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ÍCONE DE PORTUGAL

Primeiro grande vinho de mesa português, o Barca Velha tem nova safra no mercado e mostra que continua grandioso

Por: Prazeres Da Mesa | 28.mar.2017

Por Ricardo Castilho, de Sintra, Portugal 

Fotos Divulgação 

Por sua história e pelo papel que representam, alguns vinhos nascem respeitados e admirados. Assim é com o Barca Velha, tinto mais famoso de Portugal, nascido em 1952 e lançado apenas em grandes safras. E eis que o momento tão aguardado chegou. Em outubro, foi apresentada, para um grupo de 49 convidados, no Palácio de Monserrate, em Sintra, Portugal, a colheita de 2008. Foram apenas 17 colheitas até hoje, cultuadas e aclamadas assim que chegaram ao mercado, com a produção, que não chega a 40.000 garrafas, toda vendida.

Para o Brasil estão vindo 1.100 garrafas da 18a edição, comercializadas ao preço de 3.100 reais. E já não há mais quase nenhuma na adega da Importadora Zahil, que representa a marca no país.

Quinta da Leda_Douro

 O mito

A vontade de fazer um vinho grandioso de mesa no Douro começou ainda na década de 1940 com o enólogo Fernando Nicolau de Almeida, que, na época, fazia vinhos do Porto grandiosos.

A vontade de Almeida, porém, era fazer um vinho tinto com a mesma filosofia de qualidade. Sua grande vantagem é que conhecia as vinhas da Casa Ferreira como ninguém, afinal, entrou na empresa em 1929. As dificuldades técnicas eram imensas, principalmente no que dizia respeito ao controle da temperatura de fermentação. O projeto começou com a seleção de uvas nos principais vinhedos da empresa no Douro Superior, plantadas em diferentes altitudes. A extração que se pretendia, com taninos na medida e a máxima expressão da fruta, foi conseguida graças a um equipamento importado da França, que fazia a remontagem por bomba em balseiros. O controle de temperatura foi feito com pedras de gelo, que eram levadas em caminhões de Matosinhos para o Pocinho, garantindo assim a fermentação alcoólica entre os 28 e os 30 graus centígrados. Foi enfrentando essas dificuldades que nascia o primeiro grande tinto de Portugal.

A safra 2008 mostra todas as características dos grandes Barca Velha, com estrutura única, encorpado, sedoso, com abundantes aromas que vão se abrindo aos poucos e com taninos finos e potentes, o que presume um grande potencial para envelhecer. É um vinho sedutor, que conquista e faz jus à fama.

 O produtor

A Casa Ferreira pertence desde 1987 ao grupo Sogrape, um dos gigantes na produção de vinhos em Portugal, e com projetos na Argentina, na Espanha e na Nova Zelândia.

Barca Velha

 A quinta da Leda

Adquirida em 1979, em meados da década de 1980 passou a produzir as melhores uvas da empresa. Trata-se da principal propriedade da Sogrape, situada no Douro Superior, com 160 hectares de vinhas. Ali estão plantadas as principais uvas de Portugal, como a Touriga Nacional, a Tinta Roriz, a Touriga Franca, a Tinta Barroca e a Tinto Cão. Nela estão 30 hectares especiais, que recebem uma atenção maior por produzir uvas diferenciadas.

Suas vinhas mais antigas têm atualmente cerca de 30 anos. A Quinta da Leda também foi o local escolhido para receber 197 clones de Touriga Nacional para um estudo de variabilidade genética da casta e ver quais os clones mais rentáveis.

A adega da Quinta da Leda foi montada para facilitar o trabalho do enólogo, toda na vertical, dando prioridade à recepção das uvas no plano superior e utilizando a força da gravidade para a movimentação das massas vínicas, o que garante um fluxo muito mais natural com ganho de qualidade para o vinho. Conta, entre outros equipamentos, com 21 cubas de fermentação com controle de temperatura e remontagem automática, oito lagares tradicionais com pisa robótica e 27 cubas de armazenamento.

 Timaço de enólogos

A equipe de enologia da Casa Ferreirinha é uma das mais conceituadas e, em 64 anos de história do projeto Barca Velha, teve apenas três comandantes. São eles o lendário Fernando Nicolau de Almeida, o pai do vinho; José Maria Soares Franco, que hoje toca o projeto Duorum; e, desde 2007, Luís Sottomayor, que faz parte da equipe de Fernando Nicolau. Por sua competência, conhecimento e liderança, hoje ele dirige a equipe de enologia de todas as marcas de vinho do Porto e Douro, da Sogrape. “O segredo dos grandes vinhos está nas vinhas e na paixão das adegas, mas sobretudo no respeito às tradições”, diz Luís. “O Barca Velha é misterioso, que se mostra aos poucos. Precisa de tempo para ser descoberto.”

O Douro

O Douro, onde são produzidos os vinhos do Porto e os de mesa da Casa Ferreirinha, como o Barca Velha, é a primeira região demarcada do mundo. A cultura da vinha por lá data do período da ocupação romana. No século XII, com a independência de Portugal, inicia-se o desenvolvimento da viticultura no Vale do Douro. Ela se situa no nordeste de Portugal e se desenvolve pelo Vale do Rio Douro. Está dividida em três sub-regiões: Baixo Corgo (ocidental); Cima
Corgo (central) e Douro Superior (oriental, que em seu limite faz fronteira com a Espanha).

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