Prazeres da mesa

Reportagem

MUITO ALÉM DA BARRA

Entre momentos de sucesso e baldes de água fria, Claudia Schultz aposta em seus produtos como forma de revitalizar o mercado brasileiro de chocolate

Por: Prazeres Da Mesa | 3.apr.2018

Por Beatriz Albertoni

Fotos Ricardo D’Angelo

A imersão de Claudia Schultz no mundo dos chocolates começou por acaso, ainda no início da feirinha do Parque da Água Branca, na Zona Oeste de São Paulo. Hoje proprietária da Chokolah, uma das melhores marcas desse segmento no país, Claudia aproveitou a participação da mãe na feira, que vendia hortaliças, para comercializar os chocolates que produzia em casa e contribuir com a renda da família. “A feirinha, lá na década de 1990, foi o caminho para eu chegar à Chokolah”, diz. “Fiquei conhecida de algumas pessoas que queriam revender meus produtos em suas lojas e restaurantes. Quando vi, estava com 400 pontos de venda na cidade.”

A partir daquele momento, o sonho de Claudia consistiu em preparar e apresentar um chocolate orgânico e mais saudável, como alternativa para as opções encontradas nas gôndolas de supermercados. “Aqui no Brasil, chocolate nunca foi tratado como alimento, é uma guloseima barata com alto teor de açúcar e gordura. Mas isso está mudando, principalmente pelo conceito bean to bar (do grão à barra), trazido dos Estados Unidos”, afirma.

 Em 2002, o Brasil realizou a primeira exportação de cacau orgânico, plantado por membros da Cooperativa dos Pequenos Produtores e Produtoras Agroecologistas do Sul da Bahia (Coopasb). Na época, Claudia era estudante de sociologia e foi convidada por uma ONG para integrar a equipe de apoio técnico em um projeto de processamento de cacau, a fim de valorizar o produto tupiniquim. Ciente de suas limitações no ramo, a doceira começou a estudar ainda mais sobre o assunto.

“Infelizmente, o projeto não deu certo, mas ali descobri toda a ciência por trás do cacau, do chocolate, e também o bean to bar. Foi quando decidi que era isso o que eu queria fazer e não larguei mais. Virou um encantamento que vivo até hoje”, diz. Aproveitando a nova paixão e também o surgimento da primeira empresa brasileira de maquinário para fazer chocolate, em 2009, Claudia lançou a própria marca, com a promessa de revolucionar o mercado nacional.

Muito além da barra - Chokolah

Fazer diferente

A preocupação de Claudia com os chocolates vai muito além da questão nutricional. O resultado de seus produtos depende, em grande parte, dos produtores de cacau. “Existe uma parte do processo que acontece na lavoura”, afirma. “É antieconômico trazer o fruto para a fábrica, pois a semente começa a germinar logo após o corte. O custo é muito alto.”

Por causa disso, a Chokolah busca trabalhar com pequenos e médios plantadores, como forma de valorizar toda a cadeia do chocolate. “Pago no cacau o dobro que as moageiras. Isso valoriza o trabalho do pequeno produtor”, diz. “Em termos sociais, isso é muito legal. E ainda procuramos oferecer produtos acessíveis, pois quanto mais gente consumir, mais cacau compraremos. Toda a cadeia ficará feliz.”

No entanto, Claudia acredita que o consumo de chocolates no Brasil ainda carece de grande avanço. “Já reparou que quem toma café com açúcar varia a quantidade de um para o outro? Isso vai depender em grande parte da colheita e das condições do grão, do amargor que vai pedir menos ou mais açúcar. Aqueles de boa qualidade precisam de pouquíssimo ou quase nada. Com o chocolate é a mesma coisa. Um cacau ruim requer muito açúcar, e isso é mais barato, inibindo assim o consumo”, afirma.

As barras de chocolate da marca contêm baixo teor de açúcar, dando margem a evidenciar todo o sabor do cacau. O ao leite e o branco, para compensar, recebem adição de manteiga de cacau e castanha-de-caju, o que atribui ao produto final uma textura diferenciada, com mais cremosidade. “Eu também trabalho o sabor e o aroma na torra do grão. É impressionante quantos resultados diferentes podemos obter com a oscilação da curva da torra e do tempo. Mas isso eu nunca ensino, é um segredinho nosso”, diz, brincando.

01/12

Seguir em frente

Quem vê Claudia e a equipe a todo o vapor, não imagina os percalços que surgiram em junho de 2016. Desde a inauguração da fábrica, com endereço em Cotia, os negócios iam muito bem. Até o momento em que foi preciso aumentar o espaço para dar conta da demanda. “Resolvemos mudar para uma planta nova, na Estrada do Vinho, em São Roque. Uma grande expansão, com máquinas maiores”, afirma Claudia.

O grande investimento foi por água abaixo junto à forte chuva que passou pela região, devastando a nova fábrica e adiando o sonho de Claudia. “Apostamos muito dinheiro e só ficamos quatro meses em funcionamento”, diz. Mas nem por isso a chocolateira abandonou seus objetivos. Um tempo depois, alugou novo espaço, também em São Roque, para continuar a linha de produção.

“Pretendemos voltar para lá”, afirma esperançosa. “Ainda não estamos em obras porque o terreno está irregular e os custos são altos. Mas, agora, esse é o objetivo principal para dar continuidade à nossa missão.”

Muito além da barra - Chokolah

 *Matéria publicada na edição 168 de Prazeres da Mesa

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