimento não pode e não deve se tornar uma ameaça para a biodiversidade.

A agricultura sustentável depende das sementes tradicionais e dos conhecimentos para sua reprodução. Os OGMs (organismos geneticamente modificados) são um caso limite, mas o interesse das empresas pelas patentes das sementes está migrando dos OGMs para as sementes convencionais e ainda das sementes para os produtos finalizados. É necessário que o valor das sementes tradicionais seja reafirmado e que se encontrem instrumentos para frear a perda.

No mundo “rico”, doenças como obesidade, diabetes e distúrbios cardiovasculares estão em níveis de alarme epidêmico. O que é isso se não um desperdício de saúde? É necessário considerar a saúde um bem comum, a saúde de uma comunidade e sua capacidade de tomar conta de si, de seu território e de seu futuro. A saúde envolve também as futuras gerações, para as quais transmitimos um ambiente e uma cota de saúde que estão diretamente relacionadas ao modo como nos comportamos e nos alimentamos hoje. A produção alimentar sustentável, aliada a uma adequada educação, contribui para criar e para manter a saúde.

Na história da humanidade, a produção de alimento, sua conservação e sua distribuição contribuíram para a construção de um imenso patrimônio de conhecimentos transmitido no tempo e no espaço e objeto de constantes mudanças. Com a Revolução Industrial, o controle dos saberes por meio das patentes, se reforçou um dualismo entre ciência oficial e saberes tradicionais. Somente com um diálogo entre esses dois mundos pode-se construir um futuro sustentável. Pluralismo e diversidade dos sistemas de conhecimento devem ser incentivados. A troca desses conhecimentos é a maior e a mais gratificante missão do movimento Slow Food.

A estrutura de base do movimento Slow Food chama-se Convivium. A convivência reforça a busca do bem comum e a capacidade de cada um modelar o próprio futuro gerando eficiência sem degradar o ambiente. A maior expressão de convivência se manifesta na relação consciente de produtores com consumidores. Não mais consumidores passivos, mas coprodutores conscientes e responsáveis. Esse é o novo âmbito da política, com capacidade de mudar não somente a economia, mas também as relações entre as gerações.

Com o alimento no centro das atenções, há mais oportunidades para preservar a fertilidade do solo e a salubridade da água e do ar, para defender a biodiversidade e a paisagem, para defender nossa saúde, nossa consciência e nossa memória; para resgatar prazer, sociabilidade, convívio, e compartilhamento. Todas essas oportunidades serão em vão se não aceitarmos a volta à terra, à luta contra o desperdício, à construção de economias locais e à importância de uma educação permanente. Precisamos reafirmar o direito universal ao alimento.

 
 
 
 
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