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HERANÇA ALEMÃ

Cervejarias artesanais não são novidade na mineira Juiz de Fora – elas surgiram na cidade, pelas mãos dos imigrantes, há 155 anos

Por: Prazeres Da Mesa | 7.dec.2016

Por Flávia G. Pinho, de Juiz de Fora 
Fotos Ricardo D’Angelo

Mundo de espuma_herança alemã

A o olhar do forasteiro, a pulsante cena cervejeira de Juiz de Fora pode parecer novidade, reflexo da moda recente que vem tomando corpo no Brasil. Mas não – as cervejarias artesanais são velhas conhecidas dos juiz-foranos. A cidade de 500.000 habitantes, que fica a 280 quilômetros de Belo Horizonte e a 180 quilômetros do Rio de Janeiro, foi colonizada pelos alemães, que cruzaram o Atlântico em 1858 para trabalhar na agricultura. A decadência das lavouras de café, no entanto, não demorou a alterar os planos deles. Segundo Alexandre Hill Maestrini, autor de Cerveja, Alemães e Juiz de Fora (Autobahn), os imigrantes logo abandonaram o campo para empreender em outros ramos – entre eles, as cervejarias. “Em 1861, apenas três anos depois da chegada dos alemães a Juiz de Fora, o imigrante Sebastian Kunz abria a primeira cervejaria de Minas Gerais, a Cervejaria São Pedro”, afirma Maestrini. Não havia cevada à disposição – a receita levava arroz e milho. Também data do fim do século XIX a microcervejaria instalada por holandeses no Convento da Igreja de Nossa Senhora da Glória, que funcionou até 2015 e está temporariamente desativada.

Embora os primeiros estabelecimentos tenham sumido do mapa, descendentes deles não deixaram a tradição desaparecer – e, nos últimos 15 anos, ela ressurgiu com força. Em 2012, segundo o autor, Juiz de Fora já possuía mais de dez cervejarias, número que só cresceu de lá para cá: estima-se que a quantidade de produtores artesanais, atualmente, passe de 100, embora muitos não tenham registro. Existe até um roteiro turístico temático, criado em 2013 por Rodrigo Miranda, da agência Verdeperto (saiba mais no quadro). O que é melhor: como as cervejarias ficam próximas umas das outras, é possível conhecer várias delas em um único dia. Confira alguns destaques que valem a visita a Juiz de Fora.

Mr. Tugas

A mais bonita cervejaria da cidade fica um tantinho afastada do Centro e ocupa a antiga casa de fim de semana da família de Hugo Lima de Siqueira, o Tugão. Criada como uma pequena pizzaria em 2005, a casa passou a fabricar a própria cerveja, a Mr. Tugas, dois anos depois. Dos 16 tanques de fermentação, fincados em um belo ambiente envidraçado visível da rua, saem 35.000 litros mensais de dez tipos de cerveja – Brown Ale, Double Red, Imperial Stout, IPA, Premium, Premium Extra, Rauch Bier, Red Ale, Weiss, Witbier – além de rótulos sazonais como Bock, Porter, Dunkel e Belgian Strong Golden Ale. O chope custa de 6,90 a 25,90 reais, enquanto as garrafas de 600 mililitros saem por 14,90 a 35 reais. Cerca de 35% da produção é consumida na própria casa, que tem 225 lugares e chega a atrair mais de 900 pessoas em um único sábado. No forno a lenha são assadas pizzas de massa branca ou integral, com 86 opções de cobertura. Entre as que fazem mais sucesso estão a catuperu (R$ 62,90, com oito fatias), com rolinhos de peito de peru defumado, catupiry e champignon, e a veridiana (R$ 74,50), de burrata, abobrinha condimentada e pesto de tomate seco. mrtugas.com.br

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Antuérpia

Inaugurado em 1987 pelo ex-bancário Célio Oliveira, o bar especializado em carnes A Churrasqueira (churrasqueirajf.com.br) começou a produzir a própria cerveja em 2009, ainda em equipamentos caseiros. Mas o sucesso da Antuérpia foi tanto que a cervejaria ganhou vida própria. Em 2014, sob os cuidados do filho de Célio, Saulo Oliveira, a estrutura saiu do bar e foi instalada em uma moderna fábrica nos arredores da cidade, onde já são produzidos 100.000 litros mensais. Os 42 tanques são pilotados pelo mestre cervejeiro Giancarlo Nicola Vitale. Além das nove variedades regulares – Weiss, Dunkel, Pilsen, Red Ale, IPA, Belgian Tripel, Stout, Berliner Weiss e a Eugênia, uma Witbier com pitanga, assinada pelo chef Pablo Oazen –, a cervejaria fabrica rótulos para terceiros, como a marca Green Lab Craft Brewery. Em torno de 8% da produção alimentam as chopeiras e geladeiras das duas unidades do bar, que somam 350 lugares. O chope custa de 5,20 (Pilsen, 200 ml) a 21 reais (especiais, 550 ml), enquanto a garrafa de 600 mililitros sai por 11,60 a 14,20 reais. Os pratos de resistência da casa são a picanha especial com farofa, vinagrete e pão de alho (R$ 90,30, para duas pessoas) e o filé valsassina (R$ 95,30, para duas pessoas), ao molho de vinho com alho confitado e arroz com castanhas. cervejariaantuerpia.com.br

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Artez

Fundada por Antero Fernandes Filho em 2002, a Artezannale Pizza Rústica produziu cerveja no estabelecimento, durante cinco anos, apenas para consumo próprio. Depois disso, transferiu os tanques para uma instalação anexa, onde são fabricados 40 litros por dia. A clientela escolhe entre duas variedades de chope (Pilsen e Special Ale), além de sabores sazonais, a preços que variam de 8,90 a 10,90 reais. O menu de pizzas, com 52 opções, tem o selo da italiana Associazione Verace Pizza Napoletana (AVPN). Os discos individuais, com 25 centímetros de diâmetro, saem com sabores tradicionais, como margherita (R$ 24,90), ou mais incrementados, caso do artezannale (R$ 45,90), que leva peperone, calabresa fatiada, cebola-roxa e Catupiry. Tel. (32) 3225-7805

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Barbante

Em 2008, Pedro Peters, tataraneto de Sebastian Kunz, retomou a atividade do ancestral – o imigrante alemão montou a primeira cervejaria de Minas Gerais, a São Pedro, que funcionou de 1861 a 1894. Instalada no antigo sítio da família, a versão atual exibe equipamentos históricos, como a caldeira de Kunz, hoje transformada em peça decorativa. O nome da casa resgata uma técnica antiga: durante o processo de fermentação, as rolhas eram amarradas às garrafas com um pedaço de barbante. Oito tanques, à vista do salão, produzem 10.000 litros de cerveja por mês, em seis variedades: Pilsen, Red Ale, Vienna, Weiss, IPA e Stout. As garrafas de 600 mililitros custam de 13,90 a 24 reais, e os chopes ficam entre 6,70 e 24 reais. O cardápio também tem forte sotaque alemão. A porção de salsichão fatiado, acompanhado de pimentões coloridos, cebola, repolho, pão de malte e mostarda escura, custa 45,80 reais. cervejariabarbante.com.br

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Timboo

O biólogo Mário Ângelo Ferreira está por trás da marca, nascida na churrasqueira de um sítio em 2009. Até hoje uma cervejaria cigana, a Timboo não tem fábrica própria – os quase 4.000 litros mensais são produzidos na planta da Antuérpia e vendidos no bar Timboo, inaugurado em 2014, com capacidade para 80 pessoas. A chopeira, com seis bicos, despeja nos copos três rótulos próprios: Weiss, Special Ale e Porter. O chope custa 9 reais (300 ml) e 15 reais (500 ml), enquanto a garrafa sai por 16 reais. As comidinhas para harmonizar quase sempre levam cerveja na receita. Entre as mais pedidas estão o timboo bacon, hambúrguer de fraldinha montado no pão de cerveja, com queijo, alface, tomate, bacon e cebola caramelizada na cerveja com açúcar mascavo (R$ 23), e o trio mexicano, chili cozido na cerveja com nachos, guacamole e creme azedo (R$ 28). Para finalizar, tem pudim de leite condensado com cerveja (R$ 8) e brownie com cerveja escura na massa (R$ 16). Tel. (32) 3025-2507

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Profana

Boteco antigão de ambiente bem simples, o Boi na Curva foi fundado há 50 anos como um armazém e tornou-se famoso na cidade pelos caldinhos. Desde 2007, o herdeiro Cristian Rocha fabrica a própria cerveja, a Profana. Os três rótulos – Weiss, Vienna Lager e Doppelbock – são produzidos em duas plantas cervejeiras da cidade (Arthorius e Antuérpia) e vendidos em garrafa (de R$ 18 a R$ 25) ou chope (de R$ 8 a R$ 14). O caldo mais pedido é disparado o de costela bovina com mandioca, seguido do de canjiquinha com costelinha suína (R$ 13,90 cada um). (Tel. 32/3224-3043)

Cerveja Profana

Cerveja Profana

Grizas

O espaço da churrasqueira da avó de Gabriel Grizendi foi transformado em 2014 em cervejaria improvisada. Em pouco tempo, porém, o garoto montou uma planta no bairro de São Mateus, com capacidade para 4.500 litros mensais. Como ainda não tem ponto de venda próprio (ele planeja abrir um bar ainda neste ano), Grizendi vende suas seis cervejas – Weiss, Irish Red Ale, IPA, Brown, Oatmeal Pale Ale e Dry Stout – em bares, restaurantes e empórios de Minas Gerais e Rio de Janeiro. As garrafas de 500 mililitros chegam ao mercado custando 14 reais em média, enquanto o chope sai por 12 reais. grizas.com.br

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* Reportagem publicada na edição 157 de Prazeres da Mesa.

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