Prazeres da mesa

Vinhos

NOVA JOIA DO DOURO

A produção da Quinta dos Murças Reserva é recente, mas o valioso patrimônio existente nos vinhedos e na equipe enológica criou um atalho para colocar o tinto do Douro entre os grandes

Por: Prazeres Da Mesa | 2.apr.2018

Por Marcel Miwa

Fotos divulgação

A Quinta dos Murças renasceu em 2008 quando a propriedade duriense foi comprada pela família Roquette, a mesma que controla com classe e competência O Esporão. Aqui vale um pequeno parêntese para explicar que a família Roquette, da mesma forma que o clã Rothschild, em Bordeaux, também tem duas ramificações que atuam no setor vitivinícola. Depois do exílio em terras brasileiras, os irmãos Jorge e José Roquette retornaram a Portugal e, entre outras atividades, compraram vinícolas no Douro e no Alentejo. José Roquette fundou a herdade O Esporão, no Alentejo, e Jorge adquiriu a Quinta do Crasto, no Douro. Assim os Roquette, de O Esporão, atualmente sob o comando do filho de José, João Roquette, compraram a Quinta dos Murças, localizada no Cima-Corgo (em um setor mais próximo ao Baixo-Corgo), na margem direita e com a cobiçada exposição solar ao sul. Para os gastrônomos, basta dizer que a quinta está em frente ao restaurante DOC, de Rui Paula, outra boa referência na região.

Da área de 155 hectares, os vinhedos dos Murças ocupa apenas um terço do total, cerca de 50 hectares são dedicados a eles. O restante está coberto por florestas e outras culturas frutíferas, como oliveira, laranjeira e amendoeira, formando uma biodiversidade considerada importante para a prática da viticultura orgânica e de manejo integrado. A área dedicada aos vinhedos parte da margem do Douro e sobe pelas íngremes encostas (que chegam a 50 graus de inclinação) até a altitude de 300 metros. Como curiosidade, a propriedade é considerada pioneira em plantar “vinhas ao alto” (quando as fileiras das vinhas ficam perpendiculares à margem do rio) no Douro e tanto a linha Reserva quanto o recém-lançado VV 47 são produzidos exclusivamente de parcelas de vinhedo conduzidas dessa forma. A enologia esteve a cargo da mesma dupla que fazia os tintos de O Esporão, David Baverstock e Luís Patrão. Depois da saída do segundo, o jovem e talentoso José Luís Moreira da Silva, egresso do projeto Duorum, no Douro Superior, cuida exclusivamente dos Murças desde 2015. Baverstock segue na supervisão enológica.

Hoje, os vinhos tranquilos (também fazem Porto) subdividem-se nas linhas Assobio, com branco, rosé e tinto, Quinta dos Murças Reserva e os mais recentes Murças Margem, Minas e VV 47, que retratam o foco atual em trabalhar expressões das oito expressões singulares identificadas nos vinhedos (no total,  são 50 parcelas, todas vinificadas separadamente). Como muitas parcelas são antigas, algumas de 1947, as castas estão misturadas no vinhedo. No Reserva, a idade média das videiras supera 40 anos e predominam a Touriga Nacional, a Touriga Franca, a Sousão, a Tinta Amarela, a Tinta Barroca e a Tinta Roriz. As uvas, colhidas manualmente e das parcelas mais íngremes com a ajuda de cordas, são levadas aos lagares de granito, pisadas a pé e, via de regra, a fermentação se inicia de forma espontânea. Em seguida, o vinho estagia por 12 meses em barricas de carvalho, a maior parte francesas e de segundo uso. A degustação conduzida por José Luís contemplou todas as safras dos Murças Reserva lançadas até o momento. Vamos às particularidades de cada ano.

2008

91 pontos

O ano da compra da propriedade pelos Roquette deu origem ao primeiro Reserva. As barricas usadas (francesas e americanas) foram trazidas do Esporão. Cerca de 15% eram novas. Quanto ao clima, o ano foi considerado  normal, com verão seco, mas com temperaturas amenas. Na taça, o vinho ainda se mostra jovem. No nariz, frutas negras maduras (cereja e amora), coco e pão tostado. Potente na boca, com taninos compactos começando a amaciar e frescor correto, que recebe o reforço das notas de tomilho e mentol.

2009

90 pontos

O ano quente e seco obrigou a uma colheita antecipada. O percurso se dividiria em uma expressão herbal com taninos duros, ou madura, repleta de fruta e com taninos generosos. A degustação mostrou que se adotou a segunda opção.

A fruta vermelha e negra exuberante no nariz flerta com as compotas, com um toque de alcaçuz e baunilha. Na boca, as frutas cristalizadas ditam o estilo do vinho e recebem o bom suporte da grande quantidade de taninos, mas muito finos e gordos, macios e nada agressivos. O frescor é suficiente e, no final, o vinho se mostra amplo e longo, ajudado pela textura levemente glicerinada.

2010

92 pontos

A safra considerada difícil pelo clima frio e com chuvas acima da média justificou a máxima – da dificuldade nasce a qualidade. Embora a intensidade seja menor, nessa edição o vinho mostra mais complexidade e outras nuances. Há um salto na expressão precisa da fruta e marca uma mudança no estilo do vinho. O aroma das frutas negras frescas recebe a companhia de toques florais (violeta), tosta sutil, cedro e pimenta–preta. Na boca, mostra um lado elegante e fresco e mineral, com álcool bem integrado, boa acidez com frutas negras, ervas e grafite. Os taninos são muito finos, acetinados e bem ajustados ao conjunto. O vinho mais comportado do painel, mas que se bebe facilmente e com prazer desde já.

2011

93 pontos

Essa safra foi considerada uma das melhores já registradas no Douro, com instabilidade no começo do ciclo, que reduziu a produtividade e, em seguida, clima seco, com calor moderado e estável. O perfil de 2010 se mantém com fruta fresca, violeta e ervas,  mostrando-se de forma cristalina mas com um nível de intensidade acima. A concentração e a untuosidade também receberam um upgrade em relação à safra anterior, suportadas pelo álcool muito bem integrado e pelos taninos abundantes e muito acetinados. No final, a violeta e a ótima acidez deixam o conjunto vibrante, e os tostados e as especiarias aparecem de forma discreta, dando a sensação de boa complexidade. Aqui, a paciência será bem recompensada.

Murças Reserva 2010

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