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Em uma viagem dos sócios pela Bélgica, nasceu a ideia de criar a Jeffrey, cervejaria que conquistou as mesas badaladas

Por: Prazeres Da Mesa | 28.jun.2017

Por Ursula Alonso Manso, do Rio de Janeiro

Fotos Divulgação 

Fazia tanto tempo que a chef vinha procurando quem produzia aquela “cerveja do patinho”, que chegou a pensar que fosse importada. Até que uma garrafa foi parar em suas mãos, e ela ligou para a empresa. Gilson Val, sócio na Jeffrey, atendeu.

– Eu queria comprar a sua cerveja para servir em meu restaurante.

– Que ótimo! E qual é o seu restaurante?

– O RS.

– Roberta Sudbrack!? Eu sou seu fã.

– Você não está entendendo, eu é que sou sua fã.

Do diálogo entre Roberta e Gilson nasceu uma parceria que terminou em vizinhança – há um ano, a chef inaugurou o Garagem Da Roberta, onde serve hot dogs e afins, a poucos passos da loja da Jeffrey, aberta em 2014 entre as oficinas mecânicas da Rua Tubira, no Leblon. E a Jeffrey foi a única cerveja da carta até o fim do RS. Durante os Jogos Olímpicos de 2016, ela foi a cerveja oficial do Club de France, além de figurar nas cartas do Olympe, Irajá, Mr. Lam, Sushi Leblon e Cipriani, as casas de ponta no cenário da cidade.

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Para chegar a algumas das principais mesas da alta gastronomia carioca, porém, o caminho foi longo. Começou na Abadia de São Benedito, em Hamont-Achel. Amigos há mais de 15 anos, Gilson e Eduardo Brand cursaram juntos a faculdade de publicidade. Eduardo é cunhado de Renato Monteiro, que é amigo de infância de Raphael Bloise. Acostumados a viajar juntos, os quatro foram parar na Bélgica em 2011, em um roteiro proposto por Renato, apaixonado por cerveja.

Seguindo as dicas obtidas em um pub da cidade, bateram à porta do monastério, que é restrito – não costuma aceitar visitantes. Foram recebidos por um monge e conheceram seu quarto, simples, com armário de uma porta, uma cama de solteiro e, ao lado, uma barrica de carvalho. “Perguntamos em que momento ele bebia cerveja. Ele respondeu que era ao acordar e antes de rezar missa”, diz Gilson. “Foi um choque cultural quando entendemos que cerveja também é isso.” Um alimento milenar.

No retorno ao Brasil, não demorou muito para os quatro amigos se perguntarem como seria fazer cerveja e, se fizessem, que alma ela teria. Mais que uma desvantagem, o fato de nenhum deles nunca ter feito cerveja na vida terminou como vantagem. “Via o mundo das cervejas artesanais muito parecido com um clubinho de Harley-Davidson, queria fazer cerveja para alcançar todo mundo com bom gosto, como uma porta de entrada no universo das cervejas especiais”, afirma Gilson. Assim, ele e os outros três sócios na Jeffrey começaram a desenvolver a receita da Jeffrey Niña, apoiados por mestres cervejeiros da Confraria do Marquês. “Não estávamos preocupados com tendências, então arriscamos estrear com uma Witbier, enquanto normalmente se começa com uma IPA ou Pielsen.”

Lançada em 2012, a Jeffrey Niña tem, hoje, vendas mensais de cerca de 130.000 litros, 100.000 deles consumidos no Rio. E mantém as características artesanais do princípio, com o limão- -siciliano, um de seus principais ingredientes, raspado à mão (para dar conta da produção, são quase 80 toneladas da fruta por mês). A Niña passa por 22 dias de maturação e sai de unidades arrendadas em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, e Jacaraípe, no Espírito Santo, enquanto a fábrica própria de Petrópolis está em construção. No caso da Red Pielsen, lançada em 2015 com base  em um malte alemão vermelho e raro, garimpado por Tiago Dardeau, da Confraria do Marquês, são 35 dias de maturação.

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Mas o coração da Jeffrey bate mais forte mesmo na Rua Tubira. Ali, qualquer cliente que vá visitar a loja da marca – que ainda funciona como galeria de arte, já tendo recebido exposições de Carlos Vergara e Luiz Zerbini – pode (e deve) subir ao laboratório no mezanino para provar os protótipos na fonte. “Um dos momentos mais legais foi quando recebi um turista alemão, que provou o primeiro copo da Red Pielsen e se transportou para Berlim, aos 16 anos, na primeira cerveja que tomou em companhia do pai”, diz Gilson.

Fiéis à própria origem e à filosofia de que não é preciso ser cervejeiro para fazer cerveja, os sócios na Jeffrey também costumam promover mesas criativas cheias de temperos, frutas e especiarias, a fim de desencadear processos de “beerstorming” (em alusão ao brainstorming). Já participaram delas chefs como Roberta Sudbrack, Thomas Troisgros, Pedro de Artagão, Pedro Siqueira, André Mifano, Checho Gonzales, Jimmi Ogro e Natacha Fink, além do ator Rafael Cardoso, do artista plástico Carlos Vergara e do maestro Isaac Karabtchevsky.

Algumas das receitas que surgiram nesses momentos serão lançadas neste ano, na linha Jeffrey Concept. “São sabores que foram criados pelos convidados, e não simplesmente assinados por eles”, afirma Gilson, deixando claro que nem só de cerveja é feita a Jeffrey. Criada para ser uma marca de produtos especiais que tem na cerveja seu core business, a empresa se aventurou pelo mundo dos sucos de uva naturais em 2016, lançando quatro sabores. Mas esse já é outro capítulo dessa história.

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