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Francamente Chileno

Há pouco tempo no mercado brasileiro, a Viña Maquis apresenta, com exclusividade para Prazeres da Mesa, uma vertical do Franco, o rótulo icônico da bodega que chega com a credencial de ter sido eleito o melhor Cabernet Franc do Chile

Por: Prazeres Da Mesa | 13.dec.2016

Por Carlos Marcondes
Fotos divulgação

Tradição e inovação são premissas que podem soar antagônicas, mas não nas mãos da família Hurtado. Em 2016 eles celebram um século desde que José Maria Hurtado comprou terras férteis no coração do Vale de Colchagua, com a intenção de elaborar vinhos para compartilhar com os amigos. Muito antes, no século 18, jesuítas já cultivavam uvas nesse terroir que foi de dois presidentes chilenos.

Passaram décadas de produção singela, sem tanta expressão, até que Ricardo Hurtado, da quarta geração da família, decidiu imprimir vanguardismo e alguns milhões de dólares em um projeto moderno, com foco no mercado premium. A história passa a ser recontada, agora apenas com 13 anos, com os primeiros rótulos lançados em 2003, de uma Viña Maquis repaginada.

Poucos anos e já surgiram resultados expressivos. O Maquis Franco, vinho ícone da bodega, foi consagrado por três anos como o melhor Cabernet Franc do Chile, em um guia local. O sucesso vem do terroir. É o que afirma Rodrigo Romero, simpático e talentoso enólogo da marca que esteve pela primeira vez no Brasil, para divulgar seu principal rótulo e comandar uma vertical exclusiva para Prazeres da Mesa.

“Estamos em um microclima muito peculiar, no meio de dois rios – Tinguiririca e Chimbarongo – que lembra o sul da França, com solo de bom equilíbrio entre argila e pedras e drenagem excecional para a produção de Franc”, afirma. Segundo ele, é a drenagem a característica principal que permite amadurecer as uvas de forma rápida, para que ela perca o verdor peculiar da cepa. A diferença da antecipação da colheita chega a ser de até três meses (em meados de março), na comparação com outras regiões do país. “Conseguimos frutas frescas e com acidez natural, o que dá longevidade com potencial de mais de 20 anos”, diz.

Outra peculiaridade de algumas parcelas dos 130 hectares de vinhas da Maquis é que no verão elas recebem ótima ventilação, tendo a temperatura até 3 graus menor do que nos arredores, o que permite alcançar maturação mais lenta da uva. Já as chuvas se concentram sempre no inverno (cerca de 450 mm ao ano), o que facilita a agricultura orgânica. A bodega tem a certificação de Sustentável, pela Wines of Chile, e foi a primeira na América do Sul a implantar o sistema de energia geotérmico para aquecer as cubas no processo de fermentação. A tecnologia reduziu em 30% o consumo de eletricidade e em 90% o de gás.

01/12

Vertical

A linha Maquis Franco é recente, com apenas três safras – de 2008 a 2010 – sendo 100% Cabernet Franc, em evolução por 18 meses em barricas francesas, de segundo até quarto uso. São produzidas apenas 12.000 garrafas do exemplar, de um total de 180.000 feitas pela bodega.

Taças na mesa e no painel, a evidência da diferença causada pelas condições climáticas das safras. O ano de 2008 foi quente, com temperaturas quase tão altas como as de 2009, consideradas as mais cálidas dos últimos 20 anos na região. Ambas amostras traziam muita fruta negra, cassis e acidez natural que comprovam o potencial longevo dos rótulos. Os taninos estavam um pouco mais presentes em 2009, porém, bem domados.

Já a corrente 2010 – disponível no mercado brasileiro pela importadora Domno por 500 reais – mostra personalidade diversa das demais, com frutas vermelhas como amora, notas de flores azuis e de sálvia. No corpo, mais robusto que os anteriores, com acidez bem presente e integrada, característica, segundo Rodrigo Romero, de uma safra extremamente fria, antagônica às antecessoras. “Temos tanta concentração de fruta que estamos reduzindo a extração a cada ano. Nossa capacidade e meta é de elaborar o melhor Cabernet Franc do Novo Mundo”, afirma o enólogo.

Para o enófilo e degustador de Prazeres da Mesa, Ricardo Romero, a vertical exaltou a evolução dos vinhos e seus potenciais. “Todos com muita complexidade aromática e, em boca, equilíbrio com taninos suaves e boa acidez. Pouco álcool e vinhos elegantes que convidam a uma harmonização tranquila”, diz.

Consultoria de quilate

Em 2007, Ricardo Hurtado percebeu que para conceber vinhos com a máxima expressão de seu terroir era preciso buscar apoio de peso. Decidiu escrever uma carta, à mão, a nada menos que Jacques Boissenot, um dos consultores mais aclamados do mundo, referência do Médoc, envolvido na elaboração de mitos franceses como Lafite, Latour e Margaux.

Surpreendentemente, Boissenot aceitou recebê-lo, mas o atendeu de forma reservada, indagando com estranheza as razões que o traziam ali. Ricardo disse que ele tinha o estilo que a Maquis buscava, de fazer do vinho o verdadeiro protagonista, na contramão da filosofia autoral. Após provar as amostras, ele decidiu ajudar o chileno. Foram três anos sem cobrar nada. “Ricardo esperava pela garbosa conta que, por sorte, nunca veio. Ele queria mesmo era entender nosso terroir”, diz Romero. Depois do falecimento de Jacques – em 2014 – seu filho Eric assumiu a consultoria e deverá comparecer à bodega neste ano para os festejos do centenário da propriedade.

    *Matéria publicada na edição 157 de Prazeres da Mesa.

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